Como o Governo planeia atrair mais ‘data centers’ para Portugal
- Tiago Alexandre Pereira
- 23 Abril 2026
O Executivo pretende captar mais investimento deste setor com uma estratégia que promete acelerar licenciamentos, reforçar a capacidade energética e posicionar o país como hub digital europeu.
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Para que servem os 'data centers'?
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Como é que o Governo pretende atrair mais 'data centers'?
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Quem vai coordenar o plano?
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Quem vai acompanhar a execução do plano?
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Existe algum prazo para a conclusão desta política?
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A captação de uma gigafábrica de IA está inserida neste plano?
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Há energia suficiente para suportar todos os 'data centers'?
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Quantos empregos podem ser criados com os novos 'data centers'?
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Que novos 'data centers' já estão na calha para avançarem?
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Como é que o setor vê o plano do Governo?
Como o Governo planeia atrair mais ‘data centers’ para Portugal
- Tiago Alexandre Pereira
- 23 Abril 2026
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Para que servem os 'data centers'?
Os centros de dados, mais conhecidos pelo nome inglês data centers, são infraestruturas especializadas onde se armazenam, processam e gerem grandes volumes de dados. Equipados com servidores, sistemas de armazenamento e de refrigeração e redes de alta capacidade, estas infraestruturas garantem que os dados estão organizados e acessíveis de forma rápida e segura.
São essenciais para o funcionamento de serviços online, empresas e instituições que dependem da tecnologia no dia-a-dia.
A função principal de um centro de dados é assegurar a disponibilidade contínua da informação, proteger dados sensíveis e permitir a recuperação rápida em caso de falhas ou incidentes de segurança. Estes centros tornam possível a expansão de serviços digitais, a realização de cópias de segurança e a manutenção da infraestrutura tecnológica que suporta a internet e, no fundo, toda a economia digital.
No caso da inteligência artificial, são também os locais onde se treinam os grandes modelos de linguagem, que permitem funcionar plataformas como o ChatGPT, Gemini e Claude.
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Como é que o Governo pretende atrair mais 'data centers'?
O Governo apresentou em março o Plano Nacional de Centros de Dados, que contempla várias ações para facilitar e atrair mais data centers para o território nacional.
O Executivo estima que a procura por centros de dados está a registar um crescimento anual de 41% no país, cerca do dobro da média europeia, enquanto os mercados tradicionais enfrentam limitações que poderão canalizar investimento para novas geografias, sendo por isso necessárias medidas concretas para o setor.
Por cada gigawatt (GW) adicional de capacidade instalada, o Governo prevê ainda um investimento inicial que poderá atingir os oito mil milhões de euros nos próximos cinco anos.
O plano do Governo assenta assim em quatro eixos estratégicos, com o objetivo de transformar Portugal num hub europeu de centros de dados.
- Regulação e governação: prevê-se a simplificação e coordenação dos processos para investidores, reforçando o papel da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) como ponto único de contacto, revendo os processos de licenciamento, monitorizando continuamente os procedimentos e harmonizando critérios entre as entidades envolvidas, com reforço técnico para assegurar maior eficiência e segurança jurídica.
- Energia e infraestrutura: o plano prevê a identificação e desenvolvimento de zonas pré-instaladas, a integração com a rede elétrica e fontes renováveis, a promoção da eficiência energética e o reforço da cadeia de valor nacional, garantindo que os centros de dados se desenvolvam de forma sustentável e alinhada com os recursos do país.
- Procura e posicionamento: Portugal pretende centralizar a procura pública através de um plano nacional de cloud soberana, reforçar a atração de investimento internacional e criar um ponto único de informação para investidores.
- Território e ecossistema: este eixo contempla a integração de benefícios para as comunidades locais, o desenvolvimento de hubs tecnológicos e académicos e a salvaguarda do uso futuro das infraestruturas, garantindo que a expansão dos centros de dados traga retorno económico e social às regiões envolvidas.
Proxima Pergunta: Quem vai coordenar o plano?
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Quem vai coordenar o plano?
A Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) será a entidade responsável por liderar o processo, funcionando como ponto único de contacto para os investidores.
A agência irá ainda acompanhar de forma contínua os projetos, com o objetivo de garantir coerência na atuação do Estado e reforçar confiança dos investidores dos projetos.
Já as entidades envolvidas nos processos de licenciamento, como a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), terão como missão rever e simplificar os procedimentos aplicáveis aos projetos de centros de dados.
Este é um ponto particularmente sensível no contexto das preocupações com a sustentabilidade ambiental associada a este tipo de infraestruturas. O objetivo passa por tornar os processos mais rápidos e eficientes, com maior racionalização e cumprimento de prazos máximos de decisão.
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Quem vai acompanhar a execução do plano?
Em paralelo, o Governo anunciou a criação da Rede de Sistemas e Tecnologias do Estado, para acelerar e coordenar a digitalização da Administração Pública. Será esta rede a acompanhar e monitorização de todas as medidas e ações descritas no novo plano do Executivo.
Num diploma publicado no dia 13 de abril, em Diário da República, lê-se que “A Rede de Simplificação e Tecnologias do Estado tem como missão apoiar e propor as medidas ao membro do Governo responsável pela área da reforma do Estado definidas para a Administração Pública, assegurando o desenvolvimento e plena implementação de serviços públicos digitais e a gestão transversal e unificada da modernização dos sistemas, aplicações e ferramentas tecnológicas do Estado”.
A Rede de Simplificação e Tecnologias do Estado será organizada em três níveis: liderança política, comissão executiva e grupos técnicos. A liderança definirá prioridades e validará decisões estratégicas, a comissão executiva coordenará a implementação das medidas e os grupos técnicos asseguram a execução da Estratégia Digital Nacional no terreno.
No centro do modelo estará a Comissão de Coordenação para a Estratégia Digital, presidida pelo CTO do Estado, Manuel Dias, que funcionará como principal órgão de coordenação e decisão. Esta estrutura irá alinhar investimentos tecnológicos, promover soluções comuns entre organismos públicos, reforçar a interoperabilidade e acompanhar a arquitetura tecnológica do Estado, incluindo áreas como inteligência artificial e cloud.
O novo modelo substitui o anterior Conselho para o Digital na Administração Pública, sendo apresentado pelo Governo como um reforço da capacidade de coordenação e decisão, com maior articulação entre a definição política e a execução técnica.
A rede ficará sob tutela do ministro da Reforma do Estado, garantindo uma liderança política centralizada e a articulação entre os vários organismos públicos ligados à transformação digital.
Proxima Pergunta: Existe algum prazo para a conclusão desta política?
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Existe algum prazo para a conclusão desta política?
O Governo aponta o período entre 2026 e 2027 como “crítico”, por concentrar decisões de investimento estruturantes por parte dos principais operadores internacionais.
Neste período curto e ambicioso, o Governo pretende, para além de transformar Portugal num hub europeu de centros de dados, garantir a soberania digital, a atração de investimento estrangeiro e a sustentabilidade ambiental e energética.
O Governo não define, no entanto, um prazo único de conclusão dos investimentos, uma vez que estes dependerão das decisões dos operadores privados e do ritmo de execução dos projetos.
Proxima Pergunta: A captação de uma gigafábrica de IA está inserida neste plano?
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A captação de uma gigafábrica de IA está inserida neste plano?
A candidatura ibérica a uma das cinco gigafábrica de inteligência artificial (IA) que a Comissão Europeia quer apoiar poderá contribuir para a concretização dos objetivos do Plano Nacional de Centros de Dados, através da captação de financiamento europeu para infraestruturas estratégicas de computação, posicionando Portugal na “vanguarda da infraestrutura digital na Europa”.
O plano pretende criar condições para a rápida concretização destes projetos, reduzindo os tempos de decisão.
De acordo com o Governo, ao “melhorar as condições infraestruturais, energéticas e regulatórias para projetos desta escala, o plano reforça também a solidez técnica da candidatura portuguesa à gigafactory”.
Importa lembrar que Portugal e Espanha assinaram, em março, no âmbito da 36.ª Cimeira Luso-Espanhola, uma declaração conjunta com a intenção de apresentar uma candidatura à Comissão Europeia para o desenvolvimento de uma gigafábrica de inteligência artificial.
Está prevista a instalação de infraestruturas em ambos os países, num investimento que pode atingir os oito mil milhões de euros. Em Portugal, Sines deverá ser a localização escolhida para acolher parte destas infraestruturas.
Proxima Pergunta: Há energia suficiente para suportar todos os 'data centers'?
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Há energia suficiente para suportar todos os 'data centers'?
Portugal é um país com boas condições para a produção de eletricidade, com forte potencial em energia eólica, solar e marítima. No entanto, os centros de dados são infraestruturas altamente intensivas em consumo energético, o que coloca desafios adicionais ao sistema elétrico nacional.
Este crescimento implica não só maior capacidade de produção, mas também um reforço significativo da rede elétrica, de forma a garantir estabilidade, fiabilidade e resposta à procura. A integração de novos projetos deste tipo exige também investimentos em infraestruturas de transporte e distribuição de energia.
Por outro lado, será necessário assegurar que este aumento de consumo energético é compatível com os objetivos de transição energética e descarbonização. Isso implica uma maior aposta em fontes renováveis e em soluções de eficiência energética, de forma a evitar pressão excessiva sobre o sistema.
Neste contexto, a expansão dos centros de dados em Portugal depende diretamente da capacidade do país em reforçar a sua infraestrutura energética, equilibrando atração de investimento com sustentabilidade e segurança do abastecimento.
Proxima Pergunta: Quantos empregos podem ser criados com os novos 'data centers'?
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Quantos empregos podem ser criados com os novos 'data centers'?
O Governo aponta para a criação de cerca de 3.300 empregos diretos na fase de operação dos novos centros de dados que venham para o país. Trata-se de um número considerado ambicioso e que fica acima de estimativas anteriores, que apontavam para cerca de 2.000 empregos em 2025, segundo a Associação Portuguesa de Data Centers.
No entanto, não existe uma data concreta definida para a criação total destes postos de trabalho, uma vez que estes dependerão do ritmo de implementação dos projetos e das decisões de investimento dos operadores.
Desta forma, os efeitos no emprego serão graduais e distribuídos ao longo do tempo, acompanhando a entrada em funcionamento faseada dos diferentes centros de dados previstos no país.
Proxima Pergunta: Que novos 'data centers' já estão na calha para avançarem?
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Que novos 'data centers' já estão na calha para avançarem?
Em Portugal, estão em desenvolvimento vários projetos de centros de dados de grande escala, com destaque para o polo de Sines, liderado pela Start Campus.
A empresa vai avançar com a construção do segundo edifício do seu campus (SIN02), cuja conclusão está prevista para 2027. No total, o projeto prevê um investimento que pode atingir cerca de dez mil milhões de euros ao longo de vários anos, estando prevista uma expansão faseada da capacidade instalada.
Também em Abrantes, e apesar de existir até agora pouca informação, está a ser planeada a construção de um centro de dados em três fases, para eventualmente entrar em funcionamento no segundo trimestre de 2028, segundo avançou em setembro ao ECO o sócio da empresa por detrás do projeto, a EDC One, detalhando que o investimento deverá totalizar sete mil milhões de euros. A primeira fase prevê uma capacidade de 300 MW, com expansão progressiva até aos 800 MW no final do projeto.
Na região de Lisboa, destaca-se o projeto da AtlasEdge, que inaugurou em outubro o seu primeiro data center, em Carnaxide, e já anunciou uma expansão em várias fases, com a construção de novas unidades no mesmo campus. No total, o projeto prevê uma capacidade instalada superior a 30 MW e um investimento de várias centenas de milhões de euros.
Ademais, neste mês de abril, a AWS, subsidiária da Amazon, inaugurou a sua “Local Zone” em Portugal, que funciona como uma extensão da sua “nuvem soberana europeia”.
Proxima Pergunta: Como é que o setor vê o plano do Governo?
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Como é que o setor vê o plano do Governo?
Fundamentalmente, as empresas e organizações do setor dos data centers olham para o novo plano do Governo com bons olhos. Mas alertam que o “mais difícil é executar” as medidas.
Ao ECO, Luís Pedro Duarte, presidente da associação Portugal DC, disse que demonstra “um empenho do Governo em ter foco nesta matéria e em reunir esforços para que Portugal consiga aproveitar a janela de oportunidade”. Admitiu, porém, que é “curto em termos de tempo”.
Carlos Paulino, líder da Equinix em Portugal, disse que o plano “é muito bem-vindo”, mas advertiu que é essencial “conseguir que a lei produza os efeitos que pretende”.
Luís Rodrigues, COO da Start Campus, afirma também que “se o plano não sair do papel, não funcionará”. O responsável acrescentou ainda que “se um processo demora dois anos, que demore dois anos”. “O importante é saber quanto tempo demora”, reiterou.
Do lado do imobiliário, que se correlaciona fortemente com esta indústria, Maria da Cunha e Menezes, Head of Project and Development Services da JLL Portugal, comentou, sobre a pré-identificação de terrenos prevista no plano, que “o risco ambiental destes terrenos também é muito importante”.