Andreia Dias é "head of talent" das equipas que a Nestlé tem na Península Ibérica e identifica a adaptação das pessoas às transformações em curso (nomeadamente, tecnológicas) como o grande desafio.
Com cerca de três mil trabalhadores em Portugal, a Nestlé tem sob a sua alçada tanto empregados mais velhos, com várias décadas de “casa”, como talentos mais jovens, que há pouco terminaram os seus estudos. E essa convivência traz uma “grande riqueza” a esta multinacional, argumenta, em entrevista ao ECO, Andreia Dias, head of talent para as equipas da Península Ibérica.
A responsável frisa que a Nestlé “é uma escola”, com muitas áreas diferentes, muitas pessoas diferentes e, portanto, muitas oportunidades (incluindo internacionais), o que tem ajudado a fidelizar o talento, numa altura em que tanto se fala sobre escassez de recursos humanos.
Nesta entrevista (anterior ao anúncio de que a Nestlé irá cortar 16 mil postos de trabalho em todo o mundo), Andreia Dias explica ainda que o maior desafio da gestão das pessoas, neste momento, é garantir que estas “estão preparadas para o futuro”, com uma aposta forte na formação.
Temos uma iniciativa global, que é a “Nestlé needs youth”, que promove a empregabilidade dos jovens. Já impactou mais de sete milhões de jovens, e há um compromisso de impactar dez milhões até 2030.
O talento jovem tem sido uma das apostas da Nestlé. Como é que têm adaptado as vossas políticas de recursos humanos para se ajustarem às necessidades e exigências dos vossos empregados mais novos?
A Nestlé é uma empresa com inúmeras gerações a trabalhar, e esta convivência entre as gerações mais velhas e as gerações mais jovens dá uma grande riqueza à empresa. O talento jovem é, há muitos anos, uma prioridade estratégica para a Nestlé. Temos, aliás, uma iniciativa global, que é a “Nestlé needs youth”, que promove a empregabilidade dos jovens. Já impactou mais de sete milhões de jovens, e há um compromisso de impactar dez milhões até 2030. Com isto, temos de conseguir adaptar também aquilo que é a realidade da empresa. Sem perder a identidade, o propósito e os valores, conseguir que as expectativas que os jovens de hoje têm também se encontrem na Nestlé. E temos iniciativas muito emblemáticas localmente.
Tais como?
Desde logo, uma aproximação às escolas e às universidades, nomeadamente com a participação em feiras de emprego e com parcerias com várias universidades. Temos também um programa de estágios de verão, que ajuda os jovens a complementar as férias escolares com uma primeira experiência no mundo do trabalho. Temos, além disso, embaixadores universitários, que são jovens que nos ajudam a melhorar as competências dos outros jovens. E temos open days na Nestlé, nos quais as escolas vêm à nossa casa. E temos o nosso programa de estágios, que é muito emblemático.

Cujas candidaturas abrem em breve…
Sim, no início de novembro. O “Born to talent” é o programa de estágios da Nestlé. Vai abrir com 20 ou 25 vagas, aquilo que é habitual. No fundo, é a semente do desenvolvimento na Nestlé.
Qual a importância deste programa para o recrutamento global da Nestlé? É um dos pontos de entrada principais de talento?
Para a entrada de jovens, sim. É a iniciativa mais emblemática que temos. Aliás, 80% dos jovens que fazem o estágio connosco ficam na empresa e acabam por seguir o percurso em áreas diferentes na empresa. Portanto, acaba por ser uma fonte de talento jovem na Nestlé.
A proximidade à academia que estava a referir, de alguma forma, ajuda a preencher essas vagas?
Sim. Quase começamos a recrutar antes de as pessoas efetivamente estarem à procura de trabalho com esta aproximação. Esta aproximação às escolas faz com que os jovens fiquem também mais alerta. Temos um forte employer branding, ou seja, a nossa marca como empregador de referência começa a ser trabalhada desde o início. Isto faz com que também haja um poder de atração maior.
Todos os anos, têm cerca de 20 estágios. Qual é a vantagem para os jovens em estagiar convosco?
É uma escola. A Nestlé é uma empresa enorme, com muitas áreas diferentes e com muitas pessoas diferentes. Tem uma presença global, mas uma customização local que ajuda muito a aprender. Os jovens têm oportunidades de ser acompanhados com programas de formação pensados para eles, e com mentores que os ajudam no caminho durante o período de estágio. É uma aprendizagem grande. O balanço tem sido muito positivo.
Disse que 80% dos estagiários acabam por ficar convosco. Numa altura em que se fala tanto em escassez de trabalhadores, que trabalho têm feito para fidelizar esse talento?
O fator diferenciador é que a Nestlé tem inúmeras oportunidades de aprendizagem, desenvolvimento e de crescimento. Temos áreas de negócio muito diferentes, desde os cereais, a alimentação animal, os chocolates, até às áreas funcionais, como os recursos humanos, marketing, vendas, e supply chain. Isto faz com que as pessoas tenham oportunidades dentro da empresa e vão crescendo connosco.
São raros os casos de pessoas que estão há muitos anos na empresa e que nunca mudaram de função, porque existe muito intercâmbio, não só a nível nacional, mas também a nível internacional.
Portanto, a mobilidade interna é muito forte na Nestlé?
Muito forte. São raros os casos de pessoas que estão há muitos anos na empresa e que nunca mudaram de função, porque existe muito intercâmbio, não só a nível nacional, mas também a nível internacional. A mobilidade interna é um must na Nestlé, e é o que nos diferencia.
Falou em mobilidade internacional. Vemos muitos jovens a sair do país. O facto de a Nestlé ter em si mesma oportunidades internacionais, ajuda a atrair essas pessoas?
Sim. Sabemos que hoje os jovens têm esta ideia de que ter uma experiência internacional pode ser um complemento. Podem fazer isso dentro da Nestlé. Acaba por haver também muitas oportunidades a este nível. Sem dúvida, é um fator atrativo.
No total, tem cerca de três mil pessoas para gerir só na Nestlé Portugal. Quais são os maiores desafios?
É um desafio, sobretudo porque os tempos estão a mudar. O mundo está a evoluir e exige que haja aqui uma adaptação a tudo o que são novas tecnologias. Temos também que corresponder àquilo que são as expectativas que as pessoas têm relativamente às organizações. Temos também de saber diferenciar-nos. O que temos feito é apostar no reskilling e no upskilling, isto é, na requalificação e qualificação. Ter formação que permita às pessoas desenvolver esta capacidade de adaptação. O desafio sobretudo é esse: é garantir que as pessoas estão preparadas para o futuro.

Sobre a qualificação e requalificação, que aposta concreta têm feito? Que investimento têm feito?
A Nestlé tem quase formação à la carte, porque todos os anos existe um catálogo de formação e existem inúmeras oportunidades da pessoa se apontar àquilo que são os cursos que gostava de fazer. A empresa em muitos casos faz o patrocínio destas ações formativas. Temos milhares de horas em formação, não só dadas pela empresa, mas que também o colaborador pede à empresa. Além daquilo que é a formação mais pura, temos o mentoring, o coaching, programas internos e eventos que ajudam a promover este desenvolvimento.
Diz que têm milhares de horas de formação. Sente alguma resistência da parte dos trabalhadores, nomeadamente na formação em tecnologia?
Há sempre um processo de gestão da mudança. As pessoas estão habituadas a fazer de uma certa forma e, de repente, a tecnologia anda muito rápido. O que é válido hoje pode já estar desatualizado amanhã. É um trabalho contínuo que temos de fazer. Mas, se a pessoa tiver vontade de aprender, a inovação está ao serviço das pessoas, e não ao contrário.
Relativamente a 2026, estão a planear recrutar mais trabalhadores?
Na Nestlé, o recrutamento é estratégico. Queremos que as pessoas estejam bem connosco e que também se identifiquem com a cultura organizativa. Sempre há oportunidades de recrutamento. Além dos estágios, há oportunidades que vão surgindo de necessidades pontuais. E existe também as oportunidades por expansão de serviços. Por exemplo, no centro de serviços, estão linhas de serviço a abrir, significa que é preciso contratar novas pessoas.
Para o centro de serviços, tem já um número em mente para 2026?
Estamos sempre a ajustar à confirmação das necessidades. Portanto, prefiro não revelar para já. Acima de tudo, acho que é importante que as pessoas continuem a sentir orgulho em trabalhar na Nestlé. Os nossos estudos de clima organizacional dizem que mais de 90% das pessoas gostam de trabalhar na Nestlé. Se tivermos um objetivo para gerir talento na Nestlé para 2026, é que siga assim e consigamos ajustar àquilo que é a realidade interna e externa.
Veja abaixo a entrevista na íntegra:
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“80% dos jovens que fazem estágio na Nestlé ficam”. Candidaturas abrem em novembro
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