“Há o risco da dissuasão em crise, suscitar uma mudança de patamar do conflito”

"A escalada nuclear e o descontrole dos sistemas é, sem dúvida, o risco maior que nós temos. E isso só se resolve quando as potências se sentarem à mesa", atira Luís Amado, antigo ministro da Defesa.

Há o risco da dissuasão em crise elevar o patamar dos atuais conflitos, e a “escalada nuclear e o descontrole dos sistemas é, sem dúvida, o risco maior que nós temos”, alerta Luís Amado, ex-ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros, durante a talk “Soberania Digital – Impactos Políticos”, que decorreu na Pérez-Llorca.

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“Mais grave e que se não fala é a crise da dissuasão. Estamos com duas frentes de guerra em escalada e essas duas frentes de guerra estão a anunciar que, do ponto de vista da dissuasão convencional, mesmo o exército mais poderoso do mundo não consegue realizar, em termos convencionais, nenhum dos objetivos”, constata o antigo ministro da Defesa. “E o outro exército poderoso não consegue realizar os seus objetivos”, diz.

“Há aqui, do ponto de vista da ação estratégica dos Estados, o risco de a dissuasão em crise, suscitar uma mudança de patamar do conflito”, aponta. “A escalada nuclear e o descontrole dos sistemas é, sem dúvida, o risco maior que nós temos. E isso só se resolve quando as potências se sentarem à mesa“, diz.

Estados Unidos e China? “É quem faz a agenda neste momento. A Europeia não estará nessa mesa, estará convidada“, atira o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros.

“A União Europeia deixou — do meu ponto de vista, por um erro de avaliação estratégica gravíssimo, não tem o soberano e não tem o pensamento estratégico unificado a partir de Bruxelas — que a Europa resvalasse por um centro estratégico de confronto, de guerra, para a qual não está preparada“, considera.

“Mesmo esta ilusão de poder entrar em conflito com a Rússia, com a garantia do artigo 5º, não arriscaria”, refere, numa referência ao artigo da NATO que estipula que, em caso de agressão a um país membro da Aliança, os restantes aliados virão em socorro. “Até daqui a dois anos e meio, não arriscaria entrar nessa aventura com base na segurança e na defesa coletiva americana”, diz.

A Europa tem ainda de “gerir uma relação com a China muito complicada”, aponta Raquel Vaz-Pinto, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI-NOVA). “Há claramente um alinhamento entre a China, Rússia e Irão” e isso liga com a guerra na Europa, reforça a investigadora.

“A UE tem uma missão impossível tripla”, atira Raquel Vaz-Pinto. Tem de ser menos dependente dos EUA — a chamada “colonização tecnológica” —, fazer face a uma Rússia “cada vez mais agressiva” e manter uma relação com a China por causa das terras raras e garantir acesso a esses materiais críticos.

Quanto ao posicionamento da China e a IA, o objetivo, considera não é tanto liderar do que ter uma mancha de expansão da tecnologia. “É mais quantidade do que qualidade”, diz. Uma tecnologia de código aberto “permite à China presença nas regiões”, ou seja, “ser um sistema que toda a gente adote”. E isso é preferível a estar na “primeira linha de decisão”

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