BRANDS' ECO Análise de dados para melhores transportes é um dos desafios das cidades
Lisboa, Londres ou Luxemburgo já testam como usar dados e gémeos digitais para melhorar viagens e respostas a fenómenos climáticos extremos. Os projetos foram apresentados sexta-feira na NOVA IMS.
Um autocarro que atrasa o seguinte, uma entrega que ocupa a rua, uma inundação que interrompe o acesso a um hospital são problemas diferentes, mas todos exigem decisões rápidas e coordenadas. No Mobility & Digital Twins: Enabling the data-driven City of Tomorrow, encontro sobre mobilidade urbana que decorreu quinta e sexta-feira no campus da NOVA IMS, em Lisboa, municípios, operadores de transportes e investigadores demonstraram como é possível transformar dados e simulações feitas com a ajuda de gémeos digitais (Digital Twins) em medidas que funcionem fora dos ecrãs.
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A mobilidade à escala metropolitana e o papel dos dados nas decisões públicas marcaram, desde logo, a abertura do encontro. Miguel de Castro Neto, dean da NOVA IMS, destacou a importância de debates como este para encontrar as melhores soluções de mobilidade para as cidades que, hoje, enfrentam um conjunto de desafios interligados. Neste contexto, o anfitrião da conferência sublinhou também o papel crescente da tecnologia para tornar as áreas urbanas “mais eficientes e melhores experiências” para habitantes e visitantes.
Primeiro, integrar sistemas. Segundo, melhorar e consolidar a qualidade dos dados
Pedro Pinto de Jesus, administrador da Transportes Metropolitanos de Lisboa (TML), recordou que as deslocações diárias de pessoas atravessam fronteiras municipais e defendeu uma sequência para tirar partido da tecnologia. “Primeiro, integrar sistemas. Segundo, melhorar e consolidar a qualidade dos dados”. Só então, afirmou, ferramentas como o gémeo digital e a inteligência artificial poderão ajudar a antecipar problemas e a melhorar o serviço prestado aos passageiros.
O vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Gonçalo Reis, que marcou igualmente presença na sessão de abertura, sublinhou a importância da cooperação com instituições de investigação e com a rede europeia POLIS, que visa promover a mobilidade urbana sustentável através de estratégias integradas que abordam as dimensões económica, social e ambiental dos transportes. “Não podemos lidar com esses assuntos sozinhos”, reconheceu. Já no debate entre municípios, em que também participou, o autarca defendeu o reforço da oferta de transporte público e a combinação de dados com a participação dos moradores nas decisões sobre o espaço urbano.
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Miguel de Castro Neto, dean da NOVA IMS -
Gonçalo Reis, vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML) -
Pedro Pinto de Jesus, administrador da TML -
A conferência juntou alunos, decisores e especialistas na Nova IMS
No mesmo painel, Sílvia Breu apontou as ligações entre modos de transporte e a segurança dos percursos a pé ou de bicicleta como prioridades. Para a gestão corrente do trânsito e das obras, a vereadora da Câmara Municipal de Oeiras considerou que “os dados são a chave para as decisões de gestão diária”.
Já Francisco Duarte, vice-presidente da Câmara Municipal de Sintra, salientou que a dimensão e a diversidade daquele município exigem respostas diferentes para zonas urbanas, rurais e turísticas. “A mobilidade já é metropolitana”, observou, apelando a uma coordenação mais estreita entre municípios, operadores e autoridades de transporte.
‘Ver’ antes de decidir
Como transformar a abundância de dados sobre mobilidade em decisões úteis para as cidades? A pergunta deu o mote para a conversa que se seguiu. As experiências de Lisboa, Madrid e Luxemburgo foram exemplo do que já está a ser feito a partir de dados de fontes diversas, e com a ajuda de gémeos digitais para validar a tomada de decisões.
Na área metropolitana de Lisboa, Alexandre Domingues explicou que a TML tem reunido dados de bilhética, localização dos veículos e operação para informar os passageiros e ajustar o serviço. Mas, sublinhou o diretor de sistemas inteligentes, a condição de partida é ter “não somente dados, mas dados de qualidade”.
Os gémeos digitais foram apresentados como uma forma de testar escolhas antes de as aplicar nas ruas. Candela Pelliza, investigadora do Nova Cidade Urban Analytics Lab, mostrou como as simulações podem, por exemplo, relacionar alterações no tráfego com a poluição e os seus efeitos na saúde. O processo, disse, permite “simular o impacto” de uma política e avaliar os resultados antes da implementação. Ulrich Leopold, investigador do Luxembourg Institute of Science and Technology (LIST), acrescentou que as cidades precisam de sistemas interoperáveis e de uma base de informação que permita relacionar a evidência com as decisões tomadas.
“A urgência ganha outra dimensão quando se olha para o clima”, disse Katerina Deliali, da Climate, Infrastructure and Environment Executive Agency (CINEA)
De Madrid, Pedro Javier Fernandez, do Departamento de Mobilidade e Projetos Ambientais da capital espanhola, trouxe a experiência do projeto ‘Madrid Capital Digital’, que permitiu ultrapassar “desafios urbanos complexos” com a ajuda de dois gémeos digitais.
Depois de um primeiro painel centrado na forma como os dados e os gémeos digitais podem melhorar as decisões de mobilidade, o segundo painel centrou a discussão na resiliência climática. A pergunta passou a ser como usar essas ferramentas para antecipar os efeitos do calor, das inundações e de outras perturbações nos transportes, testar respostas e preparar as cidades antes de uma crise.
“A urgência ganha outra dimensão quando se olha para o clima”, disse Katerina Deliali. A representante da Climate, Infrastructure and Environment Executive Agency (CINEA) lembrou que uma falha nos transportes pode comprometer o acesso a cuidados de saúde e serviços de emergência. “Os transportes são essenciais ao funcionamento de outros serviços”, complementou Aysenur Alma. “O transporte, para nós, na proteção civil, é particularmente importante porque não é um sistema isolado”, disse ainda a representante da ECHO (European Civil Protection and Humanitarian Aid Operations) da Comissão Europeia. Já Ian Catlow, da Transport for London, reconheceu que a capital britânica ainda não dispõe de “um digital twin dedicado a olhar para os riscos climáticos”, apesar de já ter identificado centenas de riscos na sua rede.
No debate após as apresentações dos participantes, a preocupação voltou ao uso prático destas ferramentas tecnológicas. Para terem influência, é preciso definir “porque são úteis, quem servirão, e quais os seus propósitos”. O desafio, comum às intervenções, passa por fazer com que os modelos cheguem às pessoas que planeiam, operam e governam a cidade.
Planear e regular para garantir a sustentabilidade
A logística urbana esteve em debate ao início da tarde, numa sessão dedicada à gestão energética, à regulação do espaço público e ao uso de dados pelas cidades. De forma unânime, os participantes defenderam, desde logo, a necessidade de uma maior aproximação entre autarquias e operadores logísticos para integrar as entregas no planeamento urbano.
É preciso entender, efetivamente, onde deveríamos priorizar as nossas operações
Paulo Costa Reis apresentou um projeto que cruzou dados da operação com informação do município do Porto para simular a pegada carbónica das entregas. Um dos cenários apontou para uma redução de quase 40% no custo de entrega, mas o teste de um pequeno veículo elétrico revelou limites de autonomia, capacidade e conservação dos produtos. Antes de investir, disse o coordenador de inovação da SONAE MC, “é preciso entender, efetivamente, onde deveríamos priorizar nossas operações”.
Ulrich Leopold, que participou também neste debate, descreveu uma plataforma em desenvolvimento para comparar soluções de distribuição em várias cidades. A intenção é “tratar as escolhas políticas como cenários testáveis” e avaliar os resultados dos projetos-piloto.
Por fim, Bernardo Pereira, da Lisboa E-Nova, demonstrou como o mapeamento de obstáculos à circulação pedonal em Lisboa pode orientar intervenções municipais. “Não é suficiente recolher dados”, afirmou, defendendo que as ferramentas têm de servir o trabalho quotidiano dos serviços da cidade.
No final do dia, e em jeito de balanço, Pedro Homem de Gouveia, da rede POLIS, destacou a importância dos gémeos digitais, “que devem responder a problemas concretos das cidades”. Contudo, alertou que é fundamental definir, em primeiro lugar, uma estratégia, e só depois introduzir a tecnologia.
O evento terminou com a entrega dos prémios do hackathon, lançado pela NOVA IMS, que reuniu sete equipas em torno de desafios de mobilidade e transportes. O projeto CityMaxxing conquistou o primeiro lugar, com uma ferramenta para analisar e prevenir a acumulação de autocarros na mesma linha em Lisboa. O segundo e o terceiro prémios foram atribuídos, respetivamente, às soluções Mobi4You e Optoiders. A competição atribuiu prémios de 3.000, 2.000 e 1.000 euros aos três primeiros classificados.
O evento foi organizado pela Nova Cidade Urban Analytics Lab, em conjunto com a rede POLIS e a TML – Transportes Metropolitanos de Lisboa e ainda os parceiros: Câmara Municipal de Lisboa, Câmara Municipal de Cascais, Câmara Municipal de Oeiras, Câmara Municipal de Sintra, Carris, Carris Metropolitana, CP – comboios de Portugal, EMEL, Lisboa E-nova, Metro de Lisboa, Parques Tejo, Transtejo Soflusa e APL – Administração do Porto de Lisboa.
Assista à conferência completa através do vídeo abaixo.
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