“A Airbus está empenhada em trabalhar com Portugal em futuros projetos de defesa”

Portugal poderá atrair mais investimento "se reforçar o seu compromisso com a estratégia coletiva 'Buy European'", defende Nathalie Hellard-Lambic, diretora-geral da Airbus em Portugal.

Empregam 1.700 trabalhadores em Portugal, gerando mais de 100 milhões de impacto económico anual para o país. E com a necessidade do país em responder ao reforço das suas capacidades de defesa, a Airbus vê aqui uma oportunidade de reforçar o seu compromisso com Portugal, admite Nathalie Hellard-Lambic, diretora-geral da Airbus em Portugal, ao ECO/eRadar.

“A Airbus está empenhada em trabalhar com Portugal em futuros projetos de defesa”, garante a gestora, na sua primeira entrevista desde que assumiu funções de liderança da companhia no mercado português. “Portugal possui a base industrial e o talento necessários para ancorar uma parcela ainda maior da cadeia de fornecimento europeia de defesa. Uma eventual expansão futura dependerá de compromissos programáticos de longo prazo e de um alinhamento contínuo com as autoridades nacionais de defesa”, diz.

Portugal “pode reforçar o seu compromisso com a estratégia coletiva ‘Buy European’, priorizando a aquisição de plataformas europeias”, diz a gestora da companhia que faz parte do consórcio Eurofighter, um dos concorrentes à venda dos futuros caças para a Força Aérea Portuguesa, processo em que enfrenta a concorrência dos F-35 norte-americanos da Lockheed Martin ou os Gripen da SAAB.

Nesse âmbito, a Airbus já fechou um memorando de entendimento com a AED Cluster para explorar potenciais parcerias com a indústria nacional. “Estamos atualmente em processo de visitas e reuniões com as empresas e instituições portuguesas identificadas. Até ao momento, estabelecemos contacto com um total de 14 entidades locais, abrangendo diversos setores de atividade, desde campeões nacionais a empresas de média dimensão”, adianta Nathalie Hellard-Lambic.

Esta semana, o programa Eurofighter organizou o seu primeiro Industry Day em Lisboa, reunindo operadores chave do programa de defesa europeu com empresas nacionais para “identificar novas oportunidades de colaboração”.

Em Santo Tirso, onde a companhia já tem 450 trabalhadores a produzir painéis para os aviões da família A320 e A350, há planos de crescimento de área de produção e pessoas. Até ao final de 2026, querem atingir os 600 colaboradores.

Reportagem na fábrica da Airbus Atlantic em Santo Tirso - 20MAR24
Fábrica da Airbus Atlantic em Santo TirsoHugo Amaral/ECO

Depois da Airbus Atlantic e da Airbus GBS, este ano avançaram com uma joint venture com a Critical Software no aeroespacial. Portugal continua a ser atrativo para investimento? O que deveria ser desbloqueado para atrair mais investimento de empresas como a Airbus para o país?

Portugal continua a ser um mercado altamente atrativo para a Airbus. Ao longo de mais de cinco décadas, construímos uma parceria estratégica com o país que contribuiu decisivamente para colocar Portugal no centro do desenvolvimento industrial aeroespacial. Este investimento traduz-se hoje numa forte contribuição para a economia nacional.

Apoiamos cerca de 1.700 postos de trabalho diretos em Portugal, gerando aproximadamente 110 milhões de euros de impacto económico anual para o país. O nosso compromisso com a cadeia de fornecimento local é igualmente robusto: embora normalmente adquiramos cerca de 70 milhões de euros por ano junto de 35 parceiros portugueses, este valor atingiu um recorde de 87 milhões de euros só em 2024, sustentando cerca de 6.000 empregos indiretos em todo o país.

Esta presença de longo prazo, que abrange a Airbus Atlantic em Santo Tirso, a Airbus Global Business Services em Lisboa e Coimbra, a nossa joint venture com a Critical Software — Critical Flytech —, bem como a muito recente integração da Sevenair na Airbus Flight Academy, demonstra que Portugal não é uma localização periférica, mas uma parte cada vez mais central do ecossistema global da Airbus.

Portugal pode reforçar o seu compromisso com a estratégia coletiva “Buy European”, priorizando a aquisição de plataformas europeias, o que é essencial para um alinhamento de longo prazo. Tal compromisso enviará um sinal forte de que Portugal é uma base estratégica para o tipo de investimento de elevado nível que a Airbus está preparada para expandir.

Em Santo Tirso, a Airbus aumentou a área de produção em 30% e a GBS já tem dois hubs, um em Lisboa e um satélite em Coimbra. Quando foi lançada em Coimbra, em 2022, o objetivo era empregar 900 pessoas globalmente até 2025. Essa ambição foi alcançada?

Sim! Essa ambição não só foi alcançada, como foi ultrapassada. A Airbus Global Business Services em Portugal conta hoje com mais de 1.300 especialistas distribuídos por Lisboa e Coimbra, superando a meta inicial de 900 colaboradores prevista para 2025. A nossa equipa de GBS em Portugal integra atualmente 49 nacionalidades, o que significa que estamos também a atrair profissionais altamente qualificados para contribuir para o ecossistema nacional.

Este crescimento reflete tanto o forte desempenho das equipas portuguesas como a crescente relevância estratégica da GBS no modelo operacional global da Airbus.

Embora as decisões específicas relativas a número de colaboradores ou localizações estejam sempre alinhadas com a procura do negócio, a Airbus está preparada para aprofundar a sua presença em Portugal.

Existem planos para aumentar a GBS em termos de número de colaboradores ou novas localizações?

Enquanto trabalhamos para dar resposta a uma carteira global de encomendas superior a 8.776 aeronaves (atualização de encomendas e entregas de fevereiro de 2026), Portugal permanece central na nossa estratégia de expansão. Embora as decisões específicas relativas a número de colaboradores ou localizações estejam sempre alinhadas com a procura do negócio, a Airbus está preparada para aprofundar a sua presença em Portugal.

No entanto, a nossa presença não está apenas a crescer em dimensão; está também a crescer em sofisticação. Para além da GBS e da Airbus Atlantic, estamos a desenvolver software crítico para voo através da nossa joint venture com a Critical Software — Critical Flytech — e integrámos a Sevenair no programa Airbus Flight Academy, uma iniciativa inédita no país.

Que tipo de perfil de talento será necessário?

A GBS tornou-se um centro de competências-chave para o grupo, fornecendo serviços de elevado valor acrescentado nas áreas de finanças, recursos humanos, compras, sistemas de informação, engenharia, comunicação, apoio ao cliente, jurídico e compliance.

Portugal desempenha hoje um papel central e em expansão na estrutura global de suporte da Airbus, contribuindo diretamente para o aumento da produção industrial, a transformação digital e a competitividade de longo prazo da empresa.

O perfil de talento necessário é cada vez mais avançado e multidisciplinar. A GBS requer profissionais altamente qualificados nas áreas de finanças, soluções digitais, procurement e compliance.

O talento tem sido apontado pelas empresas como uma das razões para se instalarem em Portugal. Isso mantém-se?

O talento continua a ser uma das principais razões pelas quais investimos em Portugal. O país oferece uma força de trabalho altamente qualificada, adaptável e fiável, com fortes competências em engenharia e tecnologia digital. O facto de empregarmos atualmente cerca de 1.700 pessoas diretamente em Portugal — considerando as operações da GBS e a unidade da Airbus Atlantic — reflete a confiança nesta base de talento.

Manter esta vantagem exigirá investimento contínuo na educação STEM, maior colaboração entre indústria e academia e o reforço de vias técnicas e profissionais alinhadas com as necessidades do setor aeroespacial.

Para além de desenvolver talento local, a Airbus está ativamente a inverter a chamada “fuga de cérebros”. Através da Critical Flytech, a nossa joint venture recentemente lançada, estamos a proporcionar o ambiente industrial sofisticado necessário para atrair de volta profissionais portugueses da área tecnológica que trabalham no estrangeiro. No entanto, a nossa missão vai além do recrutamento: estamos a construir ativamente a força de trabalho do futuro.

 

Através de programas sólidos de requalificação e formação de trainees, respondemos à escassez regional de competências e proporcionamos requalificação essencial a desempregados de longa duração. Ao transformar potencial ainda não explorado numa força de trabalho especializada e ao garantir a sua plena integração no mercado ativo, estamos a recuperar o ativo competitivo mais vital de Portugal: as suas pessoas.

Recentemente, o CEO da Airbus Atlantic em Santo Tirso referiu a falta de um pipeline de formação aeronáutica, dificultando a contratação do talento necessário. Faria sentido a Airbus criar uma Escola de Formação?

Estamos profundamente empenhados em todo o ciclo de desenvolvimento do talento português, desde a formação profissional até à engenharia de elevado nível. Este compromisso está materialmente refletido na expansão da nossa unidade Airbus Atlantic em Santo Tirso, que está a ganhar mais 5.500 m² de área industrial.

Para sustentar este aumento de 30% da capacidade e alcançar o objetivo de 600 colaboradores altamente qualificados [hoje são 450] até ao final de 2026, uma colaboração estruturada entre a indústria e os institutos técnicos deixou de ser uma vantagem — é uma necessidade.

Para garantir que este crescimento é sustentável, estamos a reforçar proativamente o pipeline nacional de formação. Prova disso é a parceria da Airbus Atlantic com o CENFIM, focada na produção especializada de aeroestruturas e na requalificação profissional.

A nossa unidade Airbus Atlantic em Santo Tirso, está a ganhar mais 5.500 m² de área industrial. Para sustentar este aumento de 30% da capacidade e alcançar o objetivo de 600 colaboradores altamente qualificados até ao final de 2026, uma colaboração estruturada entre a indústria e os institutos técnicos deixou de ser uma vantagem — é uma necessidade.

Esta colaboração visa criar uma base sólida de talento, abordando tanto a formação inicial como a reconversão profissional. Ao reforçar esta base educativa, contribuímos para assegurar um fluxo sustentável de competências para as nossas operações e para a indústria local, agora e no futuro.

Estamos comprometidos em trabalhar de perto com os stakeholders nacionais para apoiar o desenvolvimento de competências a longo prazo — e não apenas no contexto industrial. A integração da Sevenair na Airbus Flight Academy, ocorrida na semana passada, representa um passo importante no reforço do ecossistema de formação aeronáutica em Portugal, posicionando o país não apenas como hub industrial, mas também como centro de excelência na formação aeronáutica.

Portugal quer renovar a sua frota de caças, os F-16 estão no fim de vida e o consórcio Eurofighter, do qual a Airbus faz parte, é um dos candidatos. Em outubro passado, a Airbus assinou um MoU com o AED Cluster para explorar formas de envolver a indústria nacional na cadeia de fornecimento. Quase cinco meses depois, quais os resultados?

O Memorando de Entendimento assinado no final de outubro do ano passado com o AED Cluster reflete o compromisso da Airbus em explorar a forma como a indústria portuguesa pode integrar-se ainda mais na cadeia de fornecimento do Eurofighter e em áreas tecnológicas associadas.

Com o apoio do AED Cluster, o nosso trabalho tem-se centrado no mapeamento das capacidades industriais nacionais e na identificação de áreas com potencial de cooperação industrial. Estamos atualmente em processo de visitas e reuniões com as empresas e instituições portuguesas identificadas. Até ao momento, estabelecemos contacto com um total de 14 entidades locais, abrangendo diversos setores de atividade, desde campeões nacionais a empresas de média dimensão.

A dimensão do retorno industrial dependerá naturalmente dos detalhes e da decisão final relativa ao programa de substituição da frota de caças em Portugal.

A Airbus, enquanto empresa verdadeiramente europeia, está empenhada em reforçar a indústria aeroespacial e de defesa europeia através de uma colaboração estreita com parceiros portugueses, assegurando que Portugal possa desempenhar um papel cada vez mais relevante no ecossistema europeu.

Portugal possui a base industrial e o talento necessários para ancorar uma parcela ainda maior da cadeia de fornecimento europeia de defesa. Uma eventual expansão futura dependerá de compromissos programáticos de longo prazo e de um alinhamento contínuo com as autoridades nacionais de defesa.

Até agora, a atividade produtiva da Airbus em Portugal tem-se concentrado na aviação comercial. Considerando a necessidade de responder à procura europeia em defesa, Portugal poderia acolher uma fábrica para responder a essa procura de caças, helicópteros…?

As atividades produtivas da Airbus em Portugal estão atualmente concentradas sobretudo na aviação comercial. Essa presença é liderada pela unidade da Airbus Atlantic, onde a produção está dedicada a componentes para aeronaves comerciais. Esta presença estratégica reforça a posição da Airbus como principal fornecedor de aeronaves em Portugal, representando atualmente mais de 80% da frota operada pelas companhias aéreas portuguesas.

Embora a presença industrial local esteja focada na aviação comercial, mantemos uma rede robusta de fornecedores e parceiros portugueses nos setores de Defesa e Espaço para apoiar os programas globais da Airbus.

No entanto, tendo em conta a evolução do contexto de segurança europeu e o reconhecido défice de capacidades de defesa após décadas de subinvestimento, Portugal possui a base industrial e o talento necessários para ancorar uma parcela ainda maior da cadeia de fornecimento europeia de defesa.

Uma eventual expansão futura dependerá de compromissos programáticos de longo prazo e de um alinhamento contínuo com as autoridades nacionais de defesa. Ao priorizar competitividade e parcerias estratégicas, Portugal pode transformar os atuais desafios de segurança num catalisador para o crescimento industrial.

A escolha do Eurofighter seria o sinal de partida? É o sinal de que estão à espera?

Grandes decisões de aquisição em defesa funcionam frequentemente como catalisadores de desenvolvimento industrial. Uma decisão a favor de uma solução europeia como o Eurofighter abriria naturalmente discussões estruturadas sobre participação industrial, transferência de tecnologia e cooperação de longo prazo.

A Airbus está empenhada em trabalhar com Portugal em futuros projetos de defesa, apoiando o desenvolvimento de uma indústria de defesa europeia mais integrada e autónoma. No entanto, o compromisso da Airbus com Portugal vai além de qualquer programa específico e assenta numa parceria construída ao longo de mais de cinco décadas.

Enfrentam a concorrência da Lockheed Martin, da SAAB. Já discutiram este dossiê com o Governo? Quais são as principais preocupações? O que poderá inclinar a decisão a vosso favor?

A Airbus mantém um diálogo regular com as autoridades governamentais, como é prática comum no setor aeroespacial e de defesa, mas não comenta discussões confidenciais. Os decisores avaliam a capacidade operacional, os custos ao longo do ciclo de vida, a interoperabilidade, o retorno industrial e a autonomia estratégica.

Num contexto geopolítico difícil como o atual, marcado pela incerteza e por um reconhecido défice de defesa europeu após décadas de subinvestimento, as soluções europeias contribuem não apenas para a capacidade operacional, mas também para a soberania tecnológica e o reforço da base industrial europeia. A Airbus mantém o seu compromisso de apoiar os Aliados da NATO, ao mesmo tempo que defende uma integração europeia mais forte na área da defesa.

O impasse temporário que afeta um dos pilares do programa não deve comprometer o objetivo mais amplo. O Future Combat Air System representa uma capacidade tecnológica crítica para a Europa, que reforçará significativamente a nossa dissuasão coletiva e autonomia estratégica. É vital que o progresso continue, preservando esta ambição global.

Caso as nações clientes decidam adaptar a estrutura do programa, a Airbus apoiará plenamente uma solução com dois caças, se tal for mandatado.

Internacionalmente, tem-se falado muito do desacordo entre a Alemanha e a França relativamente ao projeto do caça europeu. Essa incerteza pode afetar esta oportunidade de negócio?

Do ponto de vista da Airbus, a necessidade europeia fundamental de um ambicioso e soberano Future Combat Air System mantém-se inalterada. O ambiente estratégico apenas reforçou a necessidade de a Europa investir em capacidades avançadas de combate aéreo de nova geração, que garantam segurança a longo prazo e liderança tecnológica.

Acreditamos firmemente que uma ambição desta escala só pode ser concretizada com sucesso através da cooperação. Uma abordagem verdadeiramente colaborativa é essencial não apenas para partilhar riscos e recursos, mas também para promover interoperabilidade operacional e sinergias ao longo do ciclo de vida entre as forças aéreas europeias.

Ao mesmo tempo, o impasse temporário que afeta um dos pilares do programa não deve comprometer o objetivo mais amplo. O Future Combat Air System representa uma capacidade tecnológica crítica para a Europa, que reforçará significativamente a nossa dissuasão coletiva e autonomia estratégica. É vital que o progresso continue, preservando esta ambição global.

Caso as nações clientes decidam adaptar a estrutura do programa, a Airbus apoiará plenamente uma solução com dois caças, se tal for mandatado. Mantemos o compromisso de desempenhar um papel de liderança num quadro reorganizado do FCAS, desenvolvido através de uma cooperação europeia sólida e alinhado com os interesses de segurança de longo prazo da Europa como um todo.

Há alguma indicação sobre quando começará o processo de decisão em Portugal sobre os caças? Em dezembro, o ministro da Defesa disse que ainda não tinha começado…

A decisão da escolha da futura frota de caças de Portugal é uma matéria soberana do Governo. Como tal, a Airbus não comenta os detalhes deste processo nem deliberações específicas relacionadas com o Governo.

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