Presidente do Futebol Clube do Porto insiste que o seu "objetivo, enquanto presidente da direção do Futebol Clube do Porto, é manter o FCP enquanto clube de associados".
Luís André de Pina Cabral e Villas-Boas chegou a presidente do Futebol Clube do Porto (FCP) a 7 de maio de 2024. O que encontrou foi um Dragão em choque devido à falta de oxigénio financeiro. Tinha nesse mês de pagar 15 milhões de euros, dinheiro que chegou por via de associados, permitindo respirar até à injeção de capital norte-americano. Passados dois anos menos cinco dias, e depois de uma primeira época de falência desportiva, o Porto de Villas-Boas pôde repetir a palavra “campeão”, há três épocas retida em Lisboa. Noutra comemoração, a dos 10 anos do jornal ECO, assinalados no Festival ECO nesta quarta-feira, Villas-Boas recordou esta década.

Há 10 anos, estava a transitar entre clubes da Rússia e da China. Hoje, a China consolidou-se como par dos EUA enquanto grande potência e a Rússia tornou-se um Estado quase pária após invadir a Ucrânia em 2022. Sob esta perspetiva, que novo cenário nasceu no desporto?
A geopolítica e a parte estratégica, pouco têm a ver com a parte desportiva, que é a qual eu represento e para a qual fui convidado. Evidentemente, não fiquei indiferente aos dois fatores, nomeadamente o primeiro. Eu vivi de perto na Rússia, porque foi a primeira invasão da Crimeia, quando eu era treinador do Zenit São Petersburgo. Isso teve implicações imediatas no comportamento dos russos relativamente à Europa, e desportivas também, porque houve regulamentos que foram mudados do ponto de vista desportivo para limitar o uso de jogadores internacionais e de promover mais o jogador russo.
Do ponto de vista desportivo, a única coisa que lhe posso dizer, na China, foi uma cultura na qual eu e a minha família fomos muito bem recebidos, sempre respeitados. Deram-se, após a minha saída, uma série de escândalos do futebol chinês que estavam relacionados com apostas desportivas e crimes de corrupção, os quais terminaram na cadeia muitos presidentes de associações e o presidente da Federação Chinesa de Futebol. Foi algo que o que o Governo chinês quis sempre combater para tornar o desporto limpo, o que se está a dar agora, em que a China tem dado muitos passos diferentes. Sobre o campo da geopolítica Internacional, e do estado atual das coisas, não sou a pessoa mais apropriada para dar uma opinião válida. Como constatação, enquanto cidadão português, lamento, porque a união, a solidariedade da Europa era algo que eu via como fundamental. O posicionamento da Europa junto com os Estados Unidos parece cada vez mais estar a ser quebrado também, e depois todas as guerras que explodem fruto de um posicionamento também cada vez mais agressivo por parte dos Estados Unidos e da Administração Trump, com o qual eu não me identifico, de todo, enquanto cidadão português, e que tem levado a um desequilíbrio cada vez maior e de instabilidade cada vez maior, não só europeia, mas também no Médio Oriente.
Tem impacto no futebol?
Impacto no futebol e no desporto, diria que não. Nesta fase ainda não. Os fundos americanos chegam com cada vez mais impacto ao futebol europeu. No futuro, sim. Que posicionamento poderemos ter daqui a dez, 20 anos, fruto do maior domínio dos fundos americanos do futebol europeu…
Não vejo uma situação como aquela que aconteceu com o Benfica acontecer. Para isso, teria que haver um descalabro financeiro da sustentabilidade económica financeira do FCP, que nós conseguimos resolver no imediato.
Os fundos norte-americanos já estão a comprar capital do Sport Lisboa e Benfica. Acha que pode acontecer o mesmo no Futebol Clube do Porto?
Não, porque o meu objetivo, enquanto presidente da direção do Futebol Clube do Porto, é manter o FCP enquanto clube de associados. Temos muito pouca parte do nosso capital que flutua na bolsa. O FCP é detentor de maior parte do seu capital e o resto está espalhado em portistas, e não vejo uma situação como aquela que aconteceu com o Benfica acontecer. Para isso, teria que haver um descalabro financeiro da sustentabilidade económica financeira do FCP, que nós conseguimos resolver no imediato.

E perante os 8.000 euros que se dizia que eram os fundos disponíveis no FCP quando chegou…
[reação imediata e com um sorriso sarcástico] Não é que se dizia, não! Foi o que eu constatei. Infelizmente não é o que se dizia!
E como conseguiu, nesse cenário fazer uma equipa campeã nacional?
O FCP, sobretudo numa primeira fase, apoiou-se em sócios do FCP, que emprestaram capital imediato para resolvermos dívida a curto prazo. Nós tínhamos 15 milhões de euros…
[neste momento, somos interrompidos para mais um cumprimento de um fã a Villas-Boas – “desculpe lá, mas tenho que dar um grande abraço a este nosso presidente”; retorquindo Villas-Boas “obrigado, obrigado, um grande abraço também]
… nós tínhamos 15 milhões de euros para pagar até ao final de maio, quando eu tomei posse, e a situação era alarmante. Fomos suportados por sócios do FCP, que foram muito generosos, e depois fizemos a reestruturação da dívida do FCP sustentada num projeto a longo prazo, relacionado com o ticketing, os revenues comerciais do FCP, que nos permitiram levantar cerca de 180 milhões em dívida americana e permitiram ao FCP sobreviver, no fundo, e mandar os seus problemas mais prementes a 25 anos, permitindo a sua sustentabilidade financeira.
Não vêm charters, mas vieram rios de dinheiro para alguns clubes que aceitaram permitir a entrada dos jogadores sauditas nos seus escalões de formação e nos seus escalões de futebol principal, mesmo em talentos curtos para o quadro competitivo onde estavam inseridos.
Uma das grandes figuras do FCP e um dos heróis de Viena em 1987, sugeriu, certa vez, enquanto membro de uma candidatura à presidência do Sporting, contratar um jogador chinês, assegurando que tal iria trazer charters de adeptos chineses a Portugal. Equaciona fazer isso com um jogador norte-americano?
Lembro-me perfeitamente, sim (gargalhada). Os panoramas mudaram. É interessante, porque essa observação, aqui há cinco anos, quando houve a explosão do futebol chinês – no fundo, o que estávamos a falar há pouco – era uma observação que fazia todo o sentido. Não posso deixar de lhe dizer que temos vindo a constatar alguns movimentos relativamente a jogadores sauditas fora do seu mercado, precisamente o mesmo objetivo. Não vêm charters, mas vieram rios de dinheiro para alguns clubes que aceitaram permitir a entrada dos jogadores sauditas nos seus escalões de formação e nos seus escalões de futebol principal, mesmo em talentos curtos para o quadro competitivo onde estavam inseridos. Portanto, o Futre sempre foi um visionário do futebol, era assim que escrevia com o seu pé esquerdo, e, realmente, nesse aspeto tinha toda a razão.
[À espera do final da curta entrevista no Festival ECO estavam já aqueles que queriam selfies e até um portista que pediu ao presidente do seu clube três vídeos para um telemóvel, em que Villas-Boas enviava mensagens dedicadas, seguindo o guião de nomes que o fã lhe estendeu]
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André Villas-Boas no Festival ECO. “Os fundos americanos chegam com cada vez mais impacto ao futebol europeu”
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