Caça europeu não levanta voo. O que ditou o fim do projeto de 100 mil milhões e o que vem a seguir?
O caça europeu, a ser pensado desde 2017 entre França e a Alemanha, teve uma aterragem forçada. Na Alemanha e Espanha a indústria movimenta-se para dar seguimento ao projeto caça europeu 6.ª geração.
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Como começou o projeto do caça europeu de nova geração?
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Que empresas estavam envolvidas?
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Qual foi o problema?
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Qual foi o desfecho?
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Como reagiram a Espanha e a Bélgica?
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E agora? A Europa não vai ter um caça de nova geração?
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E o que vai fazer Espanha?
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Além do FCAS, há outros projetos para construir um caça europeu?
Caça europeu não levanta voo. O que ditou o fim do projeto de 100 mil milhões e o que vem a seguir?
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Como começou o projeto do caça europeu de nova geração?
Ainda o tema da soberania europeia de defesa não tinha ganho a dimensão atual — com a guerra na Ucrânia e o aumento de tensão com o aliado norte-americano na NATO a acelerar essa preocupação na lista de prioridades dos países —, em julho de 2017 o presidente francês, Emmanuel Macron, e a então chanceler alemã, Angela Merkel, davam início a um projeto que visava entregar em 2040 um caça europeu de 6.ª geração alternativo aos F-35 norte-americanos, substituindo as frotas dos Eurofighter e dos franceses Rafale.
Apelidado de Sistema Aéreo de Combate Futuro (FCAS, na sigla em inglês), o projeto arrancou com os dois países, aos quais, dois anos depois, em 2019, juntou-se a Espanha. Em junho de 2023, foi a vez de a Bélgica entrar como país observador do programa.
A ambição do projeto era visível na dimensão do orçamento estimado para a sua concretização: 100 mil milhões de euros.
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Que empresas estavam envolvidas?
Envolvendo os três países, o FCAS tinha como principais empresas promotoras a Airbus Defence and Space, a francesa Dassault Aviation e a espanhola Indra, contando ainda com o contributo de outros parceiros europeus, como a MTU Aero Engines, a Safran, a Thales ou a MBDA para desenvolver o que foi apelidado de “sistemas de sistemas”.
Ou seja, um caça furtivo, combinado com drones, ligados por uma infraestrutura digital (‘nuvem de combate’), para garantir um sistema de comunicações seguro.
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Qual foi o problema?
De forma simples: visões distintas sobre o que deveria ser o futuro caça e um diferendo sobre a liderança do projeto. Foi notícia que a Dassault Aviation pretendia liderar o projeto, o que era contestado pela Airbus. Segundo a EFE, a Dassault pretendia assumir 80% do consórcio, mudando a anterior distribuição de participações de 33% pelos três parceiros.
Já em 2025 as afirmações do CEO da fabricante francesa, Éric Trappier, durante a inauguração de uma fábrica, indicava que nem tudo estava tranquilo: “Se eles [os alemães] quiserem fazer isso sozinhos, que façam sozinhos”, disse. “Nós sabemos fazer tudo do início ao fim”, afirmou citado pelo The Guardian. Nos anos 80, a empresa já tinha abandonado o programa Eurofighter porque queria liderar o projeto do caça que acabou por ser construído em consórcio pelo Reino Unido, Itália, Alemanha e Espanha – sem a participação da França —, projeto no qual estão envolvido a Airbus e a Indra, igualmente parceiros no FCAS.
O desconforto da Airbus também começou a ser visível e público. Em dezembro do ano passado, o sindicato alemão IG Metall avisava que iria deixar de cooperar no projeto se a Dassault Aviation se mantivesse ligada ao programa, noticiou a Reuters, com o sindicato alemão a mostrar-se incomodado com o facto de a empresa francesa estar a reclamar a liderança do projeto.
Depois foi a vez do chanceler alemão, Friedrich Merz no podcast Machtwechsel, a demonstrar o seu descontentamento. E não poupou palavras: o caça desejado pelos franceses não serve as necessidades das forças armadas alemãs. “Os franceses precisam de uma aeronave com capacidade nuclear na próxima geração de aviões de combate; nós, da Bundeswehr [Forças Armadas] alemã, não precisamos disso agora”, justificou.
“A França só quer construir uma coisa e quer alinhá-la praticamente às especificações de que precisa. Mas não é isso que precisamos”, referia ainda o chanceler alemão, frisando que não se trata de uma “disputa política”, mas uma questão técnica. “Por isso, não se trata de uma disputa política, mas sim de um problema real no perfil de requisitos. Se não conseguirmos resolver isso, não poderemos manter o projeto”, apontou.
E o antigo CEO da Airbus, Tom Enders, foi ainda mais contundente: a decisão da Alemanha de avançar há nove anos com a França para a construção de um caça europeu de nova geração foi um “erro estratégico”.
“Deveríamos ter mantido e fortalecido o nosso relacionamento com a BAE Systems [do Reino Unido]. Tivemos mais de 50 anos de cooperação bem-sucedida no desenvolvimento de aeronaves de combate com o Reino Unido”, disse o gestor que liderou a Airbus e a sua antecessora EADS entre 2005 e 2019.
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Qual foi o desfecho?

Leonor Gonçalves/ECO O desconforto e a tensão entre as empresas eram públicos e na esfera política começou a ser visível que dificilmente seria encontrado um consenso, caso não houvesse um encontro de visões sobre os requisitos para o futuro caça.
O fim oficial surgiu a 8 de junho: “O Presidente francês e o chanceler alemão chegaram à conclusão comum de que as empresas [Airbus e Dassault Aviation] não conseguem chegar a acordo sobre a construção de uma aeronave de combate conjunta”, afirmou o Governo alemão, de acordo com a agência France-Presse. “Eles reconhecem esta realidade. O chanceler Federal Merz sugeriu, por isso, ao Presidente Macron que não deva continuar a construção de uma aeronave de combate conjunta”, acrescentou.
Segundo o Governo alemão, “o verdadeiro núcleo do FCAS deve continuar como um sistema europeu de sistemas”. “É uma espécie de sistema nervoso que liga aviões, drones e outros componentes para formar um todo integrado”, indicou Berlim.
O Governo especificou que os ministérios da Defesa francês e alemão “devem formular um plano de trabalho conjunto e contemporâneo para a cooperação na indústria de defesa, focado em alguns projetos realistas e relevantes”, durante o Conselho de Ministros Franco-Alemão na Alemanha, que decorre em junho.
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Como reagiram a Espanha e a Bélgica?
Apanhada entre os dois países, Espanha pediu à Indra, parceira do projeto e empresa da qual o Estado espanhol é acionista, para avaliar o impacto desta decisão. A Bélgica fala em “estupidez” e “arrogância”.
“Espanha precisa de um avião de sexta geração. E a Europa precisa de programas conjuntos, muito mais neste momento em que a proteção do espaço aéreo é essencial como estamos a ver”, disse Margarita Robles. A ministra de Defesa espanhola considerou que este caso é um sintoma do “fracasso das políticas de segurança e defesa da União Europeia”.
A Bélgica lamentou o abandono do projeto e o primeiro-ministro, Bart De Wever não poupou as críticas: trata-se de uma “estupidez” que ilustra “a arrogância” dos parceiros franceses e alemães. “Fiquei extremamente desapontado ao ler que a França e a Alemanha não conseguiram chegar a acordo sobre o desenvolvimento [deste projeto]. Que perda de tempo, que arrogância”, disse Bart De Wever, citado pela agência de notícias AFP.
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E agora? A Europa não vai ter um caça de nova geração?
O FCAS pode não ter levantado voo, mas a Airbus não quer deixar cair por terra o projeto de um caça de futura geração. Mal foi oficial a aterragem forçada da aeronave foi notícia que a Airbus planeava formar um consórcio, com oito empresas dos setores aeroespacial e defesa, para desenvolver um caça de sexta geração.
Além da Airbus Defence and Space, a Autoflug, a Diehl Defence, a Hensoldt, a Liebherr, a MBDA, a MTU Aero Engines e a Rohde & Schwarz são as empresas envolvidas neste projeto, apelidado de Team Gen 6, que já terá sido apresentado ao Governo alemão, segundo avançou o Financial Times.
E pouco tempo depois a empresa alemã confirmou essa intenção numa publicação no LinkedIn. “Embora o desenvolvimento do abrangente ‘Sistema de Sistemas’ esteja a progredir como dantes, a aeronave de combate de 6.ª geração ai integrada requer uma nova configuração industrial ágil”, pode ler-se na publicação. “Como Team Gen 6, temos as capacidades e os recursos necessários. Agora, procuramos uma estreita colaboração com os formuladores de políticas e a Força Aérea para impulsionar um sistema de combate aéreo europeu superior para a segurança coletiva”, referem.
No mesmo dia em que o FACS recebia ordem para regressar ao hangar, o ministro da Defesa alemão assegurava que havia meses que Berlim conversava com parceiros alternativos sobre um novo avião de combate, embora sem especificar com que empresas. “Veremos que caminho vamos tomar. Também sobre isso há meses que falamos com diferentes atores, como podem imaginar”, afirmou Boris Pistorius.
Mas do insucesso do projeto anterior foram retiradas lições: Projetos com a magnitude, concebidos para se desenvolverem durante muitos anos, “necessitam de uma estrutura industrial e de consórcio clara”, semelhante à da Airbus. “Com os conhecimentos que temos hoje, não voltaríamos a propor este projeto da mesma forma que se fez na altura”, referiu o ministro da Defesa.
Proxima Pergunta: E o que vai fazer Espanha?
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E o que vai fazer Espanha?
Depois da Airbus Space Defence ter dado a conhecer a sua intenção para, em conjunto com vários parceiros alemães, a apelidada Tem Gen 6, dar continuidade ao desenvolvimento de um caça de 6.ª geração, em Espanha também a indústria tomou uma posição.
“As principais empresas espanholas do setor de Sistemas de Armas de Próxima Geração (NGWS) — Airbus, GMV, Grupo Oesia, Indra Group, ITP Aero e Sener — assinaram hoje uma declaração conjunta de compromisso, oferecendo suas capacidades e apoio à Espanha e à Europa na potencial reconfiguração do programa FCAS/NGWS como um projeto europeu de referência”, informam em comunicado.
“A indústria espanhola disponibiliza a suas capacidades e recursos para a Espanha e seus potenciais parceiros no desenvolvimento de um sistema de combate de próxima geração, composto por um caça de sexta geração, veículos aéreos não tripulados (VANT) ou plataformas de transporte, comunicações avançadas e sensores que formam um sistema de sistemas graças à nuvem de combate”, pode ler-se.
“O setor oferece ao Ministério da Defesa as suas capacidades e sua disposição para trabalhar neste desenvolvimento, em colaboração com os países europeus por ele designados, contribuindo ativamente para a negociação e execução das próximas fases de desenvolvimento deste sistema de combate de sexta geração”, referem ainda.
“A Airbus Defence and Space, a GMV, o Grupo Oesía, o Grupo Indra, a ITP Aero e a Sener, juntamente com as outras empresas do ecossistema nacional e europeu, acreditam estar numa posição ideal para continuar a impulsionar o desenvolvimento ou a evolução de um sistema de combate de próxima geração (NGWS), com o objetivo de viabilizar sua entrada em serviço por volta de 2040.”
Proxima Pergunta: Além do FCAS, há outros projetos para construir um caça europeu?
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Além do FCAS, há outros projetos para construir um caça europeu?
Sim. Ao mesmo tempo que a França-Alemanha-Espanha trabalhavam no FCAS, havia projetos paralelos a decorrer. É o caso do Global Combat Air Programme. Desde dezembro de 2022, que o Reino Unido, o Japão e a Itália têm vindo a trabalhar neste projeto, visando entregar caças de nova geração em 2035. Embora essa colaboração tenha começado vários anos após os FCAS, recentemente deu alguns novos passos.
Em abril, os três países assinaram um contrato de 686 milhões de libras (cerca de 786 milhões de euros) para trabalhos essenciais de engenharia e de projeto e o Canadá já deu mostras de querer juntar-se como observador ao projeto do consórcio industrial formado pela BAE Systems, a italiana Leonardo e a Japan Aircraft Industrial Enhancement, apoiada pela Mitsubishi Heavy Industries.
O tema da aprovação do orçamento para Defesa no Reino Unido estaria no entanto a gerar alguma preocupação. Recentemente, o ministro da Defesa britânico demitiu-se precisamente por considerar que o orçamento para a defesa do país estava aquém das necessidades.
