BRANDS' ECO Indústria europeia do pescado disputa matéria-prima num mercado cada vez mais global
A Europa continua a ser um dos grandes mercados mundiais de pescado, mas enfrenta maior concorrência e custos mais elevados. Empresas portuguesas respondem com inovação e aposta em novos mercados.
Portugal pode ser o maior consumidor mundial de bacalhau e estar entre os países europeus onde mais peixe chega à mesa, mas isso não torna a indústria portuguesa imune a uma mudança que está a afetar todo o setor. A matéria-prima é hoje altamente disputada à escala mundial e a Europa já não ocupa a posição dominante que teve no passado, um dos temas em debate na Portugal Seafood Conference, organizada pela ALIF – Associação Nacional da Indústria pelo Frio e Comércio de Produtos Alimentares, em Lisboa.
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Na Riberalves, que processa cerca de 10% do bacalhau pescado anualmente, os últimos anos permitiram sentir uma pequena amostra desta nova realidade. A guerra na Ucrânia e as sanções aplicadas à Rússia obrigaram a empresa a procurar alternativas, num mercado em que aquele país tinha uma das maiores quotas de pesca. Ricardo Alves, CEO da empresa, critica sobretudo a forma como algumas das medidas europeias foram desenhadas, sem pensar em todas as consequências que teriam para as empresas. Um dos pacotes de sanções colocou uma taxa de 12% sobre a matéria-prima congelada proveniente da Rússia, enquanto o mesmo peixe, depois de processado num país terceiro, podia entrar sem essa penalização. “Vejo uma concorrência completamente desleal por alguém que criou uma regra sem saber o que estava a fazer”, critica.
Mas é a capacidade de adaptação que importa nos momentos de crise e, neste caso, a resposta passou por diversificar fornecedores e procurar novas origens. “Tivemos de ir atrás de mais produtores, de mais países produtores”, explica Ricardo Alves, apontando o regresso do Canadá à pesca do bacalhau como uma das alternativas. Ainda assim, a pressão não desapareceu e o consumo recuou perante o aumento do preço desta proteína. A isso juntaram-se ainda os desafios ao nível da logística, energia e o aumento generalizado dos custos de operação.

A dificuldade em garantir produto não é exclusiva do bacalhau nem de Portugal, garante Peter Bamberger, presidente da Associação Dinamarquesa de Pescado, que a coloca no topo das preocupações da indústria. “O maior desafio neste momento é o acesso à matéria-prima”, afirma, depois de 50 anos no setor. Na sua perspetiva, a resposta terá de passar pela criação de alianças entre empresas e fornecedores, num mercado em que as empresas de menor dimensão podem encontrar maiores dificuldades.
Portugal não é o maior [no mercado], mas é um dos maiores em qualidade
Do lado português, Manuel Ramirez vê uma oportunidade precisamente na capacidade de acrescentar valor à matéria-prima, até porque há novas tendências de consumo. “A sardinha em conserva está completamente na moda”, assegura o administrador da conserveira Ramirez, que aponta a conveniência, o teor de proteína e a associação a uma alimentação saudável como argumentos para crescer internacionalmente. “Portugal não é o maior, mas é um dos maiores em qualidade”, defende. A empresa está presente em cerca de 50 mercados e 70% da faturação é gerada pelas diversas marcas que o grupo detém, algumas com mais de um século de presença fora de Portugal.
A internacionalização, contudo, exige dinheiro, estrutura e persistência, algo que a Riberalves, que exporta para mercados onde existe uma relação histórica com o bacalhau, conhece bem. A empresa criou estrutura própria no Brasil e fez investimentos produtivos em Angola. “Acho que em Portugal há falta de associativismo e isso faz falta”, aponta Ricardo Alves, que aponta a cooperação entre empresas como uma forma de facilitar a entrada noutros países. Para chegar a novos consumidores será ainda necessário adaptar o próprio produto, nomeadamente por via da redução do sal, pela retirada das espinhas ou da alteração da embalagem.
Europa está a perder centralidade
É à escala europeia que Guus Pastoor, presidente da Seafood Europe, identifica um risco maior. A União Europeia (UE) continua a ser um dos maiores mercados mundiais, mas fornecedores que antes dependiam dos compradores europeus encontram hoje alternativas noutras geografias. “A Europa costumava ser um player central e isso já não é assim”, alerta. A crescente procura mundial vai aumentar a pressão sobre o abastecimento e obrigar as empresas europeias a permanecer suficientemente competitivas para conseguir pagar pela matéria-prima de que precisam.
Precisamos de ter uma implementação igual na Europa das diferentes regulações
A regulação – tema amplamente discutido durante a Portugal Seafood Conference – acrescenta outra dificuldade à lista de desafios sentidos diariamente pelos empresários. Pastoor considera que a complexidade das regras e, sobretudo, as diferenças na sua aplicação entre Estados-membros criam dificuldades à indústria. “Precisamos de ter uma implementação igual na Europa das diferentes regulações”, defende, alertando que os controlos podem variar de país para país e acabar por influenciar as próprias rotas de entrada dos produtos na UE. Num setor fortemente dependente das importações, essa questão ganhou um peso que ultrapassa a gestão corrente das empresas. “Antes, a logística era uma questão operacional, mas hoje é um tema estratégico”, sublinha.
Olhando para o futuro de um setor cuja procura continua a crescer, Peter Bamberger defende ainda que será preciso acompanhar a forma como as gerações mais jovens preparam as refeições. “Temos de nos adaptar à forma como os mais jovens preparam a comida”, insiste, explicando que é preciso apostar em novas receitas e apresentações mais atrativas para o consumidor, sobretudo num contexto em que “o peixe está a ficar muito caro”.
Entre a dificuldade de competir pela matéria-prima e o aumento dos custos, a indústria tem desafios que obrigam a uma gestão atenta e capaz de se adaptar. Para os especialistas, a resposta passa necessariamente pelo investimento na qualidade, na inovação e, sobretudo, nas alianças. Mas nada disto será suficiente sem uma melhoria na regulação, defendem. “Temos de andar mais rápido do que os decisores europeus”, aponta o CEO da Riberalves.
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