Porque é que o ouro está a reluzir menos em tempo de guerra?
- Shrikesh Laxmidas
- 23 Março 2026
Pode parecer contrassenso, mas o preço do ouro já caiu perto de 15% desde os ataques ao Irão. Veja aqui como o estatuto de refúgio esta a ser sobreposto por subidas da inflação, juros e dólar.
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Qual tem sido o desempenho da cotação do ouro com os ataques ao Irâo?
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O ouro costuma ser um ativo de refúgio em tempos de guerra?
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Qual tem sido o papel dos receios sobre a inflação?
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Qual é a relação do ouro com ativos americanos como o dólar e as 'Treasuries'?
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Há excesso de liquidez de ouro nos mercados?
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O que poderá acontecer nos próximos tempos?
Porque é que o ouro está a reluzir menos em tempo de guerra?
- Shrikesh Laxmidas
- 23 Março 2026
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Qual tem sido o desempenho da cotação do ouro com os ataques ao Irâo?
Os anos antes do conflito representaram um rally inédito para o preço do ouro, com sucessivos patamares a serem ultrapassados – os 2.000 dólares por onça em agosto de 2025, os 3.000 dólares em março de 2025 e os 4.000 dólares em outubro desse ano.
Suportado pelas incertezas criadas pelas tarifas anunciadas por Donald Trump, as preocupações persistentes com a inflação, as esporádicas dúvidas sobre o potencial retorno do investimento global em inteligência artificial, o risco geopolítico (nomeadamente tensões no Médio Oriente) e expectativas de descida das taxas de juro, o preço da onça de ouro escalou 64,7% em 2025.
Impulsionado ainda por compras de ouro por parte dos bancos centrais, o preço ultrapassou a barreira dos 5.000 dólares a 26 de janeiro deste ano, três dias antes de atingir o novo máximo de sempre de 5.594,82 dólares.
No entanto, a cotação caiu mais de 15% desde o início do conflito no Médio Oriente, a 28 de fevereiro, e cerca de 20% face a esse máximo histórico para perto dos 4.400 dólares por onça esta quarta-feira, com a guerra a afetar as dinâmicas do mercado.
Proxima Pergunta: O ouro costuma ser um ativo de refúgio em tempos de guerra?
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O ouro costuma ser um ativo de refúgio em tempos de guerra?
Depende. O ouro tende a reagir à guerra devido ao seu papel como um ativo de refúgio, mas a trajetória do preço depende muito de como o conflito afeta a inflação, as taxas de juro, a estabilidade cambial e a aversão ao risco.
A geopolítica, por si só, raramente impulsiona os preços do ouro de forma sustentada, referiram os analistas o banco de investimento neerlandês ING. “Q que realmente importa é a forma como esses choques se transmitem para a inflação, a política monetária e o dólar”.
“No curto prazo, um dólar norte-americano mais forte e a elevada liquidez do ouro podem fazer dele uma fonte de financiamento durante períodos de tensão”, adiantaram.
A reação do ouro à invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 oferece um ponto de referência útil. “Os preços subiram inicialmente, mas esse movimento perdeu força à medida que o choque inflacionista se transmitiu às taxas de juro, ao dólar e aos fluxos de investimento”, explicaram os analistas do ING.
Proxima Pergunta: Qual tem sido o papel dos receios sobre a inflação?
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Qual tem sido o papel dos receios sobre a inflação?
“Com o conflito iraniano a entrar na sua quarta semana e os preços do petróleo a oscilar em torno dos 100 dólares, as expectativas passaram de cortes nas taxas de juro para possíveis aumentos, o que diminuiu o apelo do ouro do ponto de vista do rendimento”, explicou Tim Waterer, analista da KCM Trade, à Reuters.
A Reserva Federal dos EUA (Fed) pouco fez para aliviar os receios sobre a inflação ao manter as taxas de juro inalteradas, sugerindo que o mantra dos mercados de ouro e prata é “não lutes contra a Fed”.
Deste lado do Atlântico, o Banco Central Europeu (BCE) indicou que deixou o ‘bom lugar’ que permitiu nove reuniões sem aumentos do custo do euro e encontra-se agora ‘bem posicionado’ para enfrentar o grande choque que se está a desenrolar. Os analistas e economistas interpretaram os sinais do BCE como uma forte probabilidade dois aumentos nas taxas de juro da Zona Euro até julho.
Proxima Pergunta: Qual é a relação do ouro com ativos americanos como o dólar e as 'Treasuries'?
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Qual é a relação do ouro com ativos americanos como o dólar e as 'Treasuries'?
Para Carsten Menke, head of next generation research no banco privado suíço Julius Baer, os preços do ouro estavam em níveis elevados quando a guerra começou, e poder-se-ia argumentar que o aumento das tensões no Médio Oriente fez parte da valorização desde o início do ano.
No entanto, “quaisquer potenciais ventos favoráveis que a guerra pudesse trazer para o ouro e para a prata — devido ao impacto económico adverso dos preços mais altos do petróleo e do gás — estão atualmente a ser anulados por ventos contrários provenientes da recuperação do dólar, do aumento do rendimento das obrigações dos EUA (yields) e dos receios quanto a uma política monetária norte-americana menos expansionista”.
Menke sublinhou que os metais preciosos estão a sofrer com a recuperação do dólar e a subida do rendimento das yields dos EUA, particularmente porque o rally anterior foi fortemente alicerçado na narrativa do trade de desvalorização do dólar, explicou “Aqueles que apostaram que os metais preciosos beneficiariam de uma desvalorização do dólar foram apanhados do lado errado desta operação desde o início da guerra”, concluiu.
Proxima Pergunta: Há excesso de liquidez de ouro nos mercados?
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Há excesso de liquidez de ouro nos mercados?
Segundo Tim Waterer, da KCM Trade, “a elevada liquidez do ouro parece estar a prejudicá-lo durante este período de aversão ao risco”.
“As quedas nos mercados bolsistas estão a levar ao encerramento de posições em ouro para cobrir as chamadas de margem noutros ativos”, vincou, referindo-se à situação em que o valor da conta de um investidor desce abaixo do montante mínimo exigido pela corretora para manter uma posição aberta com recurso a alavancagem.
Vender outros ativos é muitas vezes a solução para regularizar a situação. Neste caso com o efeito secundário de colocar maior oferta de ouro nos mercados.
Os analistas do ING sublinharam que o ritmo de compras de ouro pelos bancos centrais abrandou. Os dados do World Gold Council mostram compras líquidas de cinco toneladas em janeiro, valor bem abaixo da média mensal de 27 toneladas registada em 2025, o que reflete um ímpeto mais fraco no início do ano.
Proxima Pergunta: O que poderá acontecer nos próximos tempos?
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O que poderá acontecer nos próximos tempos?
Se o ouro acabará por cumprir o seu papel de ativo de refúgio dependerá dos desenvolvimentos futuros no Médio Oriente, explicou Carsten Menke, do Julius Baer, ainda antes de Donald Trump ter esta segunda-feira anunciado negociações com Irão e uma trégua de cinco dias.
“Seria provavelmente necessário um agravamento da situação, incluindo um movimento de aversão ao risco (risk-off) mais acentuado nos mercados financeiros, para que o ouro voltasse a brilhar”, adiantou. “No caso da prata, tal não seria necessariamente o caso, uma vez que esta não possui as mesmas características de porto seguro que o ouro”.
Para os analistas do ING, em última análise, no entanto “a direção do ouro dependerá menos apenas das notícias geopolíticas e mais da forma como esses eventos moldam a inflação, as expectativas da política monetária e as taxas de juro reais”.