A presidente do Turismo de Itália defende uma nova leitura do luxo e critica a ideia de excesso de turismo. Alessandra Priante responde às 7 Perguntas e Meia do ECO Avenida.
"Sou presidente do Turismo de Itália desde 2024 e professora. É possível combater a pobreza através do turismo. É possível combater a fome com o turismo. É possível educar as pessoas para serem mais respeitadoras umas das outras. O turismo treina-nos para ouvir o outro, para estarmos abertos. É uma ponte para a paz.”
1. Participou, em Lisboa, na SIGA Summit, sobre o futuro do desporto na Europa. Como é que turismo e desporto se podem encontrar?
As experiências, por definição, já se encontram, porque sempre que se organiza um evento desportivo, está-se a organizá-lo num destino. O que é necessário de ambos os lados é esse tipo de consciência e colaboração que permite criar o produto perfeito e proporcionar a experiência perfeita.
O mais importante é proporcionar uma boa experiência a quem nos visita, mas essa experiência também se estende à comunidade que lá vive. Quando trazemos pessoas para eventos desportivos, elas viajam com um objetivo muito claro.
Se esse objetivo é afetado por transportes ineficazes, más experiências ou perturbações, isso contamina tudo. É por isso que turismo e desporto têm de trabalhar juntos para garantir uma experiência fluida, tanto para visitantes como para residentes.
2. Defende que “o luxo é o tempo”. Como se traduz essa ideia na forma como Itália se posiciona no turismo global?
O luxo não é uma noite cara num hotel ou uma refeição num restaurante de três estrelas Michelin. O luxo é o tempo e a qualidade da forma como o passamos. Hoje, em Itália, 51% dos nossos visitantes internacionais, vêm continuamente a Itália, o que é ótimo. A coisa de que mais falarão, que definirá o seu luxo, é a forma como foram recebidos.
O empregado simpático, a senhora que lhes contou a história, a pessoa que os levou a uma visita muito privada a algo absolutamente autêntico, original e do coração. E a maior parte das vezes estas experiências têm um custo zero. O que é que isso nos diz sobre o luxo?
O luxo é uma perceção da forma como passamos o nosso tempo e quando o nosso tempo foi passado de uma forma bela e inesquecível, que nos fará pensar. “Oh meu Deus, este é o melhor momento da minha vida”.
3. O que aprendeu em Portugal que mudou a sua perceção de luxo e influenciou a sua estratégia?
Portugal deu-me exatamente isso, uma experiência de luxo, na primeira vez que vim. É o azul dos céus. É a bondade das pessoas. É a forma como alguém fala connosco e nos oferece ou antecipa a nossa procura, o profissionalismo do pessoal. A maior parte deles fala inglês. Foram muito acolhedores, e foi durante a Covid-19.
Mas o que realmente definiu o luxo em Portugal para mim foi quando um grande amigo meu me convidou, pela primeira vez, para ir à sua casa de praia e me disse para nos encontrarmos por volta das 7h30 num bar que fica em frente à praia. Quando cheguei vi que as cadeiras estavam todas viradas para a mesma direção, ou seja, para o pôr-do-sol. Foi uma ligação incrível, não importava o quão luxuoso tudo o resto era à minha volta, para mim esta era a definição máxima de luxo. Isso mudou a minha perceção para sempre.
4. Disse que “não existe excesso de turismo, existe má gestão”: o que está concretamente a ser mal gerido nos destinos?
Não há excesso de turismo. Deixemos de tratar o excesso de turismo como se estivesse nublado ou fosse fazer sol. Não. O excesso de turismo é má gestão. Por isso, a primeira coisa que disse quando cheguei ao Turismo de Itália foi: não me falem de excesso de turismo, não me falem de sazonalidade.
Vamos concentrar-nos nos destinos menos conhecidos, que necessitam de acessibilidade, voos, comboios, o que for… Na maior parte das vezes, precisam de desenvolver produtos.
5. Apostar em destinos menos conhecidos é uma prioridade. O que falta para que deixem de ser apenas uma promessa?
Nem todos têm de se tornar turísticos. O importante é garantir a quem quer que venha que tem a melhor experiência, tem de se sentir italiano. A única forma de o fazer é garantir que quem vem tem uma experiência muito autêntica.
Trazer as pessoas para dentro de casa, aumentar o número de dias de estadia e ter uma melhor oportunidade de mostrar a verdadeira Itália e criar essa experiência de luxo.
6. Como se consegue atrair visitantes para estes destinos?
É preciso fornecer bons dados e dar-lhes sentido. Temos de nos sentar todos à mesma mesa, recolher informação e perceber o que realmente precisamos. Não faz sentido tomar decisões sem saber quem queremos atrair ou porquê. Sem dados, tudo se torna aleatório — e isso raramente funciona.
As duas principais coisas de que falei no Turismo de Itália foram compreender quem somos e ter os dados certos para compreender realmente. Porque não vale a pena trazer um voo da Ryanair de Leeds para uma aldeia desconhecida em Itália se não se sabe quem vem.
7. O turismo pode ser uma força económica, mas também social. Onde está hoje o maior falhanço? Na comunidade, na formação ou nas condições de trabalho?
Temos de dar estabilidade às pessoas. Não apenas um bom salário, mas contratos estáveis, formação contínua e perspetivas de futuro. O nosso impacto na sociedade é enorme. Quando se leva alguém a um destino não se está a ter impacto no hotel. Está a ter impacto em toda a vizinhança. E o bairro torna-se noutra coisa.
É tudo uma questão de comunicação e foi por isso que eu disse para nos sentarmos à mesa todos juntos. O turismo tem uma enorme responsabilidade e um enorme potencial para melhorar as coisas.

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