“É a próxima.” Quais são os planos de Donald Trump para Cuba?
Enquanto os EUA bombardeiam o Irão, Trump já tem um olho em Cuba, nação que descreve como “falhada”. Com o bloqueio petrolífero a ‘estrangular’ a economia cubana, saiba aqui o que está em causa.
“É a próxima.” Quais são os planos de Donald Trump para Cuba?
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O que é que Trump tem dito sobre uma eventual intervenção?
As críticas do Presidente americano ao regime cubano já vêm desde o seu primeiro mandato na Casa Branca, entre 2017 e 2021. Trump, nessa altura, afirmava que os EUA não iriam mais ficar em silêncio face à “opressão comunista”, urgindo o regime criado pela revolução liderada por Fidel Castro em 1959 a “pôr fim aos abusos”.
O republicano criticou e desmantelou a abertura nas relações entre os dois países promovida pelo seu antecessor, Barack Obama, após décadas de tensão. Em março de 2017, num discurso em Miami, na Florida — onde reside a maioria dos exilados cubanos –, Trump disse que o reatar diplomático com vista a persuadir (em vez de pressionar) Havana a melhorar os direitos humanos falhou, pois era um acordo unilateral que só beneficiou o governo cubano.
Nessa altura, a abordagem era mais de retórica e pressão (por exemplo via sanções), mas Trump chegou a dizer que “um dia em breve, Cuba irá ser livre”. De regresso ao poder no ano passado, tem sido mais intervencionista. Depois da iniciativa militar para remover Nicolás Maduro da Presidência venezuelana (e do país), Trump ainda visou comprar ou conquistar a Gronelândia, mas acabou por recuar face à oposição dos aliados europeus. Sem perder muito tempo atacou, a 28 de fevereiro e em parceria com Israel, o Irão para impedir a república islâmica de se equipar com armas nucleares.
O desfecho dessa missão é ainda difícil de prever, mas Trump já tem a seguinte alinhada. “Cuba vai ser a próxima”, disse numa conferência esta sexta-feira, também em Miami. “Mas finjam que eu não disse isso, finjam que eu não disse”, ironizou.
Apesar de ser mais taxativo do que no primeiro mandato, Trump tem criado suspense sobre como pretende agir em relação à ilha que fica a cerca de 145 quilómetros a sudeste dos EUA. A 16 de março, na Sala Oval, o presidente americano disse: “Eu acredito que terei… a honra de tomar Cuba, isso é uma grande honra”. Sem acrescentar detalhes, disse que vai “tomar Cuba de alguma forma, quer dizer, seja libertando-a, seja tomando-a, acho que posso fazer o que quiser com ela”.
Proxima Pergunta: O que é o bloqueio marítimo dos EUA à ilha?
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O que é o bloqueio marítimo dos EUA à ilha?
A notícia foi avançada pelo Politico a 23 de janeiro: os EUA estavam a considerar um bloqueio total de importações de petróleo para Cuba. Quatro dias a seguir, Trump deu mais sinais, dizendo que “Cuba vai falhar muito em breve”. Entusiasmado pela destituição de Maduro, recordou que os cubanos “recebiam dinheiro da Venezuela, recebiam petróleo da Venezuela e já não estão a receber isso”. A 30 de janeiro a Casa Branca acabaria por confirmar um decreto executivo que impõe tarifas aos países que fornecerem petróleo a Cuba. O México foi o primeiro país a suspender as remessas de crude para a ilha caribenha.
A ordem executiva assinada por Trump — com base jurídica de que a ameaça extraordinária que Cuba representa para os EUA é uma emergência nacional — determina que é necessário um sistema tarifário “com uma taxa adicional ad valorem que pode ser imposta sobre as importações de mercadorias que sejam produtos de um país estrangeiro que, direta ou indiretamente, venda ou forneça petróleo a Cuba”.
O bloqueio é de facto económico e não militar, ou seja, não há navios da marinha americana posicionados estrategicamente para impedir o acesso de petroleiros a Cuba.
Após quase um mês de ‘estrangulação’ do crude para a ilha, Trump, a 30 de março, sinalizou uma reversão da sua posição, ao afirmar que “não tinha problema” com qualquer país que enviasse petróleo, nem com permitir que um navio-tanque russo se aproximasse de um porto cubano com uma carga essencial. “Se um país quiser enviar petróleo para Cuba agora, não tenho problema nenhum com isso, seja a Rússia ou não”, disse Trump.
Cuba está acabada, afirmou. “Têm uma liderança muito má e corrupta, e se eles receberem ou não um navio de petróleo, não vai fazer diferença”, disse Trump. “Prefiro deixar entrar, seja da Rússia ou de qualquer outro país, porque as pessoas precisam de aquecimento, refrigeração e todas as outras coisas necessárias”.
Proxima Pergunta: Que consequências é que o bloqueio está a causar?
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Que consequências é que o bloqueio está a causar?
“Não tem de ser uma crise humanitária”, disse Trump, quando ordenou o bloqueio. Mas o corte de fornecimento de crude da Venezuela – que em 2025 foi a maior fonte – e o bloqueio de outras alternativas paralisou a economia cubana e a danificou o funcionamento da rede elétrica, dos serviços de saúde, do transporte público e da agricultura, que já estavam em péssimas condições.
Logo nos primeiros dias do bloqueio, o Governo cubano detalhou um amplo plano para proteger serviços essenciais e racionar combustível, de forma a garantir o fornecimento de combustível para setores-chave, incluindo produção agrícola, educação, abastecimento de água, saúde e defesa.
O Governo rapidamente avisou as companhias aéreas internacionais que a ilha não tinha mais combustível de aviação (jet fuel), com várias companhias a interromperem as rotas e a Rússia a evacuar cerca de 4.000 turistas. A gigante hoteleira NH fechou todos os hotéis em Cuba, e a rede espanhola Meliá, a maior na ilha, encerrou três de 30 hotéis passou a concentrar os turistas nas unidades mais bem equipadas. Cuba atraiu apenas 1,8 milhão de visitantes em 2025, uma queda em relação aos 2,2 milhões do ano anterior, e o menor número em mais de duas décadas.
Com a ilha afetada por prolongados apagões, os cubanos instalaram painéis solares nas casas, lojas e veículos. Mas a rede elétrica nacional acabou por entrar em colapso a 16 de março, deixando os cerca de dez milhões de cubanos sem energia durante quase 30 horas. Na capital, Havana, a combinação da escassez de combustível e da instabilidade da rede elétrica deixou milhares de casas sem água.
Proxima Pergunta: Como é que o Governo cubano tem reagido?
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Como é que o Governo cubano tem reagido?
Com indignação, improvisação e alguma diplomacia. O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, reagiu de forma acesa à ordem executiva de Trump: “Esta nova medida demonstra a natureza fascista, criminosa e genocida de uma camarilha que sequestrou os interesses do povo americano para obter ganhos puramente pessoais.”
“Todas as esferas da vida serão sufocadas”, alertou o Governo, com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Bruno Rodriguez, a acusar os Estados Unidos de recorrerem “à chantagem e à coerção para tentar levar outros países a aderirem à sua política de bloqueio contra Cuba, universalmente condenada, em violação de todas as regras do livre comércio”.
Quanto ao bloqueio, o Governo de Diaz-Canel, que sucedeu a Raúl Castro no cargo em 2018, tem tentado gerir os danos através do racionamento de combustíveis, do aumento da produção e refinação local de crude, de planos de contingência para lidar com a escassez e do impulsionar da geração de energia solar.
Num país em que a liberdade de manifestação tem sido reprimida pelo regime comunista há décadas, os cubanos têm evitado organizar protestos de rua. Nas reportagens publicadas pelas agências de notícias internacionais, transparece uma vontade geral de que a situação se resolva com diálogo — e não guerra –, mas com a esperança limitada pela desconfiança que os cubanos sentem em relação aos americanos, e em especial Donald Trump.
Essa ambivalência está também presente na postura do Governo. A par da condenação das ações americanas, os líderes cubanos têm mostrado alguma abertura ao diálogo, embora mantendo sempre a manutenção da soberania como condição principal. O ministro dos Negócios Estrangeiros Bruno Rodriguez disse a 21 de março que Havana estaria aberta a “um diálogo sério e responsável” com os EUA, mas enfatizou que isso ocorreria sem “interferência em assuntos internos”.
Proxima Pergunta: Quais têm sido as posições de outros países?
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Quais têm sido as posições de outros países?
A Rússia, velha aliada de Cuba desde os tempos da União Soviética, tem estado, sem surpresas, na linha da frente a criticar as ações dos EUA. “A situação em Cuba é de facto crítica”, afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, a 9 de fevereiro. “As táticas sufocantes empregadas pelos Estados Unidos estão a causar muitas dificuldades para o país e estamos a discutir com os nossos amigos cubanos possíveis maneiras de resolver esses problemas, ou pelo menos de fornecer toda a assistência possível.”
O Presidente russo Vladimir Putin também criticou as sanções americanas, com a Rússia a insistir nas tentativas de enviar petróleo para Cuba, através de conversações com a equipa de Trump. Atingiu esse objetivo no final do mês passado, com o petroleiro Anatoly Kolodkin a descarregar 700 mil barris no terminal de Matanzas na terça-feira.
Pequim também tem demonstrado apoio a Havana, embora de forma menos efusiva que Moscovo. O ministro dos Negócios Estrangeiros Wang Yi disse, durante uma reunião como o homólogo cubano, que a China apoia a soberania e a segurança de Cuba.
Na região da América Latina, o México tem sido o país mais vocal. A Presidente, Claudia Sheinbaum, afirmou na segunda-feira que o seu país tem todo o direito de enviar combustível a Cuba, seja por razões humanitárias ou comerciais. O governo mexicano “sempre procura [enviar] ajuda humanitária, e é nesse contexto que tomaremos a decisão”.
O Presidente brasileiro Lula da Silva também condenou o bloqueio, mas na Argentina, o governo de Javier Milei alinhou-se com o de Trump, dizendo que Cuba passará por uma transição política até meados deste ano. Para o governo argentino, o bloqueio não é o problema, mas sim uma ferramenta legítima de pressão contra o que classifica como a “ditadura” da ilha.