“O espaço nunca teve tanto dinheiro”, mas Portugal precisa de escala para transformar investimento em capacidade

Portugal investiu quase 700 milhões de euros no Espaço desde 2023, mas especialistas alertam que o país precisa de escala europeia, parcerias globais e clientes âncora para liderar na Defesa.

Painel “Drones, Espaço e Novos Materiais: Onde Pode Portugal Ser Estratégico para a Defesa Europeia?”Hugo Amaral/ECO

“O espaço nunca teve tanto dinheiro. Desde 2023 até agora, teve quase 700 milhões de euros“, destacou Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa, durante no painel da talk eRadar – Portugal na Era da Defesa, com o tema “Drones, Espaço e Novos Materiais: Onde Pode Portugal Ser Estratégico para a Defesa Europeia?”, esta segunda-feira no Estúdio ECO, em Lisboa.

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Mas o país precisa de escala e clientes para transformar investimento em capacidade. “Não é uma questão de dinheiro, de investimento. É uma questão de nós percecionarmos que com este dinheiro podemos fazer alguma coisa, podemos alavancar. É o fator de multiplicação”, afirma o presidente da Agência Espacial Portuguesa.

Emir Sirage, diretor da área do Espaço do CEiiA, lembrou que a agenda New Space Portugal, impulsionada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), trouxe para o setor uma lógica de investimento privado e uma maior exigência de demonstração ao mercado. “Os parceiros que entram na New Space Portugal, os parceiros privados coinvestem na participação do programa”, explicou.

A lógica foi também criar capacidade ao longo da cadeia de valor, desde os satélites até aos serviços que estes podem prestar e a aproximação entre Espaço e Defesa ajudou a orientar esse investimento. “O que conseguimos aqui em Portugal foi identificar muito cedo os requisitos do que a defesa queria exatamente”, sublinhou.

O espaço nunca teve tanto dinheiro. Desde 2023 até agora, teve quase 700 milhões de euros. Então não é uma questão de dinheiro, de investimento. É uma questão de nós percepcionarmos que com este dinheiro podemos fazer alguma coisa, podemos alavancar.

Ricardo Conde

Presidente da Agência Espacial Portuguesa

É nesse cruzamento que surge a Constelação do Atlântico, projeto que foi sendo adaptado às necessidades da Defesa e do mercado e que combina tecnologias óticas e de radar para permitir a monitorização e revisita de zonas de interesse. “Há aqui uma adaptação àquilo que são as necessidades da Defesa, com aquilo que também são necessidades de mercados”, afirmou Sirage.

O desafio passa por ganhar dimensão num setor dominado por grandes operadores internacionais. Portugal deve procurar, por isso, “mercados que não sejam só na Europa” e “transformar a Constelação do Atlântico numa capacidade com ambição global”, num percurso que terá de ser feito através de parcerias.

“Acho que aí estamos a fazer o caminho. Há algumas iniciativas. Estamos a olhar para como é que a Constelação do Atlântico pode não ser uma resposta europeia, e ser global. Esse caminho nós temos que fazer com parcerias para ganharmos a escala para multiplicarmos este investimento”, salientou Ricardo Conde, defendendo que o investimento feito nos últimos anos tem de servir para criar capacidade que permita ao país estabelecer alianças com operadores de maior dimensão.

A mensagem surge numa altura em que o responsável tem vindo a defender que Portugal pode usar a sua posição atlântica como vantagem estratégica no novo mapa espacial europeu, através da ilha de Santa Maria, nos Açores. Agora, a prioridade será também garantir que essa posição se traduz em escala industrial, internacionalização e capacidade de servir mercados fora da Europa.

Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial PortuguesaHugo Amaral/ECO

Mais Europa para ganhar escala

A dimensão do mercado europeu coloca outro problema: a fragmentação das estratégias nacionais. Para Ricardo Conde, um dos riscos está na fragmentação das iniciativas nacionais. O presidente da Agência Espacial Portuguesa alertou para a falta de coordenação à escala europeia num momento em que os países estão a aumentar rapidamente o investimento em capacidades espaciais e de defesa. “A soberania europeia exige prescindir um bocadinho da soberania nacional. Um bocadinho de nada, em nome de um bem comum”, defendeu, apontando para a necessidade de interoperabilidade entre os diferentes projetos dos Estados-membros.

A ideia é particularmente relevante numa altura em que a Europa procura desenvolver iniciativas como o European Space Shield. Segundo o presidente da Agência Espacial Portuguesa, os investimentos nacionais só terão verdadeiro impacto se forem articulados num contexto europeu e se permitirem entregar capacidades operacionais.

Nós temos de ter escala. Temos de demonstrar com projetos-bandeira que temos essa capacidade, é isso que nos permite criar as parcerias estratégicas com outros players que são muito maiores que nós, , mas que nos permitem colocar Portugal no mapa.

Emir Sirage

Diretor da área do Espaço do CEiiA

O objetivo deverá ser garantir que os vários sistemas desenvolvidos pelos Estados-membros conseguem trabalhar em conjunto. “Nós estamos a falar aqui num contexto de defesa. A defesa procura, primeiro, operacionalidade. Temos que entregar”, frisou.

A necessidade de interoperabilidade cruza-se com a própria escala das empresas. O diretor da área do Espaço do CEiiA defendeu que Portugal precisa de projetos suficientemente relevantes para conseguir aproximar-se de operadores maiores e entrar nas respetivas cadeias de valor. “Nós temos de ter escala”, destacou. “Temos de demonstrar com projetos-bandeira que temos essa capacidade, é isso que nos permite criar as parcerias estratégicas com outros players que são muito maiores que nós, mas que nos permitem colocar Portugal no mapa”.

Emir Sarage, diretor na área do Espaço do CEiiAHugo Amaral/ECO

“O que conseguimos aqui em Portugal foi identificar muito cedo os requisitos do que a defesa queria exatamente”, vincou o responsável, destacando a evolução da Constelação do Atlântico para uma capacidade orientada para a monitorização e revisita de zonas de interesse e com potencial de utilização no contexto europeu de defesa.

A necessidade de escala foi igualmente apontada por Pedro Petiz, diretor para Portugal da Tekever, que defendeu que o aumento do capital disponível para a indústria só terá impacto se houver procura capaz de sustentar o crescimento. “Para escalar não é só uma questão financeira. Eu só escalo se tiver cliente que se compre. Escalar, se a propriedade ficar na prateleira, não serve de nada. Onde queremos posicionar-nos enquanto indústria? Porque os recursos são limitados, o talento é limitado, o investimento é limitado, nós temos que ver onde é que pomos o dinheiro”, detalhou.

A intervenção surge poucos dias depois de a unicórnio de drones ter anunciado o primeiro fecho de uma ronda de mais de 500 milhões de euros, que colocou a avaliação da empresa a rondar os 5,5 mil milhões de euros. A operação foi apresentada pela empresa como um passo para acelerar o crescimento internacional.

Para escalar não é só uma questão financeira. Eu só escalo se tiver cliente que se compre. Escalar, se a propriedade ficar na prateleira, não serve de nada. Onde é que nós queremos posicionar-nos enquanto indústria? Porque os recursos são limitados, o talento é limitado, o investimento é limitado, nós temos que ver onde é que pomos o dinheiro.

Pedro Petiz

Diretor para Portugal da Tekever

A questão deixa de ser apenas quanto Portugal investe, mas onde coloca esse investimento e com que estratégia. “Se não incluirmos a economia nesta equação, então estamos meramente do lado de quem despende dinheiro para comprar e não do lado de quem está a investir”, alertou Petiz.

É precisamente essa passagem de comprador para investidor e integrador que Ricardo Conde também identifica como uma das ambições do setor. “Uma das [apostas] é eventualmente ser um integrador. Este investimento que foi feito tem que resultar numa capacidade de nós sermos integradores”, disse o responsável da Agência Espacial Portuguesa.

Açores é ‘trunfo’ de Portugal

É neste contexto que a geografia portuguesa ganha peso. Apesar de a posição periférica de Portugal na Europa, a localização atlântica dos Açores pode funcionar como uma vantagem estratégica. “Eu não concordo que Portugal seja periférico. Obviamente geograficamente na Europa é periférico, mas podemos também tirar vantagem da centralidade no Atlântico e a centralidade no Atlântico tem que nos dar uma dimensão”, afirmou Ricardo Conde.

O responsável adiantou ainda que o processo de licenciamento para um lançamento suborbital a partir de Santa Maria, nos Açores, está em curso e que deverão existir novidades “muito brevemente”. O primeiro lançamento orbital poderá acontecer no primeiro semestre de 2027, embora o processo dependa de vários procedimentos e entidades.

Mas a ambição portuguesa pode ir além do lançamento. O presidente da Agência Espacial Portuguesa defendeu que a posição atlântica dos Açores pode dar a Portugal uma vantagem não apenas no acesso ao Espaço, mas também no regresso de veículos e missões, apontando a preparação de infraestruturas no Centro Tecnológico de Santa Maria e a necessidade de ter uma ambição de longo prazo. “A reutilização pelas reentradas é também um foco que nós devemos colocar. E Santa Maria tem essa vantagem de termos um nó de acesso e também de retorno de missões espaciais”, detalhou.

Painel “Drones, Espaço e Novos Materiais: Onde Pode Portugal Ser Estratégico para a Defesa Europeia?”Hugo Amaral/ECO

A aposta cruza-se ainda com o programa europeu SpaceRider, veículo reutilizável da Agência Espacial Europeia com voo inaugural previsto para 2028, a bordo de um lançador Vega-C, a partir do Porto Espacial da Guiana Francesa. Segundo Conde, as infraestruturas necessárias em Santa Maria deverão avançar para construção, com a conclusão prevista para 2027.

O objetivo final é aproveitar a geografia para criar uma capacidade nacional com valor além do mercado interno. “Nós devemos focar para além da Europa, mas também ver as valências da nossa geografia através do posicionamento no Atlântico e nas nossas ilhas”, frisou Conde.

No final, a discussão regressou ao ponto de partida. Portugal já colocou centenas de milhões de euros no setor espacial. Agora precisa de demonstrar que esse investimento consegue gerar capacidades, contratos e empresas com dimensão internacional. “O que é que faz falta? Fazem falta contratos”, resumiu Ricardo Conde.

Assista aqui ao painel na sua íntegra:

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