BRANDS' ECO CCB – 30 anos de uma cidade dentro da cidade

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  • 18 Novembro 2022

CCB, um projeto ousado no Portugal dos anos 90 e uma aposta de sucesso, 30 anos depois. Saiba como nasceu, o que mudou e os caminhos futuros desta instituição.

“Sem a cultura, e a liberdade relativa que ela pressupõe, a sociedade, por mais perfeita que seja, não passa de uma selva. É por isso que toda a criação autêntica é um dom para o futuro.” Esta era a visão de Albert Camus, mas que se adequa perfeitamente ao que tem sido o maior centro cultural de Portugal.

O Centro Cultural de Belém (CCB) celebra 30 anos de existência em 2023. Esta, que é uma referência na cultura em Portugal, provou que com uma boa estratégia e esforço, o que era um sonho ousado no Portugal de há trinta anos, destaca-se hoje como uma realidade de sucesso.

Elísio Summavielle, Presidente do Conselho Administrativo do CCB, conta em entrevista ao ECO como nasceu o CCB, os desafios nestas três décadas, a estratégia pós pandemia e o que se espera para o futuro desta instituição.

Em 1991 estava-se a preparar a Presidência Portuguesa Europeia que teve lugar no CCB, iniciando em 1992. Um ano depois, em 1993, o CCB abriu portas ao público, como o primeiro centro cultural desta dimensão em Portugal.

Na altura existiam já três módulos: o Centro de Congressos, o Centro de Espetáculos e o Centro de Exposições. Portanto, desde o momento em que era apenas um esboço no papel, concebido pelos arquitetos Vittorio Gregotti e Manuel Salgado, era já um projeto ousado. Houve vários “velhos do Restelo”, nos mais diversos setores da sociedade, que contestaram a construção deste centro cultural, principalmente a nível arquitetónico. Porém, este que se tornou Património Nacional, deu provas de ser, tal como Summavielle afirmou, “um equipamento que não existia na cidade de Lisboa (capital Europeia) e que fazia falta, tendo-se revelado um caso de sucesso ao longo dos anos”.

O facto do CCB ter sido sede da primeira Presidência portuguesa contribuiu para a curiosidade do público, contudo, foi o facto de, nas palavras de Vittorio Gregotti, ser “uma cidade dentro de uma cidade”, que fez com que o público continuasse a voltar e a usufruir de tudo o que este espaço tinha para oferecer. Segundo Summavielle, depois da presidência portuguesa, criou-se a Fundação das Descobertas, e posteriormente a Lisboa 94 – Capital Europeia da Cultura, que trouxe muitos espetáculos e uma enorme afluência de pessoas ao CCB.

O Centro Cultural de Belém foi construído, desde sempre, para ser um organismo polivalente, com uma oferta cultural diversificada e de alta qualidade, o que implica também “uma grande diversidade de públicos”. Tal como partilha o Presidente “é exatamente isso que faz uma “cidade aberta”, tentar ir ao encontro dos diversos públicos, porém, nunca descuidando a qualidade”. Relembra também que, ao longo destes 30 anos, houve uma evolução positiva e exponencial no interesse pela cultura e nos padrões culturais dos portugueses. Tal como refere, “há 30 anos o país ainda estava muito a preto e branco, eram algumas elites que frequentavam espetáculos com alguns conteúdos mais de vanguarda, e destinados a essas mesmas elites culturais”. Acrescenta ainda que a partir de 1994, com Lisboa-94, Capital Europeia da Cultura, a abertura, a quantidade, e a qualidade da oferta cultural aumentou exponencialmente, realidade essa reforçada ainda no ano da Expo 98.

Ao longo do tempo foi-se redefinindo a estratégia do CCB. É imprescindível um equilíbrio que permita a obtenção da receita necessária à continuidade do projeto e esta receita também se obtém na área comercial. Ou seja, é importante salientar que praticando preços sociais, a grande parte da receita não vem da bilheteira. Deste modo, é assim uma conjunção de esforços entre o apoio do Estado, a bilheteira e a área comercial. E neste campo, o CCB tem para oferecer no Centro de Congressos, “espaços magníficos para conferências, congressos, eventos corporativos, com o melhor suporte a nível de audiovisuais, catering e não só. Sendo que essa receita é fundamental para se poder depois investir na parte cultural”, revela Summavielle.

A grande base estratégica assenta, portanto, na sustentabilidade de recursos, aliada à subvenção do Estado “que já foi superior no período pré troika e permitia outro desafogo”, e à receita da área comercial, permitindo assim uma programação cultural consistente. Summavielle apela então aos potenciais clientes para os eventos corporativos, reforçando que a qualidade da infraestrutura e das equipas marca, de facto, a diferença no que é oferecido pelo CCB.

A vida do CCB passou por duas fases: a primeira enquanto Fundação das Descobertas, e a atual, Fundação Centro Cultural de Belém, desde 1999, permanecendo os estatutos inalterados até hoje. O Conselho de Administração passou a contar com três elementos designados pelo Ministério da Cultura. Na visão de Summavielle, seria certamente benéfica uma futura revisão dos estatutos, no sentido de haver uma maior abertura à sociedade civil, de modo a permitir que o mundo empresarial pudesse ter assento e participar na gestão do CCB, bem como a própria cidade de Lisboa, solidificando assim a parceria que já existe com a Câmara de Lisboa. Este é um dos pontos que o Presidente aponta como estratégia futura, que seria “positiva e mais libertadora”, mas que, no entanto, não depende da Administração do CCB.

Outro dos pontos que mudou bastante em três décadas é o modo como a cultura é difundida. Atualmente é possível recorrer a mais meios de comunicação para fazer chegar a oferta e a mensagem do CCB a um maior público. A evolução dos meios de comunicação revelou-se extremamente relevante, principalmente, no período pandémico e de confinamento. Foi necessária alguma capacidade de adaptação para continuar a conseguir levar a cultura ao público português. Nesta altura, explica Summavielle “investimos nos eventos e espetáculos em streaming, para além de disponibilizar conteúdos culturais através da RTP Palco, acabando por ser uma consequência virtuosa”. Afirma que o plano é sempre investir nos eventos presenciais, mas manter a possibilidade do acesso online. Acredita que a componente presencial e social é imprescindível, nas suas palavras “o património mais importante são as pessoas”.

Isto prende-se com mais um dos pontos para a estratégia futura do CCB, que é concluir o projeto inicial de Gregotti, construindo os módulos IV e V, tal como estava previsto e desenhado desde o início, com um hotel e uma galeria com serviços, comercio e restaurantes. Este é o ideal do projeto inicial, o de criar uma “cidade dentro da cidade”, dinamizando assim esta zona de Lisboa e aumentando a procura do CCB, apostando no também no turismo corporativo.

Este polo cultural assume-se mais fortemente como local de cultura e também de lazer, onde se pode passar uma tarde em família nos jardins, fazer compras, jantar, fazer um workshop com os mais pequenos, para além de assistir a um bom espetáculo, claro. Summavielle acredita que com toda essa dinamização, aumentando bem as receitas, haverá consequentemente uma subida na fasquia da oferta cultural do CCB, com maior internacionalização, e “no mapa dos grandes eventos culturais da Europa”.

Terminando esta agradável conversa, Elísio Summavielle define o CCB de hoje como uma “cidade aberta”, com uma oferta cultural de maior diversidade e qualidade. Afirma que o próprio desenvolvimento do projeto futuro (hotel e galeria) vai “fazer cidade” e favorecer objetivamente o CCB. “O caminho faz-se caminhando”, sempre rumo ao crescimento e à excelência.

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