Petróleo mais caro por mais tempo alimenta “incessante” subida das ‘yields’

Preços do crude sobem pela segunda sessão seguida com impasse no Irão e voltam a impulsionar as 'yields'. Taxa das obrigações americanas a 10 anos perto de máximos de 24 anos.

Os Estados Unidos e o Irão emitem mensagens pouco esclarecedoras sobre a possibilidade de uma solução diplomática para o conflito, enquanto no terreno notícias sobre o aumento das exportações do Golfo Pérsico são sobrepostas pela disrupção na cadeia e pela perceção que os preços altos vieram para ficar. Um dos efeitos colaterais reside no mercado de dívida soberana, onde a yields moram perto de máximos de quase duas décadas.

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“A venda massiva e incessante de obrigações não tem dado sinais de abrandamento, com um novo aumento das taxas de rendibilidade durante a noite, à medida que os preços do petróleo continuam a subir”, sinalizou Jim Reid, global head of macro research no Deutsche Bank.

O analista explicou que o fator imediato foi a notícia do fim de semana de que Donald Trump tinha rejeitado a proposta do Irão para um acordo de paz, com o ministro dos Negócios Estrangeiros de Teerão, Abbas Araghchi a dizer que “não [vê] nenhuma razão para voltar à diplomacia”, levando preço do barril de Brent a subir 0,92% na segunda-feira, um movimento que continua esta terça-feira com uma subida de 1,6% para 106,99 dólares.

No terreno, no Golfo, os receios sobre a disrupção à oferta já provocada pela guerra estão a sobrepor-se a notícias sobre aumentos nas exportações de crude da região.

As exportações de petróleo bruto dos principais produtores do Médio Oriente subiram para 12,8 milhões de barris por dia em setembro, o valor mais elevado desde fevereiro, segundo dados preliminares divulgados na segunda-feira pela empresa de análise de dados Kpler, impulsionadas pelo aumento dos embarques da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos.

Tim Waterer, chief analyst da KCM Trade, explicou à Reuters que, no entanto, “está a surgir um quadro mais claro do aumento dos volumes de exportação de petróleo a partir do Golfo, mas grande parte desse aumento continua a depender de soluções alternativas, como as transferências de navio para navio”.

“Esses métodos são menos eficientes e mais dispendiosos do que as operações normais, razão pela qual os preços do crude se mantêm elevados“, adiantou.

Para Jim Reid, do Deutsche, tendo em conta toda a retórica de ambos os lados, os investidores tornaram-se mais pessimistas desde as esperanças da semana passada quanto a algum tipo de acordo negociado no âmbito da ONU.

“De um modo geral, tem havido uma consciência crescente de que as esperanças de um acordo entre os EUA e o Irão têm sido repetidamente frustradas nos últimos meses, e que o ceticismo quanto à reabertura do Estreito de Ormuz num futuro próximo levou os investidores a prever um período mais longo de preços elevados até ao próximo ano“, adiantou, dando como exemplo, o contrato de futuros do Brent para dezembro de 2027, que fechou segunda-feira num novo máximo de 80,29 dólares por barril e, esta manhã já voltou a subir para 80,67 dólares.

“Assim, para os mercados, não se tratou apenas de uma questão de preços a curto prazo, mas sim de um período mais prolongado de preços elevados do petróleo, que se estende até bem entrado 2027”, vincou.

Treasuries com máximo de 2002 à vista

O contexto no mercado de petróleo está a pressionar o de dívida soberana. Nas Treasuries americanas, a yield a 10 anos subiu para um máximo de 19 anos nos 5,27% na segunda-feira e se ultrapassar os 5,29% ficará acima do pico de 2002.

Na Europa, a taxa de rendibilidade dos bunds alemães a 10 anos – o ativo de referência para o continente – recua esta terça-feira dois pontos base para 3,625%, mas mantém-se perto do máximo de 17 anos tocado na sessão anterior. A Obrigações portuguesas a 10 anos negoceiam a descer 2,5 pontos base para 4,02%.

Os preços do petróleo e do gás continuam a ser o principal fator impulsionador das obrigações da zona euro, alimentando as preocupações de que a inflação impulsionada pelos preços da energia possa obrigar o Banco Central Europeu (BCE) a aumentar ainda mais as taxas de juro.

Na segunda-feira, a presidente do BCE, Christine Lagarde, afirmou que o banco central considera adequada uma resposta ponderada para manter a inflação sob controlo. Salientou ainda que a evolução do mercado obrigacionista, nomeadamente o aumento das taxas de rendibilidade a longo prazo, poderá abrandar o crescimento.

Já nos Estados Unidos, segundo o site CME FedWatch Tool, que monitoriza a negociação dos futuros das taxas de juro, a probabilidade de a Reserva Federal aumentar o custo do dólar em 25 pontos base para o intervalo 4%-4,25% na reunião de 28 de outubro está em 70,3%.

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