Bloqueio americano do Estreito de Ormuz: conheça as motivações, as reações e os impactos
O bloqueio que começa esta segunda-feira já fez disparar o preço do barril de petróleo. Veja o que está em causa na guerra pelo controlo do crucial Estreito de Ormuz.
Bloqueio americano do Estreito de Ormuz: conheça as motivações, as reações e os impactos
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O que é que os EUA anunciaram sobre o bloqueio?
“A Marinha dos Estados Unidos, a melhor do mundo, dará início ao processo de BLOQUEIO de todos e quaisquer navios que tentem entrar ou sair do Estreito de Ormuz”, escreveu Donald Trump na sua rede Truth Social, este domingo, poucas horas depois do colapso das negociações, mediadas este sábado em Islamabad pelo Paquistão, que terminaram sem acordo entre EUA e Irão para o fim do conflito que arrancou no último dia de fevereiro.
O Comando Central dos EUA afirmou que as forças americanas vão começar a implementar o bloqueio de todo o tráfego marítimo que entrasse e saísse dos portos iranianos às 10h00 Eastern Time, (15h00 de Lisboa) de segunda-feira.
O bloqueio será “aplicado de forma imparcial contra embarcações de todas as nações que entrarem ou saírem de portos e zonas costeiras iranianas, incluindo todos os portos iranianos no Golfo Árabe e no Golfo de Omã”, afirmou um comunicado do CENTCOM publicado na rede social X.
As forças americanas não vão impedir a liberdade de navegação de embarcações que transitarem pelo Estreito de Ormuz de e para portos não iranianos, e vão fornecer informações adicionais aos embarcações comerciais através de um aviso formal antes do início do bloqueio, explicou.
Proxima Pergunta: Como é que o Irão reagiu?
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Como é que o Irão reagiu?
Um porta-voz militar iraniano, citado pela imprensa estatal, afirmou que quaisquer restrições impostas pelos EUA a embarcações em águas internacionais seriam ilegais e equivaleriam a “pirataria”. Se os portos iranianos forem ameaçados, nenhum porto no Golfo ou no Golfo de Omã permanecerá seguro, afirmou o porta-voz.
Antes disso, a Guarda Revolucionária do Irão tinha declarado que qualquer embarcação militar que se aproximar do estreito será considerada como tendo violado o cessar-fogo.
Os responsáveis iranianos afirmam estar numa posição mais forte do que antes das negociações e que só chegarão a um acordo se os EUA fizerem mais concessões. O Irão “deparou-se com maximalismo, mudanças nas regras do jogo e bloqueio” por parte dos Estados Unidos nas negociações, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araqchi, citado pela Reuters.
“Não aprenderam absolutamente nada”, acrescentou Araqchi. “A boa vontade gera boa vontade, inimizade gera inimizade.”
Proxima Pergunta: E os outros países?
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E os outros países?
“O bloqueio terá início em breve, outros países estarão envolvidos neste bloqueio”, sublinhou Trump, sem especificar quais. No entanto, esta segunda-feira vários países já se mostraram contra a medida americana.
Em Bruxelas, Ursula von der Leyen, presidente Comissão Europeia, disse aos jornalistas, após uma reunião sobre a situação no Médio Oriente, que “o encerramento contínuo do Estreito de Ormuz é extremamente prejudicial, e o restabelecimento da liberdade de navegação é de importância primordial para nós”.
Para a Alemanha, “o suposto bloqueio não marca o fim deste processo diplomático”, disse um porta-voz do Governo de Friedrich Merz, “Consideramos que se trata de uma medida para intensificar a pressão.”
França e Reino Unido tomaram já uma posição mais ativa, no entanto, com o Presidente Emmanuel Macron e o primeiro-ministro Keir Starmer a anunciarem que vão organizar esta semana conversações com outros países com vista à reabertura do estreito.
A ideia, segundo Starmer, é “avançar os trabalhos de um plano coordenado, independente e multinacional para proteger a navegação internacional quando o conflito acabar”. Por sua vez, Macron sublinhou que será uma “missão estritamente defensiva, que será separada das partes em conflito, com a intenção de ser implementada logo a situação o permita”.
Em Pequim, o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, disse que o bloqueio americano não servirá os interesses da comunidade internacional, urgindo as partes envolvidas no conflito a cumprirem os termos do cessar-fogo temporário estabelecido na passada quarta-feira e a resolverem a questão por via diplomática.
Para a Rússia, “este tipo de ação irá provavelmente continuar a impactar os mercados internacionais”, segundo o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.
Proxima Pergunta: Quais são os objetivos dos EUA?
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Quais são os objetivos dos EUA?
A reabertura do Estreito por onde passava cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo antes do conflito foi um dos pontos de rutura nas conversações e Trump criticou de forma veemente as intenções anunciadas pelo Irão de continuar a cobrar uma espécie de ‘portagem’ para deixar passar petroleiros por essa via, mesmo quando a guerra terminar.
Segundo várias fontes, o Irão têm cobrado a quantia de 2 milhões de dólares (cerca de 1,71 milhões de euros) por navio para garantir ‘passagem segura’, apesar de críticas da Organização Marítima Internacional e de peritos em Direito Internacional.
“Com o bloqueio anunciado, os Estados Unidos pretendem desviar o tráfego comercial do Estreito de Ormuz das águas territoriais iranianas para as águas territoriais de Omã, a fim de restabelecer a liberdade de comércio e restringir as exportações de petróleo iraniano, até agora poupadas”, referiram os analistas do banco privado suíço Julius Baer.
Recordaram que o Estreito de Ormuz nunca foi efetivamente fechado, tendo o tráfego comercial reduzido a um fio e vindo a aumentar nos últimos tempos, com o corredor sul a principal rota comercial em tempos de paz, com muito poucos navios a transitar desde a escalada do conflito, enquanto o corredor norte se tornou a rota controlada e protegida pelo Irão, registando um aumento do tráfego desde meados de março.
“Assim, os próximos dias deverão trazer uma intensificação da perturbação do abastecimento após semanas de acalmia, à medida que os transportadores reduzem os tráfegos e o comércio iraniano diminui”, sublinharam.
“O bloqueio dos EUA deve ser visto como parte da fase de negociações, uma fase que é complicada pela divisão do regime iraniano em facções com visões estratégicas diferentes”, concluíram.
Proxima Pergunta: Que impacto é que o bloqueio está a ter nos mercados?
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Que impacto é que o bloqueio está a ter nos mercados?
“Os mercados registaram esta manhã uma clara tendência de aversão ao risco”, notaram os analistas do Deutsche Bank, apontando para o falhanço das negociações e o iminente bloqueio do Estreito de Ormuz. “Assim, apesar do otimismo da semana passada, quando foi anunciado o cessar-fogo de duas semanas, o clima voltou a tornar-se negativo.”
O preço do barril de Brent, referência para a Europa, dispara 7,70%, para 102,47 dólares, após na sexta-feira ter recuado 0,75%. A cotação do barril de West Texas Intermediate (WTI) avança 7,82%, para 104,12 dólares.
Nas bolsas acionistas, os principais índices começaram a semana ‘no vermelho’. As praças asiáticas fecharam em queda, com o japonês Nikkei a recuar 0,74% e o sul-coreano Kospi 0,86%. Na Europa, o espanhol IBEX-35 lidera as perdas com uma derrapagem de 1,62%, enquanto o alemão DAX desce 1,36% e o português PSI desvaloriza 0,86%.
Em Wall Street, os futuros apontam para uma abertura em terreno negativo, com os do Nasdaq e do S&P 500 a recuarem 0,7% e do Dow Jones a perder 1%.