Startups devem criar relação de confiança com militares para inovarem na defesa
Ir do laboratório para o teatro de operações nem sempre é fácil para empreendedores. Jorge Pimenta, do IPN, Luís Oliveira, CEO da Fibrenamics, e Ricardo Pinheiro, presidente da idD deixam conselhos.
As startups que estão a investir na defesa e os empreendedores que pretendem desenvolver ideias, produtos ou serviços para este setor devem ir para o terreno e estabelecer uma “relação de confiança com os militares” de forma a conseguirem conquistar contratos duradouros. A ideia foi partilhada esta segunda-feira por Jorge Pimenta, diretor de Inovação do Instituto Pedro Nunes (IPN), Luís Oliveira, CEO da Fibrenamics, e Ricardo Pinheiro Alves, presidente da idD Portugal Defence.
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Na mais recente talk do eRadar, que se realizou no estúdio do ECO, o trio de especialistas partilhou uma série de conselhos sobre como acelerar a inovação em defesa. Deste painel surgiram dicas como: evitar a dispersão; não forçar uma aposta que, a nível interno, não seja considerada estratégica para acionistas fundadores; analisar se existem recursos financeiros e humanos para desenvolver soluções para as forças de segurança ou ramos das Forças Armadas; recorrer a instituições com experiência ou ao Balcão Único da Defesa e avaliar as calls do Fundo Europeu de Defesa.
“A primeira coisa a fazer é entender que capacitação é que tenho de fazer em termos não só de regulamentação como de standards técnicos. O know-how é crítico, bem como entender onde posso colaborar (dar e receber). É normal que a conversa seja difícil de começar”, afirmou Jorge Pimenta, perante uma audiência repleta de stakeholders da defesa e tecnologia.

O presidente da idD Portugal Defence considera que, como aumentou a perceção internacional de que a defesa é uma prioridade estratégica. O “chip tem de mudar” também nas empresas para perceberem quais são as necessidades dos militares e desenvolverem produtos/serviços que lhes deem resposta. Ou seja, devem contactar com os profissionais no terreno.
“No passado, tem havido uma falha nesse aspeto, porque a defesa não era um tema que preocupava às empresas e agora passou a ser uma prioridade política. Muitas empresas nem queriam trabalhar na defesa por razões de sensibilidade. A questão do duplo uso é muito importante para as empresas, porque permite mitigar o risco, mas temos que perceber que são coisas diferentes”, alertou Ricardo Pinheiro Alves.
A boa notícia é que estão a ser criadas condições para que haja uma maior aproximação entre a indústria e os objetivos militares da aliança, como se nota com o programa internacional DIANA – Defence Innovation Accelerator for the North Atlantic. “O principal objetivo é acelerar o desenvolvimento tecnológico, indo ao encontro das necessidades do utilizador final, os militares”, explica o presidente da idD.
“As nossas prioridades em termos de equipamento, e mesmo os investimentos que estão a ser feitos no âmbito do SAFE, são definidos no contexto da NATO, portanto, as empresas têm que jogar com isso e entrar nesse mundo. Implica investimento, dá trabalho, demora tempo, mas tem de se fazer esse esforço”, apela Ricardo Pinheiro Alves.
A defesa não é um mercado normal. A defesa só tem um cliente final, que são os Estados, tem especificidades muito próprias em termos de segurança e de confidencialidade e é uma área de soberania.
Segundo o presidente do IPN, Jorge Pimenta, as mais-valias dos aceleradores é que permitem “saltar barreiras” regulatórias e de certificação de segurança de forma mais rápida e, geralmente, envolvem cofinanciamento. Ademais, levam a que os fundadores contactem com “necessidades validadas internacionalmente” e dá-lhes oportunidade de desenvolverem soluções com potencial — para o Espaço, por exemplo — e dar cartas onde ainda “não se perdeu o comboio”, como aconteceu no negócio das fragatas.
O esforço de criar um ecossistema interligado acontece também fora da Aliança Atlântica, precisamente a partir do norte de Portugal. A associação Fibrenamics – Instituto de Inovação em Materiais Fibrosos e Compósitos, de Guimarães, opera como uma espécie de ponte entre academia, indústria e Forças Armadas e de segurança, bem como laboratório de testes e berço de inovação.

Por exemplo, desenvolveu capacetes com cerca de 30% menos peso, materiais mais fortes para elevar o nível de proteção e tendas para responder melhor a catástrofes. “Tivemos no início do ano os eventos no centro do país e aumentámos a capacidade de resposta com infraestruturas que conseguem rapidamente estar no terreno e ajudar a população”, conta o CEO da Fibrenamics, Luís Oliveira.
Para serem os próximos exemplos de boas práticas, as organizações têm de perceber o objetivo do seu beneficiário final e “entender de que maneira é que se podem diferenciar ou se, com relativa facilidade ou não, estão dispostas a fazer esse esforço para terem um novo vetor de valorização”.
Os fatos de proteção química, nuclear, radiológica e bacteriológico [do Exército] tinham uma utilização que era em quatro lavagens. Era quase descartável. Nós conseguimos chegar a níveis de proteção eficazes até 40 lavagens.
Questionado sobre se o capital de risco (venture capital) demonstra maior abertura para investir nesta área, o CEO da Fibrenamics tem dúvidas. “Sim e não”, retorquiu. “Entendo perfeitamente que haja capital de risco que não queira estar nesta área, mas há muito capital de risco e muitas grandes empresas — alguns tubarões europeus — que têm todo o interesse em acolher boas ideias que temos cá”, justificou Luís Oliveira, defendendo que as boas ideias conseguem captar investimento ou captar a atenção de investidores, desde que se aposte na propriedade intelectual e na “resolução de problemas que o potencial cliente ainda não sabia que tinha”.
No caso de não serem bem-sucedidas neste processo de busca de investimento direto e estejam com dificuldades em ultrapassar o vale da morte, o CEO da Fibrenamics propõe que as startups apostem numa estratégia de fusão e aquisição com um player de maior dimensão.
Investidores e startups da defesa encontram-se em novembro
É para colmatar esta falha que a idD tem promovido encontros privados entre investidores e startups com projetos para a defesa. Depois de, no passado, a iniciativa ter resultado em reuniões frutíferas e até nalguns investimentos, vai agora repetir-se no próximo mês de novembro com 20 projetos em early-stage (fase inicial) e dez investidores (sociedades de capital de risco, private equity e business angels).
“Na economia portuguesa há falta de capital, o rácio de capital por trabalhador é muito baixo comparado com os outros países desenvolvidos, e para uma startup ainda é mais difícil porque não tem historial e está numa fase inicial do seu desenvolvimento. É difícil arranjar quem queira investir, a banca, muitas vezes, afasta-se… É preciso procurar outras alternativas”, argumenta Ricardo Pinheiro Alves, deixando claro que a banca comercial e entidades como Banco Português de Fomento e Banco Europeu de Investimento ficarão de fora por terem “um certo problema em relação à defesa”.

Simultaneamente, tanto a idD, que gere as participações sociais que o Estado detém nas empresas na área da defesa, como a Fibrenamics denotam interesse corporate. “Temos vários casos. A Beyond Composite, que até veio da Fibrenamics, foi adquirida parcialmente pela Sonae. Mas não é só a Sonae. Há outros grandes grupos que têm dinheiro, liquidez e querem investir, porque há oportunidades na defesa”, assegurou Ricardo Pinheiro Alves.
Em relação ao Fundo Europeu de Defesa, o líder da idD enalteceu o número de empresas que participaram nas cinco edições das calls, mas mostrou-se preocupado com a sensação de que só concorram para levantar dinheiro em vez de ser verdadeiramente um desígnio estratégico.
Até porque os três concordam que uma empresa que não esteja só a desenvolver tecnologia para a defesa, encontra um “conflito” na hora de decidir entre alocar recursos para duplo uso e investir o tempo necessário que exige a adoção militar. Depois, depara-se com outro “conflito constante” que é a pressão de calendário e de faturação. “O tempo de decisão e o tempo de contratação [da área militar] uma startup não tem, porque se estiver no início da sua vida precisa rapidamente encontrar clientes”, como assinalou Jorge Pimenta.
No desenvolvimento de tecnologia e nas startups, muitas vão falhar, e o setor da defesa é dos que menos gostam de risco e falhanço. Não vamos mudar a forma como as Forças Armadas compram, mas podemos mudar a forma como, inovamos e olhamos para necessidades e requisitos.
Certo é que Portugal está a experienciar uma fase de ajuste e reorientação do namoro entre defesa e inovação, porque “há mais capacidade de interação” entre as partes, “as Forças Armadas estão mais preparadas para interagir” e existem cada vez mais centros de experimentação. No entanto, importa ter em conta que “nunca teremos um pipeline completo e perfeito” devido às diferenças entre uma startup e o seu potencial cliente — que acaba por ser o Estado — e as características de cada negócio.
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