Em trimestre de choques, a guerra abalou a dívida enquanto as ações sobreviveram à crise existencial da IA

Escalada da guerra no Irão levou a disparo de 42% no preço do Brent, impulsionando as taxas das obrigações para máximos de décadas. Nas bolsas, o trimestre foi marcado pelas dúvidas sobre a IA.

“Hoje termina o terceiro trimestre, que foi chocante mesmo num ano marcado por grandes surpresas nos mercados“, afirmou Michael Every, global strategist no Rabobank. No balanço do período entre o início de julho e esta quarta-feira, o analista do banco neerlandês destaca guerras (físicas ou comerciais) que se prolongaram e alargaram”, “manchetes notáveis sobre a inteligência artificial”, com os mercados e o mundo a entrarem nos últimos três meses do ano com a geopolítica e a geoeconomia “no fio da navalha”.

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Comecemos pela primeira narrativa, ou de como a nova escalada da guerra no Irão prolongou o choque energético e os receios sobre a inflação, obrigando os bancos centrais a agir e os investidores a exigirem cada vez mais juros para deterem dívida soberana, nalguns casos chegando a níveis vistos pela última vez nos primeiros anos da década de 2000.

“O verão trouxe apenas más notícias no que diz respeito à energia“, lamentou Gilles Moëc, economista-chefe do grupo AXA, no seu ‘Op-Ed‘ mensal, recordando que enquanto no final de junho o preço do barril de petróleo estava nos 72,9 dólares, esta quarta-feira negociava nos 103,61 dólares, um salto de 42%. “O bloqueio do Estreito de Ormuz continua e o conflito estendeu-se ao Mar Vermelho, com ganhos territoriais por parte dos Houthis no Iémen e ataques diretos ao gasoduto Este-Oeste da Arábia Saudita, os preços do gás natural estão mais elevados do que em qualquer outro momento desde o início do conflito, e as reservas europeias estão ainda mais baixas do que no outono de 2022, quando o acesso ao abastecimento russo foi restringido pela primeira vez”, vincou Moëc.

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A persistência do choque energético está, naturalmente, a alimentar a pressão inflacionária, explicou Moëc, levando os bancos centrais a reagir.

O terceiro trimestre não se limitou a fazer desvanecer as esperanças de ‘taxas mais baixas por mais tempo’, mas regou-as com gasóleo escasso e ateou-lhes fogo

Michael Every

Global strategist no Rabobank

E de que maneira, sublinhou Michael Every. “O terceiro trimestre não se limitou a fazer desvanecer as esperanças de ‘taxas mais baixas por mais tempo’, mas regou-as com gasóleo escasso e ateou-lhes fogo“, exclamou o analista do Rabobank, lembrando que no primeiro trimestre tivemos apenas um aumento das taxas por parte de um banco central do G20, o Reserve Bank of Australia, no segundo trimestre tivemos quatro (RBA, Banco Central Europeu, Banco do Japão) e o Banco da Indonésia, e no terceiro trimestre, tivemos esses todos novamente e ainda a Reserva Federal “e a questão é saber quantas subidas mais poderão ser necessárias, tanto nos EUA como noutros países”.

O aperto global da política monetária – aliado a receios sobre a saúde das contas públicas em vários países (especialmente a elevada dívida dos EUA) e uma torrente de emissões (incluindo das gigantes tecnológicas para financiar o investimento na IA) – levou a um selloff de obrigações, catapultando as taxas de rendibilidade para máximos de vários anos, quebrando barreiras psicológicas como os 5% nos Treasuries americanos a 10 anos, os 3% no Japão ou os 3,5% na Alemanha.

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“Mas há mais na subida de juros de longo prazo do que apenas uma reação mecânica aos bancos centrais”, referiu Gilles Moëc. “Os EUA são o epicentro da turbulência no mercado obrigacionista e consideramos que nesse país a concorrência entre as enormes necessidades de financiamento do setor público – segundo o Gabinete Orçamental do Congresso, sem medidas políticas, o défice oscilará em torno dos 6% do PIB nos próximos 10 anos – e um aumento da procura privada de financiamento, à medida que o boom de investimento relacionado com a IA continua”.

Não é a primeira vez que uma grande revolução tecnológica implica enormes necessidades de investimento, mas isto nunca aconteceu num contexto de aumento da dívida pública sendo que não havia défice orçamental para financiar na altura da revolução ferroviária após a Guerra Civil, nem durante a onda de eletrificação da década de 1920

Gilles Moëc

Economista-chefe do Grupo AXA

“Não é a primeira vez que uma grande revolução tecnológica implica enormes necessidades de investimento, mas isto nunca aconteceu num contexto de aumento da dívida pública sendo que não havia défice orçamental para financiar na altura da revolução ferroviária após a Guerra Civil, nem durante a onda de eletrificação da década de 1920”, explicou.

Essa revolução da inteligência artificial criou o seu próprio drama, com o alerta lançado a 12 de setembro por Dario Amodei, CEO da Anthropic, sobre a necessidade de abrandar o desenvolvimento para dar tempo aos mecanismos de segurança a colher a concordância de outros CEO e críticas de Donald Trump, mas a ‘travagem’ chegou às bolsas de três continentes na primeira sessão seguinte. Na Ásia, o japonês Nikkei caiu para o valor mais baixo em seis semanas, na Europa o abrangente índice Stoxx 600 perdeu 0,5% e nos Estados Unidos o tecnológico Nasdaq recuou 0,56% e 0,76% em dois dias.

Michael Every realçou que as ações na Europa e nos EUA tiveram um trimestre relativamente calmo até esse momento e que mesmo a partir daí não cederam muito terreno dado que o potencial da IA continua a fomentar apetite e as principais economia permanecem resilientes.

Para os analistas do Barclays, liderados por Emmanuel Cau, “as ações têm seguido padrões sazonais, com rendimentos negativos e uma amplitude mais reduzida em setembro“. No entanto “a sazonalidade positiva do quarto trimestre e a dinâmica das eleições intercalares [nos Estados Unidos] apontam, normalmente, para uma recuperação.

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O ouro foi outra vítima da subida dos preços do petróleo e da perspetiva de aumentos na taxas de juro. O metal precioso é visto em certas situações como ativo de refúgio, mas não em tempo de pressão inflacionária, pois não oferece rendimento fixo. Após queda de 14,2% do preço por onça no segundo trimestre, a cotação até encetou uma recuperação nos primeiros dois meses do terceiro, mas acabou por recuar 4,43% no conjunto do trimestre, valendo menos 177,81 dólares.

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