Media em crise? O capital diz que ainda há oportunidades

A crise dos media é um diagnóstico repetido há anos, mas não impede a chegada de investidores a Portugal. Bauer, Ringier e MFE veem oportunidades num mercado em transformação.

ECO Fast
  • No DIa Mundial do Jornalismo, há alertas para a crise da desinformação e a importância do jornalismo, destacando que ainda é possível reverter essa situação.
  • O setor de media em Portugal enfrenta desafios significativos, como a pressão sobre receitas e a migração de audiências para plataformas digitais, mas continua a atrair investidores internacionais.
  • A entrada de capital externo pode fortalecer a sustentabilidade financeira dos media nacionais, oferecendo oportunidades em um cenário de transformação e concorrência crescente.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

“Quando uma comunidade deixa de ser bem informada, uma lenta e gradual catástrofe social e política se segue. Já estamos nesse caminho — mas ainda não é tarde demais para pará-lo.” A frase é de Alberto Ibargüen, antigo editor do The Miami Herald e do El Nuevo Herald, e ex-presidente da Fundação John S. e James L. Knight, e integra um dos 21 artigos de opinião reunidos pela World Association of News Publishers (WAN-IFRA) para assinalar o Dia Mundial do Jornalismo, que se celebra esta segunda-feira.

Escolha o ECO como fonte preferida no Google

Escolher

Com a IA, desinformação e liberdade de imprensa como pano de fundo, estes 21 jornalistas (cujos artigos podem ser republicados desde que atribuída a fonte) explicam por que o jornalismo é mais importante do que nunca, procurando fazer olhar para aquilo que diferencia a produção profissional de notícias, num ecossistema onde a informação chega primeiro pelas redes sociais, os creators disputam a atenção das audiências e a IA já produz conteúdos em segundos. Ou seja, e resumindo, num mundo em que todos podem publicar, o jornalismo tornou-se ainda mais necessário.

A importância do jornalismo contrasta, no entanto, com a fragilidade do setor que o produz. As empresas de media enfrentam há anos uma pressão crescente sobre as receitas, a perda do investimento publicitário para as plataformas digitais, a fragmentação das audiências e, mais recentemente, o impacto da inteligência artificial na distribuição e no consumo de informação.

O cenário não é novo, peca por falta de originalidade e não é exclusivo de nenhuma geografia, com a expressão “crise nos media” a fazer parte do léxico da indústria há pelo menos duas décadas.

Mas há uma aparente contradição no mercado português dos media. Há anos que o diagnóstico se repete. Receitas publicitárias pressionadas, audiências fragmentadas, leitores a migrar para plataformas digitais, redações emagrecidas, margens comprimidas e, em alguns casos, dívida elevada. Ainda assim, nos últimos anos, somam-se os grupos internacionais que decidiram entrar Portugal.

A alemã Bauer Media entrou em Portugal em 2022, ao concluir a compra da Media Capital Rádios, dona de marcas como Rádio Comercial, M80, Cidade FM ou Smooth FM, operação que marcou a sua entrada no mercado nacional e que o grupo justificou com a atratividade do mercado de áudio português.

Pouco depois, lançou também em Portugal a rede de publicidade digital audioXi, sinalizando que a aposta não era apenas em FM mas numa estratégia mais ampla de monetização digital do áudio, e já este ano anunciou a criação de um hub tecnológico do grupo em Portugal.

Em 2023, a suíça Ringier entrou no mercado português através da compra de A Bola e A Bola TV, num movimento assumidamente orientado para uma estratégia “digital first” e para a consolidação de uma plataforma europeia de media desportivos.

Já mais recentemente, a italiana MFE-MediaForEurope avançou para a compra de uma participação de 32,9% na Impresa, dona da SIC e do Expresso, num investimento de 17,3 milhões de euros. A operação foi apresentada como uma parceria industrial, não uma tomada de controlo, com racionais claros: reforçar um projeto de escala europeia, tirar partido de sinergias comerciais e tratar Portugal e Espanha como um mercado publicitário cada vez mais integrado.

Ora, se o setor está em crise, porque continua a atrair investidores internacionais?

“Portugal continua a ser um país atrativo a todos os níveis”, destaca Pedro Baltazar, sublinhando que o setor da comunicação social não podia ficar alheio a esta dinâmica. Na opinião do dono da Nova Expressão, o interesse de grupos internacionais — como a Bauer Media, a Ringier ou a MFE-MediaForEurope — é um reflexo de uma visão pragmática e racional do mercado, onde a qualidade dos profissionais portugueses, aliada a custos de estrutura competitivos face a outros países europeus, torna o investimento lógico.

Para Luís Nazaré, a entrada de capital externo responde a uma falha estrutural histórica no ecossistema mediático nacional, a falta de capitalização. “Se há investimento nos media é porque, de alguma maneira, se veem oportunidades”, afirmava o diretor executivo da Plataforma de Meios Privados (PMP) em conversa com o +M.

Para o gestor, o setor possui ativos com enorme valor informativo, formativo e de entretenimento, mas que careciam de solidez económica. “Havia um défice de capitalização”, explica Luís Nazaré, acrescentando que a entrada destes grupos permite aos media nacionais ganhar o “músculo económico” indispensável para assegurar a sustentabilidade financeira, num mundo onde a monetização da informação credível é o grande desafio.

A leitura que ambos aponta para uma transformação inevitável. Numa era marcada pela concorrência das plataformas globais e pela ascensão da Inteligência Artificial, a dimensão é crucial.

Pedro Baltazar defende que as consolidações são necessárias para que os grupos se tornem mais fortes. “Se o mercado ficar ou muito bom, ou muito mau, vai consolidar”, alerta, notando que, para sobreviver, as empresas terão de tomar decisões racionais, focando-se na eficiência e na modernização tecnológica. Pedro Baltazar destaca ainda que operações como a da Bauer em Portugal, ou o mais recente movimento da MFE na Impresa, são encaradas como investimentos sólidos que visam não apenas a produção local, mas a integração em estratégias europeias mais amplas.

Em suma, a crise dos media portugueses é real, mas vista através da lente do investimento estrangeiro, é também uma janela de oportunidade.

Mesmo internamente, a aposta nos media tem surgido, como provam o nascimento da Notícias Ilimitadas, dona do Jornal de Notícias e da TSF, ou a da Medialivre, antiga Cofina, que poucos meses depois de formada lançou o Now e a CM Rádio. “A Medialivre é um excelente exemplo. É um grupo que vai poder levantar capital, se surgirem oportunidades”, aponta o dono da agência de meios. “Há confiança, competência, e determinação nos media, sobre isso não há menor dúvida“, remata Luís Nazaré.

E, no Dia Mundial do Jornalismo, uma boa notícia. O investimento publicitário está a crescer quase 9%, em todos os meios, com excepção do cinema.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Media em crise? O capital diz que ainda há oportunidades

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião