“A devastação criada por estas tempestades necessita rapidamente de uma grande ‘bazuca’”

O presidente da Câmara Municipal de Cascais considera o PRR português "absolutamente necessário” para recuperar as infraestruturas e apoiar os municípios com menor capacidade orçamental.

“Uma boa ideia” e “absolutamente necessário”. É assim que o presidente da Câmara Municipal de Cascais, Nuno Piteira Lopes, avalia o anúncio do primeiro-ministro de lançar um Programa de Recuperação e Resiliência nacional para recuperar o país após a calamidade.

“A devastação criada por estas tempestades no nosso país, nas infraestruturas, muitas delas críticas, necessita rapidamente de uma grande bazuca“, reforça o edil do PSD, eleito nas autárquicas de outubro. Nuno Piteira Lopes salienta que “o pacote vai ser fundamental, (…) dado que a capacidade dos municípios também não é a mesma ao longo de todo o país”.

Cascais é uma das cidades portuguesas que se destacam no panorama nacional das smartcities. Está dotada de um Centro de Comando e Controlo, “o coração de tudo aquilo que é a atividade do município”, onde são recolhidos dados “que permitem, em tempo real, estar a acompanhar aquilo que é a situação ao segundo”, afirma Nuno Piteira Lopes ao “À Prova de Futuro”, um podcast do ECO em parceira com a Meo Empresas.

A recolha e tratamento de dados permite também preparar melhor as cidades para fenómenos climáticos extremos. “Isto permite adaptar aquilo que é o investimento e o funcionamento do município para estarmos cada vez mais preparados e sermos um território mais resiliente”, salienta o autarca.

Tivemos nas últimas semanas uma sucessão de tempestades de muito forte intensidade. Como é que o concelho de Cascais foi afetado?

Cascais foi, à semelhança de todo o território nacional, varrido por um comboio de tempestades que foi mais forte na zona centro do país, mas que ainda assim também teve alguns efeitos negativos naquilo que é o nosso território. Tivemos algumas quedas de árvore, alguns deslizamentos de terras, algumas vias que também não ficaram nas melhores condições, nomeadamente a rede viária, algumas inundações pontuais. Ainda assim sempre com uma grande prevenção, uma grande preocupação, um grande planeamento que ajudaram, julgo eu, a mostrar mais uma vez que a Vila de Cascais, o município de Cascais, é resiliente e está preparado para este novo fenómeno, onde cada vez com maior frequência chove com grande intensidade durante curtos períodos.

Já tem alguma estimativa dos custos que poderão estar envolvidos nas reparações que vão ser necessárias?

Nós, neste momento, estamos focados naquilo que é a resolução rápida dos problemas que têm surgido. Ainda não terminou este comboio de tempestades, ainda para hoje à noite e para amanhã [sexta e sábado] se prevê alguma precipitação e por isso só depois de concluído este fenómeno é que iremos fazer esse trabalho. Neste momento, já sabemos onde temos que atuar, nomeadamente na rede viária, no paredão de Cascais, que são os principais pontos que foram afetados, mas temos que também nos preparar para fazer outro tipo de investimentos mais avultados, nomeadamente nas ribeiras, nas bacias de retenção, para que seja reduzido o risco para quando acontecem estes fenómenos.

A devastação que estas tempestades criaram no nosso país, nas infraestruturas, muitas delas críticas, necessitam rapidamente de uma grande bazuca para que seja possível recuperarmos todas estas infraestruturas e restabelecermos a normalidade do dia-a-dia, da vida das pessoas que ficaram afetadas.

Já agora, o Primeiro-Ministro anunciou ontem a intenção de criar uma espécie de PRR nacional para ajudar na resposta a esta situação, nomeadamente em relação às infraestruturas críticas. Parece-lhe uma boa ideia arranjar aqui um fundo mais robusto que permita também apoiar os municípios neste esforço?

Não só penso que é uma boa ideia, como penso que é absolutamente necessário. De facto, A devastação criada por estas tempestades no nosso país, nas infraestruturas, muitas delas críticas, necessita rapidamente de uma grande bazuca, para que seja possível recuperarmos todas estas infraestruturas e restabelecermos a normalidade do dia-a-dia, da vida das pessoas que ficaram afetadas. Quanto mais rápido conseguirmos voltar à normalidade, melhor para o país. Esse pacote de ajuda vai ser fundamental para que os municípios possam efetuar esses investimentos, dado que a capacidade dos municípios também não é a mesma ao longo de todo o país.

Este episódio do À Prova de Futuro é sobre cidades inteligentes. De que forma é que uma cidade mais inteligente, mais capaz de recolher dados e de os tratar, pode estar mais preparada para responder a situações deste género?

Temos investido muito naquilo que nós chamamos o Centro de Comando e Controlo do município de Cascais, que é uma área que nós temos onde é feita toda a recolha, monitorização, planeamento, gestão daquilo que é o dia-a-dia do município de Cascais. É neste centro de comando e controle que funciona o coração de tudo aquilo que é a atividade do município, onde são recolhidos os dados, nos mais diversos verticais, mas que permitem, em tempo real, estar a acompanhar aquilo que é a situação ao segundo. Só acompanhando o que se passa no território, nas mais diversas áreas, é possível também atuar e fazer uma gestão eficaz daquilo que são as equipas necessárias e daquilo que é a afetação de meios necessários para resolver os problemas que vão acontecendo. Com essa recolha de informação, com essa gestão diária e essa monitorização, tem sido possível dar uma resposta rápida, uma resposta eficaz e uma resposta eficiente que é, no final do dia, aquilo que os municípios também esperam de uma autarquia.

No Centro de Comando e Controlo nós monitorizamos tudo o que tem a ver, por exemplo, com os caudais das ribeiras, com ruído, com tráfego, com sinalização e semaforização do município, com infraestruturas críticas, como a rede viária, a infraestrutura elétrica ou a infraestrutura de distribuição de água.

A utilização das ferramentas das cidades mais inteligentes vai permitir que sejam mais resilientes a este tipo de fenómenos?

Penso que sim. No Centro de Comando e Controlo nós monitorizamos tudo o que tem a ver, por exemplo, com os caudais das ribeiras, com ruído, com tráfego, com sinalização e semaforização do município, com infraestruturas críticas, como a rede viária, a infraestrutura elétrica ou a infraestrutura de distribuição de água. Só com a monitorização de todos esses dados em tempo real é possível nós acumularmos conhecimento, acumularmos dados, acumularmos histórico, para podermos fazer planeamento de acordo com aquilo que é a informação que temos do passado, daquilo que são as previsões para o dia seguinte ou para a semana seguinte. Isto permite adaptar aquilo que é o investimento e o funcionamento do município para estarmos cada vez mais preparados e sermos um território mais resiliente.

Nuno Piteira Lopes, presidente da Câmara Municipal de Cascais, em entrevista ao podcast À Pova de Futuro.Luís Ribeiro

Cascais foi precursor em Portugal no lançamento de uma base de dados integrada e georreferenciada, o GeoCascais, que foi lançado em 2007. A plataforma tem vindo a ser desenvolvida e em 2024 recebeu mesmo um prémio de transformação digital. Como é que este serviço tem beneficiado os cidadãos e a gestão do município?

O Geocascais, na prática, veio resolver um problema grave que afeta todo o nosso país e que tem a ver com burocracia. O Geocascais é uma plataforma de gestão do território, de planeamento do território, de licenciamento urbanístico, onde tudo o que acontece no território está disponível para os serviços e está disponível para os munícipes. Qualquer pessoa consegue ter acesso aos processos de urbanismo, ao Plano Diretor Municipal, consegue simular através de 3D aquilo que pode ou não pode fazer, por exemplo, em determinado território. Acima de tudo, permitiu desmaterializar e tornar transparentes tudo o que são processos de urbanismo.

Conseguimos saber, desde que entra um processo até que ele é despachado, com quem é que esteve, quantos dias esteve, se está numa entidade externa, se está na Câmara, com que funcionário é que está na Câmara. O munícipe, o cliente, pode acompanhar todo esse processo. Esta transparência permite eliminar aquilo que é uma grande doença nacional, que é a inveja, que é a suspeita, que é a desconfiança.

Consegue-me dar outros exemplos de como a recolha de dados está a ser usada em Cascais?

Por exemplo, a nível da mobilidade, o município de Cascais emite todos os dias ocupações de via pública, ou por motivo de uma obra, ou por motivo de uma ligação de gás ou de ligação de água. Nós sabemos a priori que no dia ‘x’, das tantas às tantas horas, vai haver um corte de via. Toda esta autorização, do ponto de vista tecnológico, está interligada com todo o nosso sistema de controle. Automaticamente, nas plataformas do Waze, do Google Maps, do próprio Geocascais, a partir do momento em que essa licença é emitida, gera um alerta para que essas plataformas, naquele dia, possam informar os automobilistas, a rede de transportes públicos, os táxis, os ubers, de que vai haver um corte naquela via e têm que seguir por um caminho alternativo. Nestas últimas semanas, tivemos no Centro de Comando e Controlo uma linha de emergência aberta 24 horas por dia, para os munícipes reportarem as ocorrências.

Qualquer munícipe através da aplicação do Fix Cascais consegue sinalizar que está sem iluminação pública no seu bairro e, automaticamente, com um processo tecnológico, essa reclamação vai direta ao Centro de Comando e Controlo e vai direta à E-Redes.

O município tem também uma aplicação para o reporte de ocorrências, a Fix Cascais.

Se existe uma falha na iluminação pública, qualquer munícipe através da aplicação do Fix Cascais consegue sinalizar que está sem iluminação pública no seu bairro e, automaticamente, com um processo tecnológico, essa reclamação vai direta ao Centro de Comando e Controlo e vai direta à E-Redes. Entre o munícipe ter que enviar um e-mail para os serviços do município, esse e-mail ir para o respetivo serviço que trata dessas reclamações, depois alguém enviar esse e-mail para a E-Redes, demorava uma semana e meia. Atualmente esse processo é automático. A resolução do problema é muito mais rápida. O foco é sempre no serviço ao cidadão, no serviço ao munícipe. No final do dia, aquilo que é o nosso grande objetivo é tornar Cascais na capital da qualidade de vida em Portugal.

Como é que a inteligência artificial já é usada para dar inteligência a estes dados todos que são recolhidos?

A inteligência artificial é fundamental e tem sido, da parte do município de Cascais, uma aposta também muito grande. No Centro de Comando e Controlo, na linha de atendimento ao munícipe, recebemos por mês uma média de 8 mil pedidos, por exemplo, para recolha de cortes de jardim. Tinha que o munícipe telefonar, estar um colega nosso do outro lado da linha a registar a morada do pedido, para depois poder enviar para a empresa que faz esse serviço de recolha de espaços verdes. Hoje, com a inteligência artificial, é possível ter esse serviço 24 horas por dia, através de um agente de inteligência artificial, em que o munícipe já não precisa de estar a falar com o operador para conseguir fazer o seu pedido.

Nuno Piteira Lopes, presidente da Câmara Municipal de Cascais, em entrevista ao podcast À Pova de Futuro.Luís Ribeiro

Com que projeto a Câmara de Cascais se candidatou aos fundos do PRR para as Plataformas de Gestão Urbana?

O projeto, em parceria com a Deloitte, chama-se Synergy. O Synergy inclui numa única plataforma tudo o que são serviços de mobilidade, de ambiente, de urbanismo, de proteção civil, do litoral de Cascais. Toda a informação recolhida por cada um destes verticais está embebida no Sinergy, que é a plataforma de gestão do município de Cascais. Quando avaria um semáforo, quando sai um carro dos bombeiros, da Polícia Municipal, as equipas da Câmara, os carros de recolha de resíduos sólidos urbanos, nós conseguirmos ter uma visão daquilo que se passa no dia-a-dia no território.

Isto permite aumentar a eficiência com que o município é gerido, permite também reduzir custos?

Eu costumo dizer que se resume numa frase que é cuidar dos munícipes, de todos aqueles que trabalham, que estudam, que nos visitam, cuidar das pessoas. Esse é o principal objetivo do município de Cascais. E a tecnologia ajuda muito a que todas as decisões, seja de investimento, seja do dia-a-dia, com base no histórico, se tornem muito mais eficientes.

Desde Mafra, Sintra, Cascais, Oeiras, Lisboa, toda esta cintura litoral da área metropolitana de Lisboa tem a capacidade de ter neste momento um alinhamento político que eu penso que irá permitir fomentar esta integração [de dados].

Já existe algum tipo de coordenação ou integração de dados ou de plataformas com outros municípios?

É um passo que estamos agora a dar. Penso que o clima político na área metropolitana de Lisboa também ajuda neste momento a que esse caminho possa ser reforçado, porque ele já foi iniciado. Não nos podemos esquecer que temos um Parque Natural Sintra-Cascais, que metade é de Sintra e a outra metade é de Cascais. É importante haver uma integração dos dados de Sintra, no que diz respeito à pluviosidade, às ribeiras, às linhas de água, para podermos também gerir do lado de Cascais aquilo que é a água que vem de Sintra. A nível da mobilidade, da gestão de tráfego, temos a A16, que liga Sintra ao Conselho de Cascais, e depois temos também Cascais ligado a Oeiras, onde também existe uma integração a nível dos transportes públicos, a nível do litoral. Desde Mafra, Sintra, Cascais, Oeiras, Lisboa, toda esta cintura litoral da área metropolitana de Lisboa tem a capacidade de ter neste momento um alinhamento político que eu penso que irá permitir fomentar esta integração [de dados].

Não é possível gerir cascais de costas voltadas para Sintra ou de costas voltadas para Oeiras. O PDM de Cascais não pode estar isolado daquilo que é o PDM de Oeiras. A rede de transportes, a rede viária de Cascais não pode estar isolada daquilo que está a ser previsto em Sintra, daquilo que está a ser previsto em Oeiras. Esta integração é fundamental e os presidentes de câmara estão muito focados nela, nos planos intermunicipais, que têm de ser revistos e atualizados, para podermos ter uma área metropolitana de Lisboa forte, coesa e a funcionar.

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