Taxas das ‘Treasuries’ tocam pico de 24 anos e aceleram derrame no mercado global de soberanas

Guerra e pesada dívida americana continuam a massacrar títulos soberanos. Taxas das 'Treasuries' a 10 e 30 anos em máximos de 2002. 'Gilts' britânicos também em pico de décadas.

“Os investidores não querem apanhar uma faca em queda“. Mike Bell, diretor de estratégia de mercados na RBC Bluebay Asset Management, expressou ao Financial Times o adágio que é muitas vezes usado para explicar um movimento de espiral de quedas nos mercados. Ninguém quer comprar um ativo que só perde valor, acelerando assim a velocidade da descida.

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Bell aplica perfeitamente o termo para a situação atual no mercado global de dívida soberana. O impasse na guerra no Médio Oriente mantém a pressão inflacionária e a perspetiva de apertos na política monetária. As gigantes tecnológicas continuam a inundar o mercado com emissões de dívida. Como pano de fundo preocupante, a dívida soberana dos Estados Unidos está acima do 40 biliões de dólares (cerca de 35 biliões de euros).

Ultrapassada a barreira dos 5%, a yield das Treasuries americanas a 10 anos segue o caminho de subida, tendo avançado esta quinta-feira para 5,342% ultrapassando o último pico de 2007 para atingir o nível mais alto desde o início de 2002. Na dívida a 30 anos, a taxa de rendibilidade subiu 3,3 pontos base para 5,672%, também em máximos de 24 anos.

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“Nos EUA, ultrapassámos os 40 biliões de dólares de dívida e a situação orçamental não dá sinais de melhoria“, afirmou Darren Shames, diretor global de vendas de taxas da Nomura, citado pela Reuters. “Por isso, 5% por si só, em termos absolutos, não diz grande coisa, especialmente quando se analisa no contexto histórico”.

Mas Shames acrescenta: “penso que é a trajetória da evolução das taxas, a velocidade, que está realmente a chamar a atenção dos investidores“.

O selloff na dívida americana continuou apesar de comentários de decisores a Reserva Federal e dados da inflação de agosto levarem a uma redução na chance – para 37,1%, segundo os futuros nos mercados – de um novo aumento nas taxas de juros na próxima reunião do banco central liderado por Kevin Warsh a 28 de outubro.

“Chegámos à situação que muita gente está a sair de posições longas [na dívida soberana americana], a pensar que já não quer segurar um ativo no qual a yield não para de subir“, disse Mike Bell ao FT.

Treasuries contagiam mercado global

A fuga das Treasuries, consideradas referência no mercado global, atingiu as dívidas de outras geografias, exacerbando pressões locais.

No Reino Unido, as taxas das gilts a 30 anos avançaram para 6,029%, máximos de janeiro de 1998, enquanto na maturidade a 10 anos a yield está em 5,510%, um nível visto pela última vez em julho de 2007.

Os custos de financiamento do governo britânico aumentaram de forma mais acentuada do que os da maioria dos outros governos europeus desde o início do conflito no Médio Oriente, devido às preocupações com a dependência do país em relação ao gás natural para o aquecimento doméstico e a produção de eletricidade.

Mas os outros países europeus não estão incólumes. Em França, os custos de financiamento de referência a 10 anos dispararam para 4,96%, máximos de julho de 2002, à medida que os investidores em obrigações questionam a capacidade do governo para controlar o défice e se mostram preocupados com a incerteza política à medida que se aproximam as eleições presidenciais no próximo ano.

Na Alemanha, as taxas de rendibilidade das bunds a 10 anos, que servem de referência na Zona Euro, negoceiam nos 3,60%, depois de terem atingido 3,6526% na segunda-feira, o nível mais elevado desde junho de 2009, tendo registado um aumento trimestral de 71 pontos base.

Nos mercados asiáticos, as obrigações japonesas registaram a sua maior saída semanal de capitais estrangeiros em seis meses na semana que terminou a 26 de setembro, noticiou a Reuters. Os investidores estrangeiros retiraram 4,61 biliões de ienes (cerca de 22 mil milhões de euros) dos títulos japoneses durante a semana, o que representa o seu maior volume líquido de vendas semanais desde 28 de março, segundo dados do Ministério das Finanças.

Na dívida portuguesa, a taxa das Obrigações do Tesouro continua a negociar acima dos 4%, subindo esta quinta-feira 2 pontos base para 4,049%.

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