O que é a estagflação e porque volta a preocupar a economia global?
- André Veríssimo
- 10 Março 2026
A forte subida do preço do petróleo e do gás natural trouxe de volta os receios de uma estagflação. Uma ‘doença’ económica que combina o pior de dois mundos: inflação e quebra da economia.
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O que é a estagflação?
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Porque se volta a falar em estagflação?
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Os preços já estão a subir?
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Há outras matérias-primas com aumento dos preços?
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Como está agora a inflação?
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Qual o risco de uma estagflação?
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As taxas de juro podem subir?
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Quais as diferenças face à crise energética que se seguiu à invasão russa da Ucrânia?
O que é a estagflação e porque volta a preocupar a economia global?
- André Veríssimo
- 10 Março 2026
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O que é a estagflação?
A estagflação caracteriza-se por um período persistente de inflação mais elevada, acompanhado por estagnação da economia ou mesmo recessão, e crescimento do desemprego. O termo foi cunhado em 1965 pelo político britânico Iain Macleod, deputado do Partido Conservador, durante um discurso onde criticou as políticas económicas do rival Partido Trabalhista.
O termo popularizou-se nos anos 70, depois dos países da OPEP terem imposto um embargo à venda de petróleo, em reação à guerra Israelo-Árabe, fazendo disparar a cotação da matéria-prima e a inflação. O período de estagflação prolongou-se até aos primeiros anos da década de 80 devido à revolução iraniana de 1979.
Proxima Pergunta: Porque se volta a falar em estagflação?
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Porque se volta a falar em estagflação?
O ataque dos EUA e Israel ao Irão, e a resposta deste último contra os países da região, fez disparar o preço dos bens energéticos. Os países do Golfo Pérsico são responsáveis pela produção de cerca de um terço do petróleo consumido a nível global e 20% do gás natural, mas o impacto resulta sobretudo do encerramento do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, por onde é transportado um quinto daquelas matérias-primas energéticas.
O Brent, que serve de referência para a Europa, chegou a valer perto de 120 dólares por barril na segunda-feira, tendo entretanto recuado para a casa dos 90 dólares depois do Presidente dos EUA, Donald Trump, afirmar que o conflito com o Irão irá terminar “muito em breve”.
A cotação continua, ainda assim, muito acima do nível a que estava antes do início dos ataques (73 dólares por barril) ou do preço médio do ano passado (69 dólares).
O preço do gás natural, que influencia os preços da eletricidade, também disparou na Europa para máximos de fevereiro de 2025. Apesar de alguma correção, mantém-se 65% mais alto do que antes do ataque.
Esta apreciação acelerada do preço dos bens energéticos trouxe de volta os receios de uma estagflação.
Proxima Pergunta: Os preços já estão a subir?
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Os preços já estão a subir?
Alguns preços já estão a subir e Portugal é disso um exemplo. Desde o início da semana que o diesel está 19 cêntimos mais caro e a gasolina 7,4 cêntimos.
Os preços grossistas da eletricidade também dispararam, afetando os clientes industriais que usam este mercado. As previsões de preços em Portugal para o dia 10 de março apontavam na segunda-feira para um custo médio da eletricidade grossista de 131,43 euros por MWh, muito acima dos 21,10 euros que se registavam antes de estalar o conflito.
Este custo mais elevado da energia é refletido pelas empresas nos produtos e serviços, sobretudo se for persistente.
Proxima Pergunta: Há outras matérias-primas com aumento dos preços?
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Há outras matérias-primas com aumento dos preços?
O impacto não se limita aos combustíveis. O gás natural é essencial para a produção de fertilizantes, onde o Golfo Pérsico tem um peso considerável. Segundo o Wall Street Journal, o Médio Oriente e o Norte de África são responsáveis por perto de metade do comércio mundial de ureia, um dos fertilizantes mais comuns, sendo que boa parte é transportado através do Estreito de Ormuz.
A cotação da ureia sobe 70% desde o início do ano para os 584 dólares por tonelada, segundo dados da Trading Economics. Os preços da amónia e do potássio também sobem, embora menos.
Estes aumentos vêm agravar a subida de 18% no custo dos fertilizantes em 2025. O Banco Mundial previa, num relatório divulgado este mês, um alívio de 5% no preço médio este ano. Projeção que poderá ficar comprometida.
Proxima Pergunta: Como está agora a inflação?
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Como está agora a inflação?
A evolução dos preços tem sido bastante contida nos últimos dois anos. A taxa de variação homóloga do índice de preços na Zona Euro fixou-se em 1,9% em fevereiro, duas décimas acima do valor registado em janeiro, mas dentro da janela ótima do Banco Central Europeu. Um nível muito inferior aos 10,6% registados em outubro de 2022. Em Portugal, a taxa foi de 2,1% em fevereiro.
Proxima Pergunta: Qual o risco de uma estagflação?
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Qual o risco de uma estagflação?
Um relatório divulgado esta semana pelo banco de investimento alemão Berenberg traça dois cenários possíveis. Num mais benigno, o fim do conflito permite retomar as exportações de petróleo e gás natural no espaço de semanas, levando as cotações a regressar ao nível anterior ao conflito durante o verão.
Já um “conflito prolongado em que o Irão mantém a capacidade para atacar navios e infraestruturas de energia com drones pode encerrar o Estreito de Ormuz durante muito mais tempo”. Neste cenário, que assume um bloqueio de seis meses, os preços do petróleo e do gás manter-se-iam elevados, em redor dos 120 dólares por barril no primeiro caso e dos 90 euros por MWh no segundo.
“A incerteza elevada, os altos custos da energia para as empresas e a diminuição do poder de compra dos consumidores fariam com que o crescimento estagnasse no segundo e no terceiro trimestre de 2026, com risco de uma ligeira contração. O dinamismo económico manter-se-ia também significativamente enfraquecido nos trimestres seguintes”, prevê o Berenberg, antecipando um cenário de estagflação. A variação do índice de preços chegaria aos 4% ainda este ano.
Este não é, no entanto, o cenário central do banco de investimento, que prevê um conflito de curta duração.
Proxima Pergunta: As taxas de juro podem subir?
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As taxas de juro podem subir?
Uma estagflação coloca os bancos centrais perante um dilema. Se sobem os juros para travar a inflação arriscam afundar a economia. Se não sobem, podem perder o controlo sobre os preços.
A Bloomberg noticiou na segunda-feira que os investidores aumentaram as apostas numa subida das taxas de referência pelo Banco Central Europeu, com os contratos financeiros (swaps) a atribuírem uma probabilidade de 70% ao cenário de dois aumentos de 25 pontos base.
A Euribor a 3 meses, um dos indexantes do crédito à habitação, regista uma subida desde o início do conflito, de 2,013% para 2,078%. Tal como a Euribor a 6 meses, que sobe de 2,128% para 2,178%.
Os economistas do Berenberg têm uma visão diferente. “A estagflação colocaria o BCE numa situação difícil. Embora a inflação elevada e o risco de aumento das expectativas de inflação exigissem uma política monetária mais restritiva, o BCE seria relutante em subir as taxas de juro enquanto a economia estivesse estagnada”, consideram. Mesmo num cenário adverso, “o BCE provavelmente manteria a taxa de depósito em 2%”.
Proxima Pergunta: Quais as diferenças face à crise energética que se seguiu à invasão russa da Ucrânia?
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Quais as diferenças face à crise energética que se seguiu à invasão russa da Ucrânia?
À data da invasão russa da Ucrânia, o país de Vladimir Putin fornecia cerca de 40% do gás natural consumido na Europa. A quase interrupção do fornecimento levou o preço da matéria-prima para mais de 330 euros por MWh, quase sete vezes mais do que a cotação atual.
Como o preço do gás natural tem uma influência determinante sobre o preço da eletricidade, também esta ficou significativamente mais cara. O petróleo também disparou e chegou aos 120 dólares. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia provocou ainda a disrupção de várias cadeias de abastecimento, incluindo fertilizantes e cereais.
A subida da inflação foi ainda ampliada pelo crescimento rápido da procura das famílias no pós-pandemia, a um ritmo superior à oferta, o que acelerou o aumento dos preços na Zona Euro nos últimos meses de 2022, quando a inflação superou os 10%.
Desta vez, o impacto da disrupção no fornecimento do petróleo e gás natural é mais acentuado na Ásia. Cerca de 89% da matéria-prima que atravessa o Estreito de Ormuz vai para a China, Índia, Coreia do Sul, Japão e outros países asiáticos. A maior parte do gás natural (75%) também tem como destino a Ásia,
A Europa é afetada, mas não de forma tão direta e intensa como na invasão russa da Ucrânia.