Sindhu Gangadharan, líder da SAP Labs India, aborda a "transformação fenomenal" que o país asiático tem enfrentado. Ainda há margem para crescer "se continuar a fazer as coisas certas", defende.
Numa altura em que se esperam crescimentos anémicos no Ocidente, ou mesmo recessões, a economia indiana, a quinta maior do mundo, continua a avançar a todo o gás, tendo crescido 7,6% em termos homólogos no terceiro trimestre, mostram os dados publicados recentemente — isto depois de uma expansão de 6,1% até março e de 7,8% entre abril e junho. A Índia tem enfrentado uma “transformação fenomenal” nos últimos anos e a tecnologia tem dado um contributo importante.
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Quem o diz é Sindhu Gangadharan, que lidera a SAP Labs India, o segundo maior polo de investigação e desenvolvimento da SAP, a maior empresa tecnológica europeia. É também vice-presidente da Nascomm, uma associação sem fins lucrativos que representa o setor tecnológico na Índia. No início de novembro, numa entrevista ao ECO feita em Bangalore, a gestora indiana explicou que o crescente acesso a smartphones no país tem permitido democratizar a tecnologia e o comércio eletrónico, abrindo horizontes aos cidadãos, independentemente do sítio onde estão.
“Esse é o tipo de mudanças na tecnologia que realmente mudam a equação”, afirmou a responsável, dando como exemplo a iniciativa Open Network for Digital Commerce, que visa permitir que um agricultor numa zona recôndita da Índia consiga vender os seus produtos num mercado mais alargado. É por isso que acredita que a Índia pode conseguir manter crescimentos económicos robustos “se continuar a fazer as coisas certas”, como, por exemplo, melhorar as infraestruturas e as estradas. “Permitir que as pessoas se movam é também muito importante e também uma parte muito importante dessa equação”, defendeu.
A Índia é um dos países que poderão beneficiar do afastamento das empresas ocidentais face à China. E Gangadharan acredita que o país está bem posicionado para aproveitar essa oportunidade: “Sim, muitas organizações estão a olhar para estratégias de mitigação de riscos ou a garantir que têm sempre a possibilidade de equilibrar os seus investimentos. E a Índia é claramente vista como muito forte, por ser relativamente neutra, até do ponto de vista geopolítico”, defendeu.

A executiva disse ainda que “há investimentos a serem feitos”, segundo as conversas que tem tido “com vários stakeholders em várias indústrias”. Recentemente, a edição em papel do jornal financeiro indiano The Economic Times noticiava que o país é um “íman de investimento”, e os dados oficiais mostram isso: atraiu 953,14 mil milhões de dólares de Investimento Direto Estrangeiro nos 23 anos até setembro de 2023, dos quais 65% apenas nos últimos nove.
A contribuir para a transformação da economia indiana está também o aumento da procura interna ao longo da última década: “Se olharmos para os números, 67% de todas as transações na Índia são transações digitais. É inacreditável, se pensarmos bem. E isso aconteceu literalmente nos últimos anos. Penso que é absolutamente, sem dúvida, uma vantagem que qualquer indústria pode aproveitar”, rematou.
Muitas organizações estão a olhar para estratégias de mitigação de riscos ou a garantir que têm sempre a possibilidade de equilibrar os seus investimentos. E a Índia é claramente vista como muito forte, por ser relativamente neutra, até do ponto de vista geopolítico.
Índia quer ser “capital da inteligência artificial”
Para mostrar o compromisso da SAP com o mercado indiano, em novembro, a multinacional de origem alemã promoveu o seu evento anual de tecnologia em Bangalore, a terceira maior cidade da Índia, com 14 milhões de habitantes. À margem do evento, Gangadharan mostrou-se convicta de que a Índia tem tudo o que é preciso para ser a capital da inteligência artificial, onde a SAP India, a subsidiária que mais cresce no grupo, que conta já com mais de 15 mil trabalhadores e que gera um quarto do total de patentes submetidas pelo grupo, também tem um papel a desempenhar.
É uma opinião baseada em factos, garantiu: “16% do talento de inteligência artificial está na Índia, a maior percentagem em comparação com o resto do mundo. Além disso, a Índia é um dos três países que produzem o maior número de graduados em STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) todos os anos”, detalhou. Gangadharan lembrou ainda a “vontade de aprender” que reside nos indianos, sobretudo na tecnologia. “Somos os primeiros no que toca a penetração de competências de inteligência artificial e os quintos quando falamos de investigação em inteligência artificial. Tudo isto contribui para a Índia ser a capital da inteligência artificial”, asseverou.

Tal como se verificou em Portugal, a Índia foi capaz de atrair investimento de grandes multinacionais pelo facto de a mão-de-obra ser mais barata, apesar do nível das qualificações. Mas Gangadharan assegurou que já não é assim: “Há dez anos, a conversa era mais sobre o custo: ‘Vamos para a Índia, vamos expandir [o negócio].’ Hoje, a conversa não é assim, porque, atualmente, se quisermos o melhor talento, temos de pagar por ele. Essa é uma alteração muito importante no discurso. Posso falar pela SAP, não estamos aqui por ser mais barato. Talvez tenhamos começado assim, mas agora é mesmo por causa desse poder de inovação da organização. E isso não é só o caso com a SAP, está a acontecer em todo o lado neste momento.”
Outra vantagem que a Índia tem é o volume de dados que produz: “Tendo em conta que 67% das transações são digitais, estamos a falar de quantidades astronómicas de dados. Um dos principais elementos quando falamos de inteligência artificial são os dados. E eles existem”, reiterou, apontando o potencial dessa informação para treinar modelos em áreas como Educação, Saúde, Retalho e muitos outros setores.
Tudo isto são fatores que poderão continuar a transformar a economia indiana nos próximos anos, principalmente numa altura em que o mundo está de olhos postos no potencial da inteligência artificial, mas enfrenta desafios importantes. A somar a isso, a guerra na Ucrânia e a escalada da guerra no Médio Oriente ameaçam com novos reajustamentos nos blocos geopolíticos — e, perante isso, a Índia tem tentado equilibrar-se no fio da navalha, aproximando-se dos EUA, por um lado, mas continuando a comprar grandes quantidades de petróleo mais barato à Rússia.
O ECO viajou para Bangalore a convite da SAP Portugal.
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“A Índia é claramente vista como muito forte” na atração de investimento
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