Prova dos 9. Salários subiram mesmo 15% nos últimos dois anos como diz Montenegro?

Primeiro-ministro destacou que salários líquidos cresceram 15% nos últimos dois anos. Numa altura em que o custo de vida preocupa os portugueses, importa saber: o ordenado médio deu mesmo essa salto?

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Numa altura em que o custo de vida preocupa os portugueses (tema que até já foi debatido no Parlamento), o primeiro-ministro assinalou que, apesar de “ninguém falar disso”, os salários líquidos aumentaram cerca de 15% nos últimos dois anos.

O mercado de trabalho tem dados provas contínuas de resiliência, apesar dos muitos desafios nacionais e internacionais. E os ordenados têm crescido, também por efeito da trajetória positiva do salário mínimo nacional e do acordo de valorização remuneratória firmado na Concertação Social.

Por outro lado, o Governo tem feito várias reduções de IRS, deixando mais rendimento líquido na carteira dos portugueses. A mais recente dessas reduções (a quinta levada a cabo por Luís Montenegro) será discutida na próxima semana.

Contudo, em paralelo, a evolução dos preços tem pressionado o orçamento das famílias, e até já levou o Executivo a avançar com algumas medidas de resposta. Assim, importa perceber: afinal, o que dizem os números sobre o rendimento dos portugueses?

A afirmação

“Ninguém fala disto, mas os portugueses têm de saber. Em dois anos, o crescimento líquido dos salários rondou os 15%. 15% de um salário são mais dois ordenados mensais por ano.”

Os factos

Os dados mais recente de que o Instituto Nacional de Estatística (INE) dispõe são relativos ao segundo trimestre deste ano e indicam que em junho a remuneração bruta total mensal média por trabalhador rondava os 1.835 euros em Portugal. Esse indicador inclui, contudo, não só o salário, mas também, por exemplo, o subsídio de refeição e as horas extraordinárias.

O INE divulga, por isso, todos os trimestres também os dados relativos à componente base e à componente regular (que exclui, nomeadamente, os subsídios de férias e Natal, pelo que tem um comportamento menos sazonal). Em junho, a componente base situou-se em 1.342 euros, enquanto a componente regular foi de 1.366 euros.

Em comparação, em junho de 2024, a remuneração bruta total mensal média por posto de trabalho era de 1.643 euros, a componente base era de 1.212 euros e a componente regular era de 1.294 euros. Assim, de acordo com as contas do ECO, o salário bruto médio subiu cerca de 12% (192 euros) em dois anos. No caso da componente base e da componente regular, a subida foi de aproximadamente 11%.

Luís Montenegro referiu-se, contudo, não à remuneração bruta, mas à líquida, isto é, ao rendimento que efetivamente chega à carteira dos portugueses. Para essa evolução, concorre não apenas o aumento absoluto dos salários (decidido pelos empregadores), mas também o enquadramento fiscal. A Taxa Social Única (os descontos para a Segurança Social) não foram alterados nestes últimos anos, mas as taxas de IRS foram reduzidas várias vezes.

Vamos, então, aos dados. De acordo com o INE, no segundo trimestre de 2024, o rendimento médio mensal líquido da população empregada por conta de outrem era de 1.178 euros. Já no segundo trimestre de 2026, passou para 1.348 euros. É o equivalente a um salto de 170 euros ou 14,43%.

Quando se analisam os salários, há, contudo, uma outra faceta que importa considerar: o impacto da variação dos preços nessas remunerações. O INE adianta que a remuneração bruta real mensal média por trabalhador em junho de 2026 foi de 1.416 euros. Já nesse mesmo mês mas de 2024 rondava os 1.339 euros. Quer isto dizer que, em dois anos, houve um salto real de 77 euros ou 5,75% do salário médio praticado em Portugal.

Prova dos 9

Numa altura em que os portugueses se confrontam com uma crise do custo de vida — com a inflação a aproximar-se dos 4% –, Luís Montenegro fez questão de notar que o salário líquido aumentou cerca de 15% nos últimos dois anos. Os dados mostram que o rendimento médio mensal líquido da população empregada em Portugal subiu cerca de 14,4%, o que está muito próximo da afirmação do primeiro-ministro.

O chefe do Executivo disse ainda que esse acréscimo é o equivalente a dois ordenados mensais por ano e os cálculos também suportam essa afirmação: se multiplicarmos a diferença de 170 euros conseguida entre 2024 e 2025 por 12, obtemos 2.040 euros, próximo do dobro do salário médio líquido praticado em 2024.

No entanto, na discussão em torno dos salários, é importante não esquecer também o impacto da inflação nos rendimentos, sendo que, em termos reais, o aumento do salário médio dos trabalhadores em Portugal não foi além de 6%, entre o segundo trimestre de 2024 e o mesmo período de 2026.

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