Restaurante N.º 6: português de 4 costados
Conversas após uma refeição. 2àMesa é uma rubrica quinzenal do ECO Avenida sobre restaurantes que abriram em 2026. Desta vez, sobre o N.º 6.

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Caro P.
Todos os restaurantes têm um passado, mesmo que surjam aos nossos olhos em modo de estreia absoluta. O Nº 6 (Rua da Esperança, 6, em Lisboa), traz na bagagem a experiência em restauração dos quatro mentores do projecto e não renega a passagem de dois deles (Pedro e Natacha) por uma das melhores casas da capital, o Coelho da Rocha. A inspiração é visível na carta e no talento de tornar notáveis as coisas simples. Mas, antes de falar da refeição, gostaria de me deter no nome do restaurante. Na nomenclatura, optou-se, também, pela simplicidade: o nº 6 refere-se ao número da porta e este é a única sinalização do estabelecimento: não há aqui espaço para toldos espampanantes ou design rebuscado. O mesmo se diga da decoração frugal, mas confortável, e do menu que segue o mesmo princípio, colocando o foco na matéria-prima e listando pratos que são o que anunciam: filetes de peixe galo, arroz de perdiz, lulinhas fritas ou pastéis de massa tenra com bochechas de vitela. Sem outros adornos ou espumas que nada acrescentam à nossa felicidade. E, é verdade, prezo esta economia descritiva, sobretudo quando a comida merece, como é o caso, os melhores adjetivos.

Caro M.
Vem ao caso sublinhar, a propósito de nomes que são números e de passados que vale a pena recordar, que o Nº 6 poderá dar seguimento a uma linha de históricos – e saudosos! – restaurantes com toponímia semelhante como o 31 da Armada e o 33 na Rua Alexandre Herculano. E, sim, o espaço, está muito bem conseguido. É de salientar a original mesa para oito, de formato oval, na sala mais interior e com vista integral para a cozinha. Na sala principal, o espaço é marcado por um bar suspenso no teto em vidro translucido que encima o balcão que nos recebe à entrada. Os peixinhos da horta são servidos com maionese de gengibre e lima. E a massada de garoupa com camarões e ameijoas saiu do tacho no ponto e com um tempero à prova de reparo. O picante, caseiro, à laia de fine tuning, apurou ainda mais o que já se qualificava de muito bom. O vinho, Penetra (arinto de Lisboa, 2023), sugerido por um dos jovens sócios, permitiu assegurar a transição do peixe para a carne sem qualquer hesitação ou desequilíbrio.

Caro P.
Fizeste-me recordar outras extraordinárias refeições no jardim do 33, um restaurante que dava ares de pub inglês e onde um pianista tocava todas as noites. E, por falar em memórias, este Nº 6, com a sua cozinha impecavelmente limpa e aberta para uma das salas, faria seguramente as delícias do meu avô que só se sentava num restaurante depois de visitar o espaço onde as refeições eram confecionadas. Presumo que terá tido grandes deceções…
De regresso ao presente e ao restaurante da Rua da Esperança, nº 6, deve ser, ainda, destacada a ótima seleção (agora, também se diz curadoria, por ser mais fino) de vinhos. Escolhas que não são óbvias, mas que representam condignamente a produção vinícola nacional, e com a particularidade de todos os vinhos disponíveis poderem ser consumidos a copo. Um bom princípio, pouco seguido pela restauração em Portugal, para promover o consumo moderado de vinhos de qualidade, não remetendo os bebedores de um copo só para as piores garrafas da carta. Uma última nota para averiguar numa próxima visita: optará o Nº 6 pela introdução de um menu executivo ou ficar-se-á pelos pratos do dia com preços entre os 18 euros (Bacalhau à Brás) e os 36 euros (Arroz de Carabineiros)? E, já agora, uma curiosidade, achas que esta tendência dos menus executivos acrescenta alguma coisa à restauração?

Caro M.
Gostava de dizer isto de outra forma, mas não consigo: tenho um profundo desinteresse por menus executivos. Talvez por nunca ter visto esta abordagem tratada de acordo com o perfil da casa que a serve. Ou seja, não acrescenta. Desfoca e desposiciona. O Nº 6, por outro lado, é uma surpresa muito agradável. Perante pratos que exigem mão, não se atemoriza e apresenta-se com critério e qualidade a servir cozinha portuguesa levada à letra, claramente acima de um seis em dez.

Nº 6
R. da Esperança 6, Lisboa 1200-657
967 782 253
Aberto de segunda a sábado das 12h às 15h30 e das 19h às 02h
Encerrado ao domingo
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