O que está a causar tensão entre os EUA e a Venezuela?
- Patrícia Abreu
- 18 Dezembro 2025
EUA anunciaram "bloqueio total" aos petroleiros venezuelanos e Trump não descarta intervenção terrestre no país, que passou a classificar como "estado terrorista". O que está a causar esta tensão?
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De que acusa Donald Trump a Venezuela?
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O que é que Washington já fez para aumentar a pressão sobre Caracas?
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Qual é o peso da Venezuela na produção de petróleo global?
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Qual o impacto desta situação na economia e nos mercados?
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O que defende a Venezuela?
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Como tem reagido Portugal e a UE?
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Quais poderão ser os próximos passos?
O que está a causar tensão entre os EUA e a Venezuela?
- Patrícia Abreu
- 18 Dezembro 2025
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De que acusa Donald Trump a Venezuela?
Donald Trump tem vindo a apertar o cerco ao regime de Nicolás Maduro desde que regressou à Casa Branca. O presidente dos EUA acusa a Venezuela de gerir uma rede de narcotráfico, que facilita a entrada de droga nos EUA e mais recentemente passou a classificar o país como “estado terrorista”. Reeleito presidente numas eleições no ano passado, que foram alvo de muita contestação internacional, Maduro é acusado por Trump de utilizar o petróleo para “se financiar a si próprio, ao tráfico de droga, ao tráfico humano, a assassinatos e raptos” e de forçar milhões de venezuelanos a migrarem para os EUA.
“A América não vai permitir que criminosos, terroristas ou outros países que roubem, ameacem e magoem o nosso país, assim como não vai permitir que um regime hostil leve o nosso petróleo, território ou quaisquer outros bens”, disse Trump na sua rede social.
Entretanto, o regime venezuelano defende-se, considerando o cerco de Trump como uma “ameaça grotesca”, reiterando que o objetivo de Washington é “roubar as riquezas” venezuelanas.
O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, “pretende impor de forma absolutamente irracional um suposto bloqueio militar naval” com o objetivo de “roubar as riquezas” venezuelanas
Proxima Pergunta: O que é que Washington já fez para aumentar a pressão sobre Caracas?
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O que é que Washington já fez para aumentar a pressão sobre Caracas?
Os EUA têm vindo a intensificar uma operação militar nas águas internacionais do mar das Caraíbas, sob o pretexto de combater as organizações de narcotráfico que operam na região. Esta ação envolveu a deslocação, em outubro, do maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald R. Ford, com cerca de 5.000 militares a bordo e 75 aviões de combate, incluindo caças F-18, com uma escolta de cinco contratorpedeiros, que se juntou a outros navios na região.
Esta presença tem-se traduzido numa intervenção, com ataques a várias embarcações, que já resultaram em mais de 90 mortes, alegadamente ligados ao narcotráfico nas Caraíbas e no Pacífico oriental. Na semana passada, as forças americanas apreenderam em águas internacionais o petroleiro Skipper, que transportava petróleo venezuelano e, esta terça-feira, Trump intensificou o cerco ao petróleo venezuelano, com o “bloqueio total” aos petroleiros sancionados que entram e saem da Venezuela.
“Hoje, estou a ordenar um bloqueio total e completo de todos os petroleiros sancionados que entram e saem da Venezuela”. Esta foi a declaração feita por Donald Trump na sua rede social Truth Social, esta quarta-feira, para justificar este bloqueio, que marca uma nova escalada nas tensões. “A Venezuela está completamente cercada pela maior armada alguma vez reunida na história da América do Sul. Ela só tende a crescer, e o choque para eles será algo sem precedentes — até que devolvam aos Estados Unidos da América todo o petróleo, terras e outros bens que nos roubaram”, frisou.
Proxima Pergunta: Qual é o peso da Venezuela na produção de petróleo global?
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Qual é o peso da Venezuela na produção de petróleo global?
A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo, mas é apenas responsável por cerca de 0,8% da produção mundial devido às dificuldades na economia e na sua petrolífera estatal.
O país exporta cerca de 900 mil barris de petróleo por dia, que têm como destino sobretudo a China, um número que compara com os quase 22 milhões de barris produzidos pelos EUA. Apesar da exportação de ouro negro venezuelano estar muito abaixo da sua capacidade, o petróleo é a principal fonte de receitas do país, com os lucros do setor a financiarem mais da metade do orçamento do governo.
Proxima Pergunta: Qual o impacto desta situação na economia e nos mercados?
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Qual o impacto desta situação na economia e nos mercados?
O principal impacto está a ser sentido no mercado petrolífero, devido aos receios de uma disrupção na oferta. O anúncio do bloqueio impulsionou uma recuperação dos preços da matéria-prima, levando o Brent a negociar próximo dos 60 dólares por barril na tarde de quarta-feira, depois de ter baixado esta fasquia pela primeira vez desde 2021, no início da semana. Quanto à economia, o maior impacto deverá ser sentido pela economia venezuelana, devido à dependência das receitas geradas pelo petróleo.
Outro setor que está a ser afetado pelas tensões entre Washington e Caracas é a aviação. A portuguesa TAP cancelou os seus voos para Caracas em novembro, depois de o regulador norte-americano da aviação (FAA, na sigla em inglês) ter emitido um alerta para as companhias aéreas que operam no espaço aéreo venezuelano, apontando para os perigos associados à atividade militar na região, um aviso reiterado esta quarta-feira.
Além da companhia portuguesa, outras, como a Air Europa, Iberia, ou a Plus Ultra (Espanha), mantêm as suas operações suspensas e não têm concessão de voos na Venezuela por ordem do Instituto Nacional de Aeronáutica Civil (INAC) do país.
Proxima Pergunta: O que defende a Venezuela?
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O que defende a Venezuela?
O regime venezuelano tem-se tentado defender das acusações norte-americanas, argumentando que os EUA querem “roubar as riquezas” venezuelanas. O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, “pretende impor de forma absolutamente irracional um suposto bloqueio militar naval” com o objetivo de “roubar as riquezas” venezuelanas, afirmou o Governo do Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, através de um comunicado.
O Governo de Maduro considera que a decisão de Trump viola “o direito internacional, o livre comércio e a livre navegação”, o que classificou como “ameaça temerária e grave”.
Caracas acrescenta que a “verdadeira intenção” do Presidente norte-americano “sempre foi apropriar-se do petróleo, das terras e dos minerais do país por meio de gigantescas campanhas de mentiras e manipulações”, uma acusação que vem a repetir há semanas.
Proxima Pergunta: Como tem reagido Portugal e a UE?
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Como tem reagido Portugal e a UE?
O ministro dos Negócios Estrangeiros português considera que não há motivos para alarme em relação à situação na Venezuela. “O que nós apelamos, juntamente com a Espanha, com a Itália, com a União Europeia, é que haja uma solução pacífica, dialogada desta situação de tensão que se vive agora naquele país, que é um país que tanto diz a Portugal”, disse o ministro, na semana passada. Já esta semana, Paulo Rangel reiterou que Paulo Rangel não foi detetada nenhuma “situação de alarme” na Venezuela, nem registado qualquer pedido de portugueses alarmados com a situação naquele país.
O chefe da diplomacia português referiu que, apesar da suspensão dos voos da TAP de e para a Venezuela, após um alerta dos Estados Unidos, e por razões de segurança, “ainda é possível, por várias vias, sair” do país da América do Sul.
Quanto à UE, a região prolongou esta segunda-feira por mais um ano, até janeiro de 2027, as sanções impostas à Venezuela, tendo em conta a situação no país, acusando o regime de continuar a agir contra a democracia e o Estado de direito, mesmo após as eleições presidenciais de 2024, que Bruxelas não reconhece.
Proxima Pergunta: Quais poderão ser os próximos passos?
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Quais poderão ser os próximos passos?
Donald Trump tem sido claro: Está pronto para um conflito armado terrestre. Em conferência de imprensa no início do mês, o presidente dos EUA anunciou para “breve” ataques em terra a alvos na Venezuela ligados ao narcotráfico e avisa que esta operação pode ser extensível a qualquer país que trafique estupefacientes para os EUA. “É muito mais fácil por terra, sabemos onde vivem os maus e é isso que vamos fazer”, disse o presidente norte-americano, após uma reunião do gabinete na Casa Branca.
Tudo indica que Washington está determinado em forçar uma mudança de regime no país, através da queda de Nicolas Maduro, já classificado como parte da organização “terrorista” Cartel of the Suns e com a cabeça a um prémio de 50 milhões de dólares.
Na semana passada, María Corina Machado, galardoada com o Prémio Nobel da Paz e opositora de Maduro, conseguiu sair da Venezuela com a ajuda dos EUA para participar na cerimónia de entrega dos prémios Nobel.