A inteligência artificial não deve ser demonizada, antes adaptada ao ensino, defende a nova reitora da Universidade do Algarve. Em entrevista, Alexandra Teodósio recusa proibir a IA.
“Uma das formas de inovarmos o nosso ensino também pode ser fazendo um uso coerente das ferramentas de inteligência artificial. Não proibi-las”, defende a nova reitora da Universidade do Algarve. Alexandra Teodósio, no cargo desde 17 de dezembro, defende a diversificação não só do método de ensino, mas também de nacionalidades, para fazer face ao Inverno demográfico europeu. Em entrevista exclusiva ao ECO/Local Online, não teme entrar noutros temas potencialmente polémicos. Um deles, a carne na cantina.
No país, e na Europa em geral, vivemos o início do Inverno demográfico. Como perspetiva o crescimento da universidade para lá destes seus quatro anos de mandato, a que pode juntar outros tantos, com cada vez menos jovens?
No último mandato, tive a pasta da internacionalização e do desenvolvimento sustentável e foi neste último mandato que fiz a candidatura à Universidade Europeia dos Mares, que integrámos. Termos entrado na Universidade Europeia e, também, termos tido mestrado Erasmus Mundus, foi o que fez com que a nossa internacionalização crescesse em número de nacionalidades. Somos a universidade – acho que estamos mais ou menos a par com a Nova – que tem o maior número de nacionalidades, 105 ou 106.
Fomos das primeiras universidades a ter um Erasmus Mundus, que foi o da biodiversidade e conservação, em 2000. Mestrados Erasmus Mundus são financiados pela União Europeia, vêm com um pacote de bolsas muito atrativas para estudantes de fora da Europa, que permite que para 20 ou 30 vagas costumamos ter 500 ou 600 candidatos. Permite escolher os melhores e isso começou a tornar a Universidade do Algarve conhecida fora de Portugal e da Europa. Estes Erasmus Mundus contribuem bastante para a diversificação das nacionalidades. Esta outra iniciativa das universidades europeias permitiu-nos pôr a universidade do Algarve no mapa global.
Têm, então, experiência em formação noutras línguas?
Lançámos a primeira licenciatura com o European Degree Label, a primeira licenciatura em economia do mar sustentável, Sea-EU, e é dada em inglês. Temos a primeira licenciatura com oferta em língua inglesa. Para nos prepararmos para esse futuro também de redução de demográfica a nível da Europa, temos que apostar neste tipo de oferta em inglês, que nos permite diversificar.
Com os países da língua portuguesa, temos programas específicos, e também com o mundo hispânico, por isso temos conseguido aumentar este recrutamento.
Qual a percentagem de alunos de fora de Portugal? São realmente importantes para a sustentabilidade financeira?
Internacionais são quase 25%, deve chegar aos 2500. O estudante Internacional, em termos de propina, vai entre os 3000 e 4000 euros. Se for um Erasmus Mundus, como tem financiamento europeu, as nossas propinas são sempre as mais altas.
Qual a estratégia para captação?
Sobretudo termos mais oferta em inglês, nesta perspetiva de conseguir captar para além dos alunos de língua portuguesa e hispânica.
Como serão estes quatro anos do seu primeiro mandato?
Primeiro, gostaria que tivéssemos capacidade de ensinar de outra forma, aplicarmos inovação pedagógica na sala de aula e fora dela, de uma forma verdadeiramente transversal. Alguns exemplos de inovação pedagógica que temos em determinadas áreas, que fosse algo transversal a toda a instituição, e que se fizesse muito uso da investigação. Que a investigação que fazemos aqui fosse a base do nosso ensino.
O que faz o sucesso de uma universidade é haver mais interação entre a investigação e o ensino. Que os investigadores, que são também professores, interajam mais com os estudantes de nível inicial, logo desde os primeiros anos vejam esse interesse na investigação mais fundamental, na investigação aplicada, na inovação, no empreendedorismo, e que essa semente seja mais entranhada nos nossos estudantes. Essa é uma parte, juntar mais a investigação ao ensino.
Depois, gostava também de conseguirmos criar competências interiores nos nossos estudantes, competências pessoais que não são obrigatoriamente as profissionais. É o que se chama atualmente os Inner Development Goals, que estão associados aos objetivos de desenvolvimento sustentável. Os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável não se vão conseguir atingir se não nos mudarmos interiormente, sobretudo nesta geração, que é a geração Z, que já nasceu com o telemóvel na mão, e que quando chega à universidade, procura experiências diferentes do que a universidade tradicional está apta a oferecer. Desenvolvimento de competências sociais, de liderança, de agir para a ação em conjunto, esse tipo de competências tem que se entranhar mais nos nossos currículos. E depois, o desafio da inteligência artificial.
Vários temas a pôr em risco os consensos
A inteligência artificial é um tema que está longe de ser unânime no ensino, mesmo a nível da academia.
Isso é uma parte da inovação pedagógica. Uma das formas de inovarmos o nosso ensino também pode ser fazendo um uso coerente das ferramentas de inteligência artificial. Não proibi-las. Ainda há pouco, no senado, havia colegas a pedirem para comprarmos novos softwares que detetassem trabalhos feitos com inteligência artificial. Não vale a pena, porque a inteligência artificial está sempre a mudar e a humanizar mais os trabalhos, de escrita ou de análise. Tem é de se introduzir a ferramenta de forma coerente e que estimule o pensamento crítico, e deixarmos de ter um sistema de avaliação que seja muito focado no exame final. Tem que ser avaliação contínua, porque no exame final, com uma caneta, com uns óculos, já se consegue fazer a fraude. Temos de nos adaptar, mas é possível adaptarmo-nos para o bem, e usá-lo num sentido que nos permita formar profissionais que também serão cidadãos bem integrados, contribuindo para o bem comum e felizes.
Estas ideias, num momento de alguma indefinição, constituem um desafio para a sua liderança.
Tenho essa ambição de transformar um pouco o ensino que se faz atualmente, porque acho que faz falta, de uma forma geral.
Um desafio que tenho é mudar a alimentação oferecida nas cantinas. Primeiro, com campanha de comunicação em que se explique opções e consequências em termos do CO2 emitido e da desflorestação que se causa.
Há pouco, antes de estamos a gravar, falava-nos de uma alteração também pouco consensual, que tem a ver com a ementa na cantina.
A universidade forma cidadãos do futuro, não são só as competências que damos em sala de aula. Todo o contexto da universidade contribui. Uma delas é reduzirmos a nossa pegada carbónica. Uma das principais causas do CO2 que temos na atmosfera vem da alimentação, está mais que provado, um terço do CO2 vem da alimentação, sobretudo associada à alimentação com base em carne, e em especial em carne de vaca. Um desafio que tenho é mudar a alimentação oferecida nas cantinas. Primeiro, com campanha de comunicação em que se explique opções e consequências em termos do CO2 emitido e da desflorestação que se causa, e indiretamente aumenta ainda mais a nossa perda de capacidade de absorver CO2. Por esse motivo, tentar que os estudantes que passam por aqui também vejam benefícios de mudar a alimentação, não só para saúde do ecossistema, mas também para a sua própria saúde.

Por falar em ecossistema, uma última questão. Agora que temos as barragens algarvias todas numa invulgar situação de descargas, a dessalinizadora vai ser assunto morto neste Verão?
Sou sempre adepta da diversidade das soluções. É muito importante continuarmos a gerir bem as nossas barragens, a poupar água, investir em tecnologias que permitam usar as águas residuais em rega, em muitos outros usos que estão disponíveis, e também contarmos com algum suporte de uma dessalinizadora. As alterações climáticas, o que vão fazer são estes eventos extremos. Vai haver secas muito prolongadas, mas também vai haver enchentes muito grandes e temos que diversificar as nossas fontes de água. Só assim, neste caso particular, o Algarve, poderá estar preparado.
Por falar, de novo, em falta de consenso, tem muitas vozes contra esta solução, sobretudo ambientalistas.
Atualmente, as dessalinizadoras têm já tecnologia que permite reduzir muito o impacto, que tem sobretudo a ver com a salmoura, mas a salmoura também pode ter usos. Esta salmoura, em vez de ser descarregada diretamente, pode ser recolhida e ter fins industriais. É preciso é existir o interesse de usar essa salmoura. A tecnologia tem evoluído também muito e os impactos estão cada vez mais reduzidos. Não sou contra nenhuma das soluções, tem que ser é no sítio certo e com a tecnologia certa.
E o sítio, na fronteira de Albufeira e Loulé, é o certo?
Não me quero pronunciar sobre isso. É preciso é estudar bem o sítio e a tecnologia.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})
“Tenho a ambição de transformar um pouco o ensino que se faz atualmente”
{{ noCommentsLabel }}