Lisboa acolhe hub europeu da Mitsubishi Fuso. Fábrica no Tramagal “continua a fazer total sentido”

Negócio internacional de camiões ditou transferência de competências da Daimler Truck Alemanha para Portugal. Bairro de Alvalade recebe hub técnico, mas as máquinas não são para parar em Abrantes.

A presença em Portugal da fabricante de camiões Mitsubishi Fuso ganhou um novo capítulo esta sexta-feira, depois de a multinacional japonesa ter anunciado a criação de um novo hub operacional em Lisboa. Quase 50 anos depois de ter começado a produzir veículos na freguesia do Tramagal, em Abrantes, a empresa dos Canter abriu um escritório regional no bairro lisboeta de Alvalade, para o qual contratou 30 profissionais, de forma a apoiar a operação na Europa.

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O objetivo é ter um novo hub para ações de marketing, capacitação de distribuidores automóveis e formação técnica com o intuito de aproximar mais a marca Fuso dos seus parceiros e clientes do Velho Continente, que recebem camiões ligeiros e elétricos produzidos a partir do distrito de Santarém.

O espaço tem um total de 40 trabalhadores, incluindo as três dezenas de novos empregos criados, e é visto como “um ponto central de ligação” aos 41 países europeus. É na capital portuguesa — em articulação com a sede no Japão — que se passará a coordenar a distribuição e pós-venda. Na prática, houve uma transferência de competências que eram da Daimler Truck na Alemanha para terras lusas.

“A escolha de Portugal para acolher esta nova estrutura europeia é, simultaneamente, uma decisão de futuro e um reconhecimento da profunda relação da Mitsubishi Fuso com o país. Portugal faz parte da história europeia da marca há quase meio século e reúne conhecimento, experiência e proximidade ao negócio que tornaram esta escolha natural”, afirmou Érico de Araújo Fernandes, responsável por esta base europeia.

Por detrás desta mudança corporativa está a fusão da Mitsubishi Fuso (Daimler Truck) e da Hino (Toyota), que se uniram debaixo do mesmo chapéu, através da sociedade conjunta Archion. A joint venture entre a Daimler e a Toyota levou a uma reorganização interna, mas não vai mexer com o processo de produção no Ribatejo. Palavra de diretor.

Tramagal traz “benefícios de exportação”

O diretor regional da Fuso garante que a fábrica do Tramagal “continua a fazer total sentido”. “Os nossos camiões não têm outro local de produção. São todos produzidos no Tramagal. Tudo o que vendemos na Europa vem do Tramagal. Temos benefícios de exportação por ter conteúdo local na Europa, portanto faz todo o sentido estratégico para a nossa organização”, disse Érico de Araújo Fernandes, em entrevista ao ECO.

O facto de a casa-mãe em Kawasaki ter feito um investimento na contratação em Lisboa, num novo modelo do camião (Canter 26) e noutras funcionalidades dos motores — nomeadamente para serem compatíveis com hidrogénio verde — mostram o compromisso o mercado europeu e com Portugal, segundo Érico de Araújo Fernandes.

“Todos os veículos Mitsubishi Fuso vendidos na Europa são produzidos na Europa. Portugal reúne esta história industrial, uma forte ligação aos clientes e ao mercado e, a partir de agora, um contributo fundamental para o desenvolvimento da nossa operação europeia”, reforçou Andreas Deuschle, vice-presidente sénior da Mitsubishi Fuso, responsável por vendas, serviço ao cliente e mercados internacionais.

Reportagem na fábrica da Fuso no Tramagal - 22MAI23
Linha de montagem da Canter na fábrica da Fuso, Tramagal.Hugo Amaral/ECO

Desde 1980, a fábrica portuguesa produziu para o mercado português o camião ligeiro Fuso Canter, o camião médio Fuso, a pick-up Mitsubishi L 200, a van L 300 e o jipe Pajero. Mais recentemente, pôs as máquinas a trabalhar no eCanter, o modelo elétrico.

No entanto, uma fase de redução da atividade ditou que a produção fosse suspensa em julho, quando 267 trabalhadores foram postos em lay-off (redução do horário ou suspensão de contratos), e também em agosto para o habitual período de férias. No final de setembro, as linhas voltaram a rodar e, segundo a liderança da Fuso, assim continuará.

Até porque, neste contexto de subida dos combustíveis, a procura pela gama elétrica dos camiões está a crescer. A previsão é que mais camiões do lixo e gruas adiram à versão mais amiga do ambiente do Canter. “Há uma adoção maior de camião elétrico. Não lhe posso dar detalhes de números, mas o crescimento do ano passado para este já consegue perceber nas vendas. Portanto, há aspetos mais positivos e menos positivos, como uma certa pressão inflacionária nas componentes e impacto nas operações dos clientes”, reconhece o gestor.

Antes da pandemia de Covid-19, a crise energética do gás colocou a fábrica do Tramagal na ‘guilhotina’, “devido aos problemas de abastecimento”. “Se a situação de abastecimento de gás não normalizar rapidamente admitimos ter de parar a produção e fechar a fábrica”, admitiu, à época, a unidade fabril que exporta para mais de 30 países de todo o mundo e estava a trabalhar “no limite”.

O adeus à representação através da Daimler

O que aconteceu em Portugal faz parte de um plano mais amplo a nível europeu. Desde esta quinta-feira, dia 1 de outubro, a marca Mitsubishi Fuso começou a operar através de 15 distribuidores, entre os quais Emil Frey, Maurelli, Temsa ou Astara, que distribui a marca em Portugal. O novo modelo organizacional vai, progressivamente, substituir o anterior, no qual a insígnia era representada além-fronteiras por via das estruturas da Daimler Truck.

A intenção é ter uma operação mais focada na própria marca por entre os mais de 200 pontos de venda na Europa e os 700 postos de assistência. “A nova estrutura de distribuição representa uma mudança organizacional, mas vai além disso: é uma plataforma de crescimento a longo prazo para a Mitsubishi Fuso na Europa. O objetivo é assegurar uma maior proximidade aos mercados, aos nossos parceiros e, acima de tudo, aos nossos clientes”, sublinhou Andreas Deuschle.

Questionado sobre o encerramento do hub tecnológico da Daimler em Lisboa, Érico de Araújo Fernandes, disse que não há “nenhuma relação” entre esse desinvestimento e estas decisões, além de serem “empresas diferentes.”Os nossos profissionais são um pouco diferentes dessa base tecnológica: são engenheiros de diagnóstico, gestores de processos de suporte a vendas, formadores de vendedores, com competências relativamente diferentes”, frisou, em declarações ao ECO.

Tudo o que investimos em tecnologia, produto e diferenciação de mercado só podem ser 100% explorados se tivermos uma rede robusta de distribuição. Com a nossa separação do grupo Daimler, trouxemos uma nova rede de distribuição dedicada exclusivamente à Mitsubishi Fuso para a Europa.

Érico de Araújo Fernandes

Diretor regional da Fuso Europa

A reorganização da fabricante japonesa, com quase 95 anos de história, inclui também a abertura de um novo armazém de distribuição de peças em Moerdijk, nos Países Baixos. O centro com aproximadamente dez mil metros quadrados e mais de 15 mil peças armazenadas estará em contacto com o quartel-general de Lisboa e facilitará o abastecimento da rede europeia. É um “ecossistema logístico” para ter maior disponibilidade de peças e montar no Tramagal.

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