Oura vai entrar na bolsa. Empresa dos anéis inteligentes nas mãos de CEO e príncipes pode valer 15,6 mil milhões

‘Senhora dos Anéis' vai entrar no Nasdaq e pode ser "teste ao apetite dos investidores”. Fabricante do Oura Ring, avaliada em 11 mil milhões, conquista Zuckerberg e mais gurus de Silicon Valley.

Nasceu na cidade finlandesa de Oulu, a duas horas de comboio da Lapónia, a próxima tecnológica badalada a entrar em Wall Street. A Oura Health, conhecida pelos anéis inteligentes Oura Ring, lançou esta segunda-feira uma oferta pública inicial (IPO – Initial Public Offering) para captar até 2,2 mil milhões de dólares (cerca de 1,9 mil milhões de euros) numa entrada em bolsa onde planeia colocar 50 milhões de ações a um preço entre 40 e 44 dólares cada (34 a 38 euros).

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A fabricante dos anéis digitais que atingem os 500 euros foi fundada em 2013, mas foi nos últimos anos que ganhou mais mediatismo (e dinheiro) por aparecer no dedo de grandes personalidades dos negócios e até da família real britânica. O interesse de Silicon Valley pela argola que mede batimentos cardíacos, qualidade do sono ou oxigénio no sangue foi tanto que a empresa criou mais uma sede nos Estados Unidos, em São Francisco, sem nunca deixar a base viking.

Em menos de um ano, o valor da Oura Health duplicou para 11 mil milhões de dólares (na ordem de 9,6 mil milhões de euros), após concluir uma ronda de financiamento série E na qual levantou 875 milhões de dólares (769 milhões de euros) junto de investidores norte-americanos. É precisamente lá que tem o maior cliente público, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, que comprou milhares de anéis para medir o cansaço dos militares.

Já em plena pandemia de Covid-19 estes anéis fizeram correr tinta, porque a liga de basquetebol NBA comprou 2.000 unidades para os jogadores poderem controlar a febre e tentarem conter o vírus. Mais recentemente, surgiram nas mãos da ‘estrelinha da sorte’ dos New York Knicks Jalen Brunson e do príncipe Harry. O fundador da Dell Technologies, Michael Dell, foi mais longe e decidiu investir com a compra de uma participação na multinacional liderada por Tom Hale.

Como longe vão os tempos em que dormir pouco era sinal de produtividade e liderança (mesmo Elon Musk, que se gabava das suas 120 horas de trabalho semanais, recuou e admitiu que tem de descansar, pelo menos, seis horas para ser produtivo), o presidente da Meta, Mark Zuckerberg, também é um dos entusiastas por esta tecnologia de fitness. O cofundador do Facebook disse, numa entrevista à revista Forbes em 2023, que dormia oito horas por noite e usava o Oura Ring para se informar sobre “o nível de sono profundo e o ritmo cardíaco”.

Rotina semelhante tem o CEO da Lyft, concorrente da Uber. Logo ao acordar, antes de lavar os dentes, David Risher olha para os dados do seu anel preto, na sua mão direita desde 2024, para ver se efetivamente dormiu bem. Em entrevista à Sherwood News, enalteceu que a Oura “acertou em cheio na experiência do cliente”, dando “informações suficientes” sem ser “insistente”.

Oura Health está em tribunal por “adivinhação”

Nem só de boas notícias vive o Lord of the Rings (“Senhor dos Anéis”) Tom Hale. Em agosto, a Oura Health foi processada em tribunal com uma acusação de que os seus modelos de inteligência artificial fazem guesswork (adivinhação). Numa ação judicial que deu entrada na Califórnia, interposta por um escritório de advogados que representou uma cliente que comprou um anel por mais de 500 dólares, alega-se que o aparelho não é capaz de medir com precisão a qualidade do sono nem identificar as fases do sono. Ou seja, capta só indicadores indiretos, como frequência cardíaca, temperatura cutânea, movimento e níveis de oxigénio no sangue, portanto faltam-lhe dados e mesmo assim as “pessoas fiam-se nessa informação para a sua saúde, o que é um perigo”, como relatou a Quartz. Isto porque o dispositivo alega que pode prever quando o utilizador vai ficar doente com a medição constante da temperatura corporal.

O CEO do atípico unicórnio da eletrónica de consumo não perdeu tempo a responder à acusação e a publicar no website uma nova análise científica à sua joia da coroa. Nenhum algoritmo é perfeito, e nenhum cientista afirmaria o contrário. Mas uma abordagem simplista como ‘cara ou coroa’ não reflete a tecnologia nem as provas”, escreveu o gestor, na rede social Linkedin. Um dos argumentos de defesa que a empresa utiliza várias vezes é que o sensor colocado no dedo está mais próximo de uma artéria, recolhendo dados biométricos mais fiáveis do que os registados por dispositivos no pulso.

IPO será teste ao apetite dos investidores

O anúncio da Oura, por chegar em época de incerteza, está a ser visto internacionalmente como um catalisador para a retoma dos IPO no outono. No entanto, mais do que um acelerador, os analistas veem-no como um “barómetro ao apetite dos investidores” e ao ritmo das ofertas públicas iniciais nos próximos meses.

“Poderá ser mesmo um importante teste ao apetite dos investidores por novas entradas em bolsa. É uma empresa tecnológica com forte crescimento das receitas, já é lucrativa e, no limite superior de 44 dólares por ação, a avaliação é de 15,6 mil milhões de dólares [13,7 mil milhões de euros]. A Oura é atualmente líder num mercado ainda pequeno, mas em forte crescimento, enfrentando concorrência crescente de fabricantes como a Samsung”, diz Paulo Monteiro Rosa, coordenador do gabinete de estudos económicos do Banco Carregosa.

Na opinião de Henrique Silva, analista da ActivTrades Portugal, este IPO surge num “momento particularmente forte” para a Oura. “Nos nove meses terminados em junho, as receitas cresceram 74%, face ao período homólogo, para cerca de 1,21 mil milhões de dólares [aproximadamente 1,06 mil milhões de euros], enquanto o lucro líquido passou de 1,6 milhões para 60,8 milhões de dólares [cerca de 53,5 mil milhões de euros]. A base de subscritores pagos também duplicou, atingindo cinco milhões em junho, o que reforça a componente de receitas recorrentes do negócio”, realçou.

O prospeto do IPO indica que a tecnológica de saúde e bem-estar, que vai negociar o código “OURA”, vendeu 3,6 milhões de anéis Oura num ano, de 30 de junho de 2025 a 30 de junho de 2026. Os bancos norte-americanos Goldman Sachs, Morgan Stanley e JP Morgan são os principais coordenadores da operação.

Segundo os especialistas, se a procura do IPO for elevada – perto do teto do intervalo previsto – e o desempenho das ações for bom, nos dias e nas semanas seguintes à estreia na praça nova-iorquina, poderá incentivar outras empresas a avançarem também para dispersão de capital. “Ainda assim, essa retoma dependerá também das condições gerais do mercado”, ressalva Henrique Silva.

“O atual cenário é pouco favorável, com a guerra, os preços elevados dos combustíveis e a subida das taxas de juro a pressionarem os mercados. As yields têm subido, com a taxa a 10 anos dos Estados Unidos a chegar esta quinta-feira aos 5,13%, o valor mais elevado desde 2007, penalizando as avaliações das empresas”, explica Paulo Monteiro Rosa.

O economista considera que a opção pelo Nasdaq é “natural” por ser uma empresa tecnológica e centrada nos clientes dos Estados Unidos, apesar da origem finlandesa. Ademais, o mercado norte-americano tem maior liquidez, visibilidade e capacidade de captação de capital. “Menos de 20% das receitas de hardware são geradas fora dos Estados Unidos”, explica Paulo Monteiro Rosa, acrescentando que a ligação à saúde e aos dispositivos wearable conta com “uma base alargada de investidores familiarizados com este tipo de negócio” no Nasdaq.

Henrique Silva lembra que a maior economia do mundo é o principal mercado da Oura, “uma importante fonte de financiamento, a segunda sede (em São Francisco) e este ano até a casa-mãe foi transferida para os Estados Unidos. “A escolha do Nasdaq é, por isso, coerente com essa evolução, e oferece acesso a uma base mais ampla de investidores e a uma maior disponibilidade de capital, especialmente no setor tecnológico”, frisa Henrique Silva.

Ações fitness com ‘efeito ioiô’

A Oura vai competir na bolsa de Nova Iorque com as outras chamadas fitness stocks, um grupo onde estão empresas como Garmin, Planet Fitness, Life Time Group, Peloton Interactive, Xponential Fitness, Beachbody ou Fitness Champs, que também desenvolvem e vendem acessórios tecnológicos (wearables), ginásios, apps de fitness, aulas de natação, entre outros. Certo é que a performance entre todas tem variado significativamente.

“O desempenho das ações ligadas ao fitness em Wall Street tem sido bastante desigual, com casos de sucesso e outros de forte destruição de valor. É um setor muito sensível às tendências de consumo: um produto ou dispositivo pode conquistar rapidamente milhões de utilizadores, mas transformar esse entusiasmo em procura duradoura é mais difícil”, diz Henrique Silva, sublinhando que “um produto popular não garante um bom investimento se a avaliação da empresa já incorporar expectativas demasiado otimistas”.

O mesmo defende Paulo Monteiro Rosa. “A Garmin, uma das empresas talvez mais comparáveis com a Oura, ganha 40% desde o início do ano, beneficiando do forte crescimento das vendas e dos resultados. Já a Peloton perde 22% este ano e mais de 40% nos últimos 12 meses, continuando muito abaixo dos máximos do final de 2020 e início de 2021 de 150 dólares (perde cerca de 97%)”, exemplifica, esclarecendo que estes dados demonstram que os investidores fazem bastantes distinções entre empresas com crescimento das receitas, lucros e capacidade de aumentar margens e as que continuam com dificuldades em recuperar. E a Oura? Terá uma entrada de ouro? A subida nas receitas e os lucros poderão ser importantes, mas as avaliações continuam pressionadas pela subida das yields.

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