Governo aprovou reposição do acesso ao ensino superior com apenas um exame. É uma medida positiva, mas "peca por tardia", sublinha diretor do Piaget, que defende que acesso deve ser repensado.
Doze anos a estudar para o acesso ao ensino superior ser, afinal, decidido nas poucas horas que os estudantes passam em exame. “Acaba por ser um bocadinho redutor de todas as competências que foram adquiridas”, frisa, em entrevista ao ECO, o diretor do Piaget, Rui Tomás, que defende, por isso, que é preciso repensar o modo como abre a porta a prosseguir estudos em Portugal.
Daí que o responsável veja como positiva a decisão tomada no final de janeiro pelo Governo, de voltar a permitir às instituições fixarem entre uma e três provas de acesso, em vez de se impor um mínimo de dois exames. Rui Tomás argumenta mesmo que tal medida não põe em risco a qualidade dos alunos que chegam ao ensino superior.
Já sobre a adoção da inteligência artificial pelas universidades — um tema que se tem tornado particularmente polémico, depois de vários professores terem assinado um manifesto contra essa tecnologia –, o diretor do Piaget atira que é como tentar parar o vento com as mãos. Antes, é preciso aprender e ensinar essas ferramentas “com responsabilidade e espírito crítico“.
Que retrato faz do ensino superior português, neste momento?
O ensino superior em Portugal, neste momento, está numa fase de transição. Os desafios que se colocam, nomeadamente, com as novas profissões acabam por forçar que seja capaz de se adaptar. O ensino superior é sempre um bocadinho emancipatório. Cabe-lhe esta capacidade de se reinventar. Paralelamente, temos várias alterações, umas de caráter legislativo, outras relacionadas com aquilo que é o padrão da sociedade portuguesa em termos de natalidade.
Disse que o ensino superior é emancipatório. O ensino está a conseguir adaptar-se, em antecipação, às novas profissões e às novas competências que vão ser exigidas nesse mundo de trabalho transformado?
Uns sim, outros não. O Piaget está atento àquilo que são as necessidades e tenta ter uma dinâmica de formação e de se reinventar precisamente para isso. A universidade é mais do que o local onde se ensina. É também o local onde se pensa, onde se tem o desenvolvimento das competências críticas e, por isso, é uma espécie de laboratório social, onde os jovens percebem aquilo que os espera quando saírem. O ensino superior em Portugal mudou nos últimos anos, porque a sociedade mudou e aquilo que o mercado de trabalho pede hoje em dia é muito diferente do que pedia há uns anos. Cabe às universidades, nesta responsabilidade social que têm, mas também nesta capacidade antecipatória, olhar para os seus programas e trazer algum fator de inovação.
A função principal de uma universidade é formar, mas para um contexto, um propósito, algo real.
No caso concreto do Piaget, como é que têm trabalhado esta proximidade ao mercado de trabalho para perceber o que está a mudar?
No Piaget, esta ligação é orgânica. O Piaget sempre teve este olhar sobre a importância de estar ligado ao tecido social e empresarial, às instituições e ao Estado. A função principal de uma universidade é formar, mas para um contexto, um propósito, algo real. Por isso, todos os nossos programas de formação estão, desde o início, muito ancorados em parcerias e estágios. Quando o ambiente à volta muda, também mudamos, crescemos e vamos reinventando.
Diz que as universidades têm de se reinventar. Como é que o Piaget está a lidar com a inteligência artificial?
Negar a inteligência artificial é tentar parar o vento com as mãos. Não se para. A inteligência artificial é, de facto, transformadora. O que tentamos é que os nossos estudantes e a nossa comunidade docente a utilizem com responsabilidade e sentido crítico. A inteligência artificial é uma ferramenta de auxílio poderosa, mas não substitui o talento humano. Esta é a mensagem que tem sempre de ser passada a todos.
Numa sala de aula equipada com inteligência artificial, que função tem um professor humano?
Já há muito tempo que ser professor não é ser um repositório do conhecimento e transmitir. A inteligência artificial só veio tornar ainda mais redundante essa parte do caráter expositivo. O que é que cabe aos docentes? É ser alguém que desperta o sentido crítico dos estudantes e que promove a reflexão. O papel de um docente hoje é muito mais transformador.

Isso implica uma requalificação dos professores para tirarem pleno partido da inteligência artificial?
Um professor que dedica a sua aula a expor, durante 50 minutos, um conjunto de PowerPoints não vai colher absolutamente nada, porque o aluno vai procurar e haverá vídeos de gurus e professores muito melhores, muito mais apelativos e mais interessantes. Esta necessidade já existia antes, não vem com a Inteligência Artificial. Formar os professores ao longo da vida é absolutamente essencial. Para ser professor do ensino básico ou secundário, tem que se fazer uma formação pedagógica e ter um curso especial. Para ser professor do ensino superior, não é preciso nada. É chegar lá. Não é correto que se considere que, só porque tem conhecimento de alguma matéria, o professor vai ser um bom docente e um agente de transformação daqueles estudantes. O que o Piaget faz é estar atento à importância de continuar a formar os professores do ensino superior em matérias como a pedagogia. Já o fazíamos antes. Agora, reforçamos.
Portanto, proibir a Inteligência Artificial no ensino superior – como foi defendido num manifesto recente – não faz sentido.
Onde é que estaríamos hoje se algumas das coisas que foram contestadas há 100 anos tivessem sido efetivamente proibidas… O crescimento e o desenvolvimento trazem isto.
Falou há pouco em demografia. Olhemos para a evolução do número de inscritos. Neste ano letivo, houve um recuo já considerável desse número. É apenas uma questão demográfica ou há outros fatores a afastar os jovens do ensino superior?
O recuo deste ano resulta de fatores que são, de alguma forma, externos à vontade dos estudantes: a alteração das regras de acesso e, depois, veio o fenómeno das duas provas de ingresso. O que é importante é que os jovens cheguem. É importante que eles consigam entrar e que consigam escolher os seus caminhos. Criar garrotes no fim de um ciclo, que é o ensino secundário, na minha opinião, é contraproducente.
O ensino superior não tem de ser algo de difícil acesso, porque quem cumpriu a escolaridade obrigatória, estudou 12 anos e cumpriu todas as orientações e todos os paradigmas, estará apto, enquanto adulto, a continuar o seu ciclo de estudos.
Sobre o tal fenómeno das duas provas, o Governo aprovou recentemente a reposição da regra que permite às escolas pedir entre um e três exames. Parece-lhe uma boa medida?
É uma boa medida. Peca por tardia, mas é melhor corrigir do que não corrigir. Mas tem de ser pensado o modelo de acesso ao ensino superior.
De que modo?
O ensino superior não tem de ser algo de difícil acesso, porque quem cumpriu a escolaridade obrigatória, estudou 12 anos e cumpriu todas as orientações e todos os paradigmas, estará apto, enquanto adulto, a continuar o seu ciclo de estudos. Temos uma divergência enorme entre o que é o ensino não superior e o ensino superior, com este último a posicionar-se como sendo um grau de especialização só para alguns. Na verdade, não é, porque toda a gente tem que ter essa oportunidade. Concluir com sucesso e chegar ao mercado de trabalho, cabe a cada universidade ter as suas exigências. Tem de haver padrões mínimos de entrada, com certeza…
Facilitar o acesso?
Não digo facilitar. Digo olhar para o acesso, tendo em conta qual é o perfil de formação que damos na escola.

Mas substituir a entrada com, pelo menos, dois exames por uma entrada com apenas um não é de alguma forma baixar a fasquia, e pôr em causa a qualidade dos estudantes que chegam ao ensino superior?
De todo. Por que é que duas provas traria mais qualidade a quem entra? Então, podíamos pôr três ou quatro. O céu seria o limite. Há vários critérios de entrada. Temos um concurso absolutamente tradicionalista e baseado só na aprendizagem do exame, ignorando o percurso de 12 anos que o jovem fez, que deveria ser todo ele contabilizado. Cada instituição poderia escolher os seus critérios para admitir os estudantes. Focamos no exame, no momento, naquilo que vai fazer naquele dia, que dita tudo. E, depois, escolhemos que, afinal, não é um, são dois. Há muitas instituições que dizem que não são dois, são três. Acaba por ser um bocadinho redutor de todas as competências que foram adquiridas, que depois sejam desvalorizadas por uma prova de uma hora e meia. Nem acho que ser uma prova ou duas que vá distinguir um estudante na sua capacidade.
Disse que o acesso ao ensino superior deveria considerar os 12 anos de estudos. Outros países fazem isto melhor do que nós?
Em alguns países, cada instituição fixa as condições que exige para o estudante aceder. Há modelos um bocadinho mais abertos – os anglo-saxónicos e americanos –, que podem ter em conta, por exemplo, a média de todo o seu percurso, uma entrevista e até uma prova de competências mais transversais.
No Piaget, vão voltar a pedir apenas um exame no acesso aos vossos cursos?
O plano ainda está a ser fechado. Há ciclos de estudo em que não achamos que se justifique pedir mais do que um exame, e há outros em que vamos manter as duas provas, sim. Esta legislação que foi alterada não é totalmente aberta. As instituições não podem escolher qual é a prova que querem, e há cursos que estão excluídos desta legislação.
Há estudantes que se candidataram, entraram, pagaram e, depois, ficam à espera, à espera, à espera. O tempo passou e perderam esta oportunidade.
Um outro tema que tem sido muito importante no ensino superior em Portugal tem sido a internacionalização. Em que ponto está o Piaget neste processo?
O Piaget, nos seus quase 50 anos de existência, cerca de metade deles foram construídos já em internacionalização, através dos nossos projetos, nomeadamente, em África. A internacionalização que agora é uma bandeira de muitas instituições sempre foi muito natural no Piaget. Há muito tempo que temos estudantes de outras nacionalidades.
No caso dos jovens que vêm de fora da União Europeia, têm sentido algum impacto das dificuldades na obtenção de vistos na atração desse talento?
Sim. É promovida a internacionalização. As universidades são mobilizadas e mobilizam-se para conseguir. Mas, depois, a política de concessão de vistos que aplicamos não está compaginada com aquilo que é esta vontade. Há estudantes que se candidataram, entraram, pagaram e, depois, ficam à espera, à espera, à espera. O tempo passou e perderam esta oportunidade.
Há estudantes que desistem?
Alguns nem chegam a vir precisamente por isso, por causa da questão dos vistos. Os vistos não estão bem oleados.
Tem sentido alguma mudança no último ano, tendo em conta que este Governo tem uma política diferente em relação às migrações?
Não. Tudo igual.
Seria possível facilitar esse processo ao mesmo tempo que se garantia a segurança e todos os outros pontos que o Governo tem feito questão de frisar?
Seria possível ser mais eficaz. O que há são procedimentos que param não se sabe onde. Às vezes, passam-se meses e não há uma resposta da parte de ninguém. Muitas vezes nem sequer são vistos recusados; São vistos não concedidos, que deixam as pessoas num limbo.

O Piaget assinala 45 anos de existência. Como é que o vê nos próximos 45?
Vejo o Piaget como uma instituição que tem um papel ativo na sociedade e na educação. O Piaget está agora com esta vontade de alterar alguns dos seus programas, estar atento a novas ofertas formativas que fazem sentido para quem vai entrar no mercado de trabalho, e de se manter atento às competências que são efetivamente diferenciadoras. Todos os nossos programas vão sendo transformados olhando sempre com muita proximidade para a empregabilidade.
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“Acesso ao ensino superior baseia-se na aprendizagem para exame. Percurso deveria ser todo contabilizado”
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