BRANDS' ECO Preparar os transportes para o clima extremo exige dados, investimento e decisões partilhadas
Cheias, incêndios e ondas de calor ameaçam redes de transporte e contas públicas, avisam especialistas. Num painel sobre riscos climáticos, defenderam cooperação para decidir onde investir.
Uma estrada cortada por uma cheia pode impedir a chegada de equipas de emergência, assim como uma falha elétrica pode parar uma linha de transporte e afetar milhares de deslocações. Estes efeitos em cadeia estiveram no centro da conversa no painel “Perceber os riscos & preparar para ameaças climáticas”, que encerrou a manhã do segundo dia do Mobility & Digital Twins: Enabling the data-driven City of Tomorrow, dedicado à preparação das cidades e dos seus sistemas de transporte para fenómenos climáticos extremos.
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A discussão, que decorreu na NOVA IMS, em Lisboa, partiu da dificuldade que autoridades locais e regionais têm de manter os serviços a funcionar, mas nem sempre com capacidade de prever como uma falha se propaga entre infraestruturas, operadores e serviços essenciais. Os gémeos digitais, modelos que permitem representar sistemas e experimentar cenários, foram apresentados como uma forma de apoiar esse trabalho, embora os participantes concordem que o seu valor depende das decisões que ajudam a tomar.
Yigyeong Oh, especialista das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres, propôs olhar para o risco como a combinação de três fatores: o perigo, aquilo que está exposto e a sua vulnerabilidade. Uma linha sem percurso alternativo, por exemplo, pode ser mais vulnerável do que uma rede com redundância. E uma interrupção no fornecimento de energia pode transformar-se rapidamente num problema de mobilidade.
É nesse cruzamento que um gémeo digital pode ser útil, explicou Yigyeong Oh. Ao simular situações antes de ocorrerem, as autoridades podem identificar os pontos onde uma falha terá consequências mais graves e concentrar aí os recursos disponíveis. O modelo, advertiu, tem de incorporar conhecimento local, porque “quem gere uma rede conhece dependências e fragilidades que os dados, por si só, podem não revelar”.

A dimensão financeira da preparação foi abordada por Aysenur Alma, representante da área de proteção civil da Comissão Europeia, que lembrou como os danos provocados pelo clima extremo atingem ativos e interrompem operações, mas também dificultam o acesso a cuidados de saúde, a resposta de emergência e ao abastecimento. Uma onda de calor prolongada, por exemplo, pode pressionar simultaneamente a saúde, a energia e os transportes.
Para Aysenur Alma, preparar uma cidade implica identificar vulnerabilidades, comunicar riscos e investir em prevenção e adaptação antes de aprovar novas infraestruturas. Na apresentação, citou um painel de dados da Comissão Europeia que apontava para 9,31 mil milhões de euros de perdas económicas em Portugal ao longo de 25 anos. O valor serviu para dar escala ao argumento económico de que antecipar riscos pode evitar despesas maiores após uma catástrofe.
A oradora salientou ainda que a resposta não termina nas fronteiras de um município ou de um setor, e que a cooperação entre proteção civil, operadores de transporte e diferentes níveis de governo deve ser testada com antecedência. O mesmo deve acontecer com a capacidade dos sistemas para resistir a períodos prolongados de calor ou a incêndios, assim como a preparação da população deve fazer parte da resposta.
Do lado do financiamento da investigação, Katerina Deliali, da agência europeia CINEA, apresentou projetos que aplicam gémeos digitais à mobilidade urbana, à operação portuária e à análise de inundações
Planear exige investimento
Do lado do financiamento da investigação, Katerina Deliali, da agência europeia CINEA, apresentou projetos que aplicam gémeos digitais à mobilidade urbana, à operação portuária e à análise de inundações. Os exemplos mostram aplicações possíveis, mas também um problema: muitas soluções foram desenvolvidas para um local ou uma função específica e continuam numa fase experimental.
A nova direção, explicou, é integrar mais componentes da cidade no mesmo exercício de planeamento. Projetos recentemente financiados procuram ligar cenários, estratégia e operações, com requisitos relativos a padrões técnicos, proteção de dados e transparência da inteligência artificial. Katerina Deliali ressalvou, contudo, que são iniciativas recentes e que ainda não dispõe de resultados concretos para apresentar.
Peter Torstensson, diretor de investigação do instituto sueco VTI, apontou três utilizações para estas ferramentas: acompanhar e antecipar falhas durante eventos extremos, mostrar as consequências para entidades com responsabilidades diferentes e comparar opções de adaptação a longo prazo. Recordou interrupções de transportes no norte da Suécia para ilustrar como a falta de informação sobre o estado da rede dificulta a gestão de uma crise.
No planeamento, acrescentou, não basta escolher uma medida para um único cenário climático. Municípios e operadores precisam de comparar combinações de investimentos perante futuros incertos, incluindo os respetivos custos socioeconómicos. As simulações podem dar base a essa escolha e ajudar instituições distintas a discutir quem deve agir.
Simular em modelo de jogo
Desde Londres, Ian Catlow trouxe a perspetiva de uma grande rede urbana e da experiência do plano de adaptação da Transport for London, que identificou 333 riscos na rede de transportes, sobretudo ligados ao calor e às inundações. A cidade britânica já utiliza gémeos digitais em partes da operação, mas ainda não dispõe de um modelo dedicado aos riscos climáticos de toda a cidade.
Construir um sistema dessa escala exigiria dados de muitas organizações, acordos de partilha, atualização contínua e investimento. Ian Catlow defendeu que, antes de avançar, é preciso definir o objetivo e apoiar decisões operacionais em tempo real, estudar cenários de longo prazo ou cumprir ambas as funções. Os benefícios esperados terão de justificar os custos de construção e manutenção.
Micael Sousa, designer de jogos no Center for Advanced Preparedness and Threat Response Simulation (CAPTRS), considera que ver os efeitos de uma decisão pode ajudar também cidadãos e responsáveis políticos a compreender escolhas que, apresentadas apenas em relatórios, parecem abstratas
Micael Sousa, designer de jogos no Center for Advanced Preparedness and Threat Response Simulation (CAPTRS), apresentou uma maneira alternativa de preparar decisões. Nos exercícios que desenvolve, os participantes enfrentam problemas interligados, escolhem respostas e observam as consequências. O jogo permite repetir uma situação, aprender com erros e treinar a colaboração sem sofrer os efeitos de uma crise real.
O especialista defendeu a importância de combinar interação presencial com recolha digital de dados, explicando que o registo das escolhas torna possível avaliar o exercício depois de terminado e perceber como as equipas decidiram sob pressão. No debate final, acrescentou que ver os efeitos de uma decisão pode ajudar também cidadãos e responsáveis políticos a compreender escolhas que, apresentadas apenas em relatórios, parecem abstratas.
A última questão do painel foi, precisamente, como fazer chegar os resultados destas ferramentas à decisão pública. Ian Catlow apontou um desafio aos investigadores e às empresas: trabalhar sobre os problemas que as autoridades já identificaram nos seus planos e desafios de inovação. Os restantes participantes insistiram na necessidade de definir destinatários, objetivos e cenários antes de desenvolver a tecnologia.
O painel, moderado por Pedro Homem Gouveia (POLIS), deixou uma exigência para os próximos investimentos: transformar informação dispersa em escolhas justificadas. Saber que o clima extremo vai afetar os transportes já não chega. É preciso perceber onde a rede pode falhar, que serviços serão atingidos a seguir e quais as medidas que oferecem maior proteção com os recursos disponíveis.
Assista à conferência completa através do vídeo abaixo.
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