Inflação subjacente contida dá margem ao BCE e atira subida de juros para dezembro

  • Diogo Mendo Fernandes
  • 2 Outubro 2026

Os preços na Zona Euro subiram mais do que o esperado em setembro. BCE atento a se preços mais elevados da energia se incorporarão na inflação.

Os elevados preços da energia, em particular dos combustíveis, estão a acelerar a inflação e reforçam os receios, entre os analistas, sobre a transmissão a outras áreas da economia. No entanto, este ainda não é o cenário mais provável para a cúpula do Banco Central Europeu (BCE), em Frankfurt, que tem resistido a qualificar o atual momento como de uma inflação “persistente”.

Escolha o ECO como fonte preferida no Google

Escolher

Após os dados da estimativa rápida do Eurostat divulgados esta sexta-feira que dão conta de uma aceleração da inflação na Zona Euro de 3,2% em agosto para 3,8% em setembro, o valor mais elevado dos últimos três anos, e de a inflação subjacente — que deixa de fora os preços mais voláteis da energia, alimentos, álcool e tabaco — ter ficado em 2,5%, os mercados atribuem maior probabilidade de uma subida de juros pelo BCE, mas não já em outubro. Antecipam antes um aumento de 25 pontos base em dezembro, na última reunião do ano, e duas subidas em 2027.

Apesar do aumento significativo face a agosto, o economista Jack Allen-Reynolds, da Capital Economics, explica à Reuters que “a inflação de setembro não altera a opinião de que é muito provável que o BCE espere até dezembro para voltar a aumentar as taxas de juro“. No entanto, “caso os preços da energia subam ainda mais nas próximas semanas, um aumento em outubro não seria uma grande surpresa“.

O futuro da política monetária do bloco europeu está sobretudo dependente de quão enraizada está a inflação na economia. Ou seja, de que forma estão os preços da energia, que são os principais responsáveis pelo atual aumento dos preços, a passar para outras categorias como os serviços ou os alimentos.

Foi isso mesmo que explicou Christine Lagarde, presidente do BCE, num discurso esta semana na Comissão de Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento Europeu em Bruxelas. “Perante choques energéticos, o BCE tem uma estratégia muito clara: não reagimos aos preços da energia, mas sim se identificarmos riscos de que os preços mais elevados da energia venham a incorporar-se na inflação”, explicou.

Mas há quem comece já a ver sinais de que a subida de preços na energia, em torno dos 19% em termos de variação homóloga, esteja a repercutir-se noutras categorias da inflação. “Com a inflação dos produtos alimentares a subir de 1,1% para 1,4% e a inflação subjacente a aumentar de 2,4% para 2,5%, parecem existir alguns sinais de uma maior transmissão do aumentos de preços, embora se trate de dados muito preliminares“, realça numa nota Bert Colijn, economista do banco neerlandês ING. A par disso, o aumento dos salários no bloco, que acontece há cinco meses consecutivos, também poderá reforçar os receios de efeitos de segunda ordem.

Ainda assim, o economista também reconhece que “a inflação dos produtos alimentares continua a ser inferior à registada em junho, e a inflação subjacente tem-se mantido entre 2,4% e 2,6% desde maio“, o que poderá ser um dissuasor para um novo rápido aumento de taxas do banco central. A inflação “core” será decisiva para os governadores do banco central, uma vez que é a maior indicação de que a subida dos preços está, ou não, ancorada.

O BCE já subiu as taxas de referência duas vezes este ano, antecipando, na reunião de setembro, que o conflito no Médio Oriente continue a “gerar pressões inflacionistas”, e prevendo que “a inflação se mantenha bem acima da meta durante um período prolongado”. Nesse encontro, o staff da autoridade monetária também atualizou as projeções económicas. Apesar de manter inalterada a projeção para a subida dos preços na Zona Euro para este ano, reviu em alta as dos dois seguintes, antecipando agora que a inflação fique nos 3%, antes de descer para 2,5% em 2027 e 2,1% em 2028.

Inflação cresce mais do que o esperado nas maiores economias da Zona Euro

A inflação nas quatro maiores economias da Zona Euro — Alemanha, França, Espanha e Itália — subiu mais do que o esperado em setembro. A taxa mais elevada é registada em Espanha, com a subida dos preços a atingir a fasquia dos 5%, seguida por Itália nos 4,1%, ambas acima da média dos países da moeda única.

A inflação da maior economia da região, a Alemanha, está nos 3,3%, ao passo que França ronda os 3,4% e Portugal os 3,6%. França tem sido também mais afetado por uma subida dos juros da dívida soberana em mercado secundário, com as yields em máximos de 2002, perto de 5%, o que tem pressionado as finanças públicas já fragilizadas devido ao atual contexto político. O spread, ou seja o prémio que os investidores exigem para deter obrigações francesas face às Bunds alemãs, de referência para o Velho Continente, ronda os 130 pontos base, em máximos de 2012, o que adensa o cenário de França.

Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.

Ao contrário de outros países europeus, como Portugal, que aplicaram descontos nos preços ou nos impostos sobre os combustíveis, o governo francês tem optado por medidas mais direcionadas às famílias e setores mais afetados pela atual subida de preços, “mas que não reduzem diretamente a inflação”, explica numa nota Charlotte de Montpellier, economista sénior do ING. Justifica ainda que, devido a estas medidas “o aumento dos preços do petróleo repercutiu-se de forma mais direta na inflação francesa“.

A aceleração superior ao esperado coloca a inflação do bloco e dos vários países mais perto do cenário mais pessimista do BCE, que antecipa uma subida de preços em torno dos 4% no terceiro e quarto trimestres do ano e nos primeiros três meses de 2027. Os economistas ouvidos pela Reuters antecipam este cenário como o mais provável, ao invés do cenário-base que antecipava a inflação em 3,6%. Há, no entanto, uma salvaguarda para os decisores. É que, para já, a inflação subjacente na maioria destas economias parece estar controlada ligeiramente acima dos 2%.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Inflação subjacente contida dá margem ao BCE e atira subida de juros para dezembro

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião