O que são e quem as paga? Um guia para as Gigafábricas de IA
- Flávio Nunes
- 4 Maio 2026
Portugal e Espanha uniram-se numa candidatura ibérica para tentar captar uma das cinco Gigafábricas de IA que a Comissão Europeia quer apoiar. Mas para que servem, afinal, estas infraestruturas?
O que são e quem as paga? Um guia para as Gigafábricas de IA
- Flávio Nunes
- 4 Maio 2026
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O que é e para que serve uma Gigafábrica de IA?

Leonor Gonçalves/ECO “Gigafábrica” foi o nome escolhido pela Comissão Europeia para designar um enorme centro de dados pensado para a inteligência artificial (IA).
A Comissão Europeia define uma Gigafábrica de IA como um centro de dados que alberga mais de 100 mil processadores altamente avançados.
Infraestruturas deste tipo permitem treinar modelos avançados de IA. Mas também podem ser usadas na chamada “inferência” — o uso dos próprios modelos para as suas respetivas finalidades, desde a geração de um simples texto a outras mais complexas, como a procura por novos medicamentos.
No caso das Gigafábricas de IA, o objetivo é disponibilizar elevadas capacidades de computação a entidades que não teriam capacidade financeira suficiente para investir diretamente em supercomputação.
Assim, este tipo de instalações poderá ser usado pelas empresas, governos e academia para treinar novos modelos de IA contendo biliões de parâmetros. Como se fosse uma grande fábrica de inteligência artificial.
Proxima Pergunta: Qual a diferença entre uma fábrica e uma gigafábrica?
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Qual a diferença entre uma fábrica e uma gigafábrica?
É importante não confundir as Gigafábricas de IA com as Fábricas de IA.
Já vimos, na resposta anterior, que uma “gigafábrica” é uma infraestrutura de grande escala com cerca de 100 mil processadores altamente avançados. Ora, no contexto europeu, uma “fábrica” de IA é uma infraestrutura semelhante, mas de menor dimensão e escala, contendo até 25 mil processadores.
Ou seja, a grande diferença entre uma fábrica de IA e uma gigafábrica está no tamanho da infraestrutura — logo, na sua escala.
“Atualmente, os supercomputadores mais avançados das Fábricas de IA, equipados com até 25.000 processadores de IA de última geração, desempenham um papel essencial no desenvolvimento e treino da atual geração de modelos de IA. Liderar a próxima vaga de modelos avançados de IA exige um poder computacional e volumes de dados significativamente maiores”, justifica a Comissão Europeia no Plano de Ação Continente IA, apresentado em 2025.
Atualmente, existem 19 fábricas de IA instaladas no continente europeu. Portugal não tem uma fábrica de IA, mas coinvestiu no BSC AI Factory, em Barcelona, em parceria com Espanha, Turquia e Roménia.

Mapa da localização das Fábricas de IAComissão Europeia O Plano de Ação Continente IA da União Europeia prevê uma forte proximidade entre as Gigafábricas e as Fábricas de IA, “assegurando uma integração fluida e a partilha de conhecimento em todo o ecossistema europeu de IA”.
Por envolverem investidores privados, espera-se que as Gigafábricas de IA adotem um modelo de negócio diferente do funcionamento das Fábricas de IA, prestando serviços de supercomputação a um portefólio de clientes.
Importa entender que não existe uma definição oficial de “gigafábrica” ou de “fábrica” de IA. No setor, outras empresas têm usado as mesmas palavras para definir investimentos deste tipo.
Disso são exemplo as Fábricas de IA da empresa norte-americana Nvidia, ou a aposta que a Microsoft está a fazer no centro de dados da Start Campus em Sines, em parceria com a britânica Nscale — resultado de um investimento histórico de dez mil milhões de euros no país.
Proxima Pergunta: Portugal vai mesmo ter uma Gigafábrica de IA?
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Portugal vai mesmo ter uma Gigafábrica de IA?
A vinda de uma Gigafábrica de IA para Portugal, nomeadamente para Sines, tem sido descrita muitas vezes como se fosse um facto consumado. Mas não é bem assim.
Na verdade, o projeto ainda depende de uma candidatura a um programa que nem sequer foi formalmente lançado. Aliás, está manifestamente atrasado face ao calendário inicial.
Ou seja, Portugal tem vindo a reunir parceiros com vista a formalizar uma candidatura para atrair uma Gigafábrica de IA para o país. O esforço tem sido liderado pelo Banco Português de Fomento.
Este ano, porém, o Governo português e o Governo espanhol decidiram unir esforços para promover uma candidatura ibérica ao programa da Comissão. Os dois países pretendem mobilizar oito mil milhões de euros em fundos públicos e privados para esse empreendimento.

Os primeiros-ministros de Portugal e Espanha, Luís Montenegro e Pedro Sánchez, após a 36.ª Cimeira Luso-Espanhola, em que os dois países formalizaram a intenção de apresentar uma candidatura conjunta à gigafábrica No dia 20 de abril, o ministro da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, confirmou publicamente que a candidatura ibérica é um “projeto de igual para igual” entre os dois países, com “metade em Portugal e metade em Espanha”. Do lado português, continua a estar previsto que Sines seja o destino da gigafábrica, “com outra localização de redundância”, disse o governante.
Em março, o Jornal Económico já tinha avançado que o concelho de Abrantes também está a ser considerado para acolher uma infraestrutura de redundância da gigafábrica. Lisboa será outra opção em cima da mesa.
Do lado espanhol, os destinos serão Barcelona e Madrid, disse o governante, acrescentando que a união entre Portugal e Espanha permite “ganhar escala, sem preocupações com as quintinhas e os territórios de cada um”.
Proxima Pergunta: Como funcionará o concurso da União Europeia?
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Como funcionará o concurso da União Europeia?
Entre abril e junho de 2025, a Comissão Europeia sondou o mercado para medir o grau de interesse num possível concurso para cofinanciar a construção de cinco gigafábricas de IA na Europa, com até 20 mil milhões de euros. Recebeu 76 manifestações de interesse, provenientes de 16 Estados-membros, para 60 localizações diferentes.
O volume de respostas surpreendeu a própria Comissão, que chegou a admitir, numa resposta ao ECO, escolher mais do que as cinco gigafábricas que anunciou inicialmente. Porém, a ideia atual passará por escolher cinco projetos, sem prejuízo de vir a ser realizado outro concurso no futuro.
O programa das gigafábricas também despertou interesse no seio do Estado português. Logo que foi anunciada a ideia, o Banco Português de Fomento fez-se à estrada e começou a arregimentar parceiros, tendo também formalizado uma manifestação de interesse junto da Comissão.
Inicialmente, o projeto do Banco de Fomento, elaborado pela McKinsey, previa quatro mil milhões de euros de investimento numa Gigafábrica de IA em Sines. O plano inicial, a que o ECO teve acesso, ambicionava iniciar os trabalhos de construção já em abril de 2026. Nessa altura, previa-se que o concurso formal arrancasse até ao final de 2025.
Não aconteceu. Atualmente, a previsão da Comissão é de que o concurso oficial para a escolha de cinco projetos para a instalação de gigafábricas de IA arranque a qualquer momento, ainda durante a primavera. Haverá um prazo para a submissão de candidaturas e, depois, deverão ser anunciadas as escolhas.
O concurso deverá ser formalmente lançado nesta página, pelo organismo europeu responsável pelos esforços conjuntos na área da supercomputação.
Proxima Pergunta: A candidatura ibérica tem boas hipóteses?
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A candidatura ibérica tem boas hipóteses?
Em tese, sim. Mas tudo dependerá da força das restantes candidaturas — e, ultimamente, das escolhas que venham a ser tomadas pelo executivo europeu.
Importa dizer que, ao aliar-se a Espanha, Portugal remove aquele que poderia ser o seu principal concorrente na captação deste tipo de infraestruturas.
Naturalmente, o país vizinho tem um mercado de muito maior dimensão do que o português. E tem conseguido captar alguns investimentos importantes que também eram disputados por Portugal.
Por exemplo, em 2024, a Amazon Web Services (AWS) acabou por decidir investir 15,7 mil milhões de euros num grande centro de dados em Aragão. Já em março deste ano, a empresa norte-americana optou por mais do que duplicar esse montante, para 33,7 mil milhões de euros, prometendo “suportar” 29.900 empregos por ano e contribuir com 31,7 mil milhões de euros para a economia espanhola.
Mas Portugal também tem as suas vantagens. Primeiro, as redes elétricas ainda não estão tão congestionadas como em Espanha. Segundo, a energia renovável é abundante e a preços acessíveis. Terceiro, amarram na costa portuguesa alguns importantes cabos submarinos que ligam a Europa a outros continentes. Quarto, o talento nacional é bastante valorizado no mercado internacional.
Em quinto lugar estará, talvez, o novo Plano Nacional de Centros de Dados. Uma estratégia do Governo para atrair mais investimento nesta área para o país, com promessas de licenciamentos simplificados.
Alguns líderes do setor tecnológico têm enaltecido estas qualidades do país. Por exemplo, o CEO da Microsoft Portugal considerou que “Portugal e Espanha têm muitas hipóteses” de conseguir convencer a Comissão Europeia. “Acho que a estratégia de Portugal e Espanha foi boa, e vamos ver outras a seguir a mesma lógica”, vaticinou.
Proxima Pergunta: Quem vai pagar este investimento?
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Quem vai pagar este investimento?
A estrutura de financiamento de cada uma das gigafábricas escolhidas pela Comissão Europeia será diferente. Mas, em todo o caso, será uma mistura de fundos públicos e privados.
Por exemplo, quando o Banco de Fomento entregou a manifestação inicial de interesse à Comissão Europeia, previa em torno de quatro mil milhões de euros para a construção da Gigafábrica em Sines, dos quais:
- 600 milhões de euros provenientes de capital privado injetado pelos membros do consórcio;
- 1.000 milhões de euros provenientes de um empréstimo sindicado contraído pelo consórcio;
- 1.000 milhões de euros de fundos públicos do Estado português, provenientes de programas europeus, como o Portugal 2030;
- 1,4 mil milhões de euros provenientes da Comissão Europeia, de fundos específicos para a construção das gigafábricas.
Entretanto, a candidatura ibérica prevê levantar o dobro do investimento: oito mil milhões de euros no total.
Adicionalmente, o diploma que regulamenta o programa das gigafábricas estipula que a contribuição da União Europeia não poderá exceder 17% do investimento necessário à construção de uma dada gigafábrica. O mesmo documento determina que “um ou mais Estados participantes deverão, pelo menos, equiparar a contribuição da União”, sendo a restante parte da responsabilidade do consórcio privado que estiver associado ao projeto.
Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia assinou com o Banco Europeu de Investimento (BEI) e o Fundo Europeu de Investimento (FEI) um memorando de entendimento para “suportar o desenvolvimento e construção de Gigafábricas de IA na União Europeia”.
Num comunicado conjunto, assinala-se o compromisso da Comissão Europeia para investir 20 mil milhões de euros na construção das cinco gigafábricas. O grupo BEI ficou incumbido de “explorar possibilidades de complementar as subvenções com empréstimos, para estimular o investimento privado e criar uma infraestrutura de IA robusta para as startups, os investigadores e a indústria europeias”.
Por fim, no site do EuroHPC — o organismo europeu que coordena os esforços na área da supercomputação e que está responsável pelo concurso — há uma lista de “potenciais investidores financeiros” com os nomes do costume: gigantes do private equity como KKR, Macquarie, Blackstone e Brookfield.
Estes fundos são acompanhados pelo banco japonês MUFG (Mitsubishi UFJ Financial Group), que em março deste ano participou no empréstimo de 830 mil milhões de dólares à startup europeia de IA Mistral.
Para entrarem na lista, todas estas empresas tiveram de informar proativamente do seu interesse em investir nas gigafábricas europeias.