Toda a atividade comercial mundial de defesa da Embraer é coordenada a partir de Lisboa, lembra João Pedro Taborda, vice-presidente de government affairs Europa & Ásia Central da Embraer Portugal.
A Europa quer a sua autonomia estratégica, mas é importante manter a cooperação com países terceiros, de forma muito seletiva: o que é que a Europa é capaz de fazer e tem competência para fazer e onde é que, de forma seletiva, deve ter as suas parcerias”, defende João Pedro Taborda, vice-presidente government affairs Europa & Ásia Central da Embraer Portugal.
A empresa brasileira já investiu mais de 500 milhões de euros em Portugal, sendo acionista maioritário (65%) na OGMA, e prepara um novo investimento no país: uma fábrica em Beja, para a produção dos Super Tucano. Sobre o novo projeto não revela grandes detalhes — “estamos a trabalhar” —, mas adianta que a OGMA deverá estar envolvida na manutenção dos KC-390 Millennium entregues à Força Aérea Húngara. “O contrato de manutenção com a Hungria poderá, sim, incluir trabalho na OGMA”, diz em entrevista ao ECO/eRadar, à margem do debate “Indústrias de Segurança e Defesa no novo contexto Geoestratégico”, promovido pela Proforum.
A relação da Embraer com Portugal é bastante longa, já investiram mais de 500 milhões de euros no país. Recentemente, foi anunciado um novo investimento da Embraer, uma nova fábrica em Beja para os Super Tucano.
Não tenho muito a adiantar neste momento, isso foi um anúncio recente e estamos a trabalhar nisso.
Ainda não há data de arranque, valores de investimento, potenciais postos de trabalho a serem criados…
Assinámos uma carta de intenção, a 17 de dezembro, quando fizemos a entrega dos cinco Super Tucano à Força Aérea Portuguesa — um ano e um dia depois de assinar o contrato, entregámos os aviões e foi nessa altura que se falou [da nova fábrica]. Entretanto, entra o ano… Estamos a trabalhar.
Portugal é o primeiro país NATO em que a Força Aérea já tem os vossos aviões. É uma espécie de ponta de lança para chegar a outras Forças Aéreas europeias?
Tem sido, claro. Temos em Lisboa o nosso vice-presidente global de vendas da defesa e temos o vice-presidente regional para a África e a Europa, dois dos três administradores da empresa. Toda a atividade comercial mundial de defesa é coordenada a partir de Lisboa, as vendas para a Europa, para a África e, claro, sempre um apoio fantástico da Força Aérea Portuguesa. Eles falam também com os seus pares e a partir daí temos feito negócios no KC-390 com a Hungria, com a República Checa, com a Holanda, com a Áustria, com a Suécia e tudo a partir de Portugal.
A Europa quer a sua autonomia estratégica, mas é importante manter a cooperação com países terceiros, de forma muito seletiva: o que é que a Europa é capaz de fazer e tem competência para fazer e onde é que, de forma seletiva, deve ter as suas parcerias.
E depois como se conjuga isso com a parte da indústria? São acionistas maioritários da OGMA, que produz para os KC-390.
A OGMA produz partes importantes [do KC-390]. Portanto, participou do desenvolvimento do avião, no caso do KC junto com o CEiiA e outros fornecedores portugueses. Participou no desenvolvimento, participa no fabrico, todos os KC que são entregues têm uma parte importante da fuselagem do avião feita em Alverca. E depois a OGMA vai ter e continuará a ter um papel importante ao nível da manutenção. Portanto, a presença em Portugal e a OGMA, nesse caso, atravessa todas as fases, desde o início do desenvolvimento do avião até à manutenção. E claro que algumas Forças Aéreas poderão decidir fazer a manutenção aqui em Portugal.
A propósito da entrega dessas aeronaves à Força Aérea Húngara, foi referido que iria ser feita a prestação de serviços de manutenção de suporte logístico e técnico usando a “estrutura europeia” da Embraer. A OGMA está envolvida?
Nós assinámos um contrato de manutenção com a Força Aérea Húngara, definimos uma solução técnica com eles. Alguns destes temas são mais reservados, mas sim, isso envolve sempre a nossa equipa na Europa e perceber qual é a melhor solução para os clientes.
Mas envolve a OGMA?
O contrato de manutenção com a Hungria poderá, sim, incluir trabalho na OGMA.

Alertou que no seu esforço de rearmamento a Europa não deve adotar uma posição isolacionista, que é preciso parcerias e já agora que não se esqueçam do Atlântico Sul. Acha que esse esforço de parcerias está a ser feito?
Na dimensão portuguesa, Portugal tem colaborado muito com o Atlântico Sul. O nosso caso enquanto Embraer é um exemplo de como é que tem sido essa cooperação. O meu comentário aí não é tanto para Portugal. Portugal tem cooperado muito com o Atlântico Sul, a própria história da OGMA mostra também que há cooperação com o Atlântico Norte, e não só. O ponto é em relação à Europa. Portanto, a Europa quer a sua autonomia estratégica, mas é importante manter a cooperação com países terceiros, de forma muito seletiva: o que é que a Europa é capaz de fazer e tem competência para fazer e onde é que, de forma seletiva, deve ter as suas parcerias.
E nós aí, claro, estamos muito interessados e estamos a fazer um trabalho para trazer esse valor para a Europa, sobretudo através de Portugal.
O facto de nós estarmos a fazer este trabalho na Europa também tem chamado a atenção de outras empresas do Atlântico Sul e outras também já fazem o trabalho delas, não se inspiraram connosco, estão a tratar da vida delas e fizeram. Mas nós ficamos sempre satisfeitos quando vemos missões organizadas pelo governo brasileiro com indústrias de defesa virem mais empresas connosco do Atlântico Sul para a Europa.
E acha que pode haver uma oportunidade para o Atlântico Sul, tendo em conta que as relações com o Atlântico Norte já tiveram melhores dias?
Eu não comento em relação às relações com o Atlântico Norte, mas em relação ao Atlântico Sul. Nós temos uma empresa de sistemas no Brasil, a Atech, que também tem uma presença hoje aqui em Lisboa, precisamente para explorar oportunidades noutras áreas. Temos um trabalho muito integrado com o governo brasileiro, realizamos missões à Europa com indústrias de defesa do Brasil, enquanto principal exportador de defesa no Brasil, então nós vemos isso acontecer. Há um esforço também do governo brasileiro, bilateral, muito integrado também, e em muitos países alinhados com Portugal.
O facto de nós estarmos a fazer este trabalho na Europa também tem chamado a atenção de outras empresas do Atlântico Sul e outras também já fazem o trabalho delas, não se inspiraram connosco, estão a tratar da vida delas e fizeram. Mas nós ficamos sempre satisfeitos quando vemos missões organizadas pelo governo brasileiro com indústrias de defesa virem mais empresas connosco do Atlântico Sul para a Europa.
Tem havido muita discussão em torno de como a indústria portuguesa pode ser integrada na cadeia de fornecimento de fabricantes, como é o caso da Embraer. Além da OGMA, que outras iniciativas têm tomado para integrar a indústria, o talento português?
Um bom exemplo é a participação com empresas portuguesas em projetos europeus, financiados pela Comissão Europeia. Começámos esse trabalho em 2005, até com a própria Skysoft, hoje a GMV, e nós, nesses projetos europeus, fazemos uma coisa que é muito apreciada na Europa, que é, envolvemos engenheiros portugueses, engenheiros da nossa empresa na Holanda e engenheiros do Brasil. Fazemos isso há 20 anos.
É um exemplo de como é que trazemos essas empresas para mais perto de nós e depois, algumas delas, tornam-se nossos fornecedores. Utilizamos esses instrumentos de política pública na Europa para ter mais europeus como nossos fornecedores e para construir essa relação.
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