Após sucesso no turismo, merytu vai ligar trabalhadores a empresas da distribuição e logística

O ano de 2026 será "ambicioso" e "decisivo" para a merytu, revela o CEO, que adianta que a plataforma fará a sua estreia na logística e distribuição. Internacionalização é o passo seguinte.

A merytu nasceu quando o país estava em pandemia e o setor do turismo sofria duramente com as restrições à atividade que a ela ficaram associadas. Prometia facilitar a ponte entre os trabalhadores e as empresas desse setor, e, quatro anos depois, já conta com mais de 85 mil profissionais inscritos e uma carteira de clientes que tem duplicado todos os anos. O balanço é feito pelo CEO, João Silva Santos, que, em entrevista ao ECO, revela quais serão os próximos passos desta empresa portuguesa.

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O responsável adianta que, no próximo ano, esta plataforma deixará de fazer matches apenas no setor da hospitalidade, estreando-se no setor da grande distribuição e logística. Além disso, João Silva Santos dá nota de que está a terminar uma ronda de investimento, que permitirá à merytu preparar a sua internacionalização, com o ano de 2027 em vista e países, como a Bélgica, na mira.

Enquanto não salta para lá das fronteiras nacionais, o CEO deixa críticas à forma como o trabalho independente é visto em Portugal (um “parente pobre” no mercado de trabalho, considera), mas entende como um sinal positivo o acordo recentemente assinado pela Uber e por um sindicato da UGT, que define um novo modelo de trabalho através das plataformas digitais.

Todos os anos temos duplicado a carteira de clientes. Já chegámos a mais de 165 localidades. E temos tido um crescimento anual de 118% da receita.

A merytu está agora a assinalar o seu quarto aniversário. Que balanço faz destes primeiros anos de atividade?

Neste período, vimos o nosso modelo, com as suas características diferentes e inovadoras, ser validado por completo pelo mercado. Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas já não é pouco. Somos parceiros das principais instituições do setor, nomeadamente a Associação de Hotéis de Portugal. Temos um enorme espetro de clientes, incluindo os maiores grupos internacionais. Todos os anos temos duplicado a carteira de clientes. Já chegámos a mais de 165 localidades. E temos tido um crescimento anual de 118% da receita.

Neste momento, quantos profissionais estão registados na vossa plataforma?

Num setor que vinha a registar uma debandada de profissionais, temos tido um crescimento anual de 300% relativamente aos profissionais que se juntam à nossa comunidade. Hoje temos mais de 85 mil profissionais, o que nos deixa bastante descansados no que diz respeito ao modelo que temos. São 85 mil pessoas cuja faixa etária vai até aos 70 anos, que é outra coisa que me orgulha. Conseguimos também ser aqui uma comunidade bastante inclusiva.

João Silva Santos, (à esquerda) cofundador e CEO da Merytu, em entrevista ao ECO.Hugo Amaral/ECO

Como têm conseguido atrair tantos profissionais, tendo em conta esse cenário que descrevia de transição de profissionais para outros setores em busca, nomeadamente, de melhores salários?

O nosso secret sauce é o menos secreto do mundo empresarial. O fator decisivo é a valorização dos profissionais. É simples, mas levámos como base da nossa proposta de novo. Quando nos referimos à merytu com um marketplace, é porque sempre achámos que a flexibilidade e a liberdade não tinham que rimar com a precariedade. Acreditamos que a independência, a liberdade de escolha, o poder de decidir quando e onde se trabalhar são também pilares da aceitação massiva da merytu. Vejo, por isso, com bastante satisfação os últimos movimentos de os parceiros sociais terem chegado a acordo com um dos marketplaces de referência.

Está a referir-se ao memorando de entendimento assinado pela Uber e por um sindicato da UGT.

Estão a aproximar-se de uma realidade que a merytu já tem desde sempre. Há quatro anos já tínhamos a referência do valor por hora acima do salário mínimo, já dávamos gratuitamente seguros por acidente e responsabilidade civil, e já tínhamos uma mecânica de progressão de carreira [por níveis de experiência] muito autodeterminada e ao ritmo de cada profissional. Queremos que isto seja cada vez mais aceite, porque o trabalho independente, neste país, ainda é um parente pobre, que não merece a legitimidade de outros modelos. E isso é incompatível com as aspirações profissionais destas gerações.

Nesse sentido, a lei do trabalho, ao ter aberto a porta, em 2023, a que os prestadores de serviços – tipicamente, os estafetas – sejam considerados trabalhadores, veio consolidar essa perceção do trabalhado independente como parente pobre?

Sem dúvida. Dou o exemplo de um país que, contrariamente àquilo que, se calhar, seria expectável, tem percorrido um caminho completamente diferente daquilo que se tem visto aqui: a França. Lá, os parceiros sociais focaram-se na valorização profissional na prática, ou seja, o valor por hora, os seguros e as garantias, independentemente de o vínculo não ser dependente. Mas acredito que agora a UGT ao validar o protocolo que validou está de alguma forma a anuir com o modelo independente e com a necessidade de proteger estes profissionais. Estamos a dar passos no sentido de retirar o preconceito relativamente ao trabalho independente, e de o tornar cada vez mais favorável para que as pessoas possam optar por ele com naturalidade, quando consideram ser a forma que mais as realiza ou mais se adequa às suas aspirações.

Os nossos profissionais recebem ofertas de contratos, inclusive de efetividade, e recusam-nas, porque realmente a sua carreira não passa por esse modelo.

Desde 2023, tiveram algum processo em tribunal para reconhecimento de um vínculo em relação a algum dos profissionais inscritos na vossa plataforma?

É incrível, mas nunca tivemos.

Ainda assim, essa norma tem impacto a dinâmica na plataforma? Há plataformas que têm adequado a sua atuação, porque temem que certas medidas possam ser lidas como indícios de subordinação.

Quando saiu a normativa, tivemos que reestruturar alguns processos, porque não somos empregadores. Uma pessoa que trabalha através da merytu tem, logo à partida, um diferenciador face aos falsos recibos verdes, que estão dependentes de uma única entidade. Na nossa plataforma, e aquilo que nos diferencia também das empresas de trabalho temporário, é que quem escolhe onde e quando trabalhar é exclusivamente o profissional. Há muitos trabalhadores que, se quisessem um contrato de trabalho, candidatar-se-iam às entidades que estão na plataforma. A prova mais forte disto é que os nossos profissionais recebem ofertas de contratos, inclusive de efetividade, e recusam-nas, porque realmente a sua carreira não passa por esse modelo.

Quantas empresas estão inscritas neste momento na merytu?

Neste momento, temos cerca de 1.500 empresas.

João Silva Santos, co-fundador e CEO da Merytu, em entrevista ao ECO.Hugo Amaral/ECO

Olhemos, então, para o futuro. Feito o balanço dos primeiros quatro anos, quais são os vossos planos para expandir o negócio?

O ano de 2026 vai ser bastante ambicioso e decisivo. Temos grandes planos. Relativamente à tecnologia, vamos lançar algumas versões muito interessantes que vão mudar a experiência das empresas dos profissionais. Vamos também ter aqui um facelift à nossa marca para refletir a fase em que estamos. E a nível de expansão, 2026 vai ser o ano do nosso primeiro setor fora da hospitalidade. Temos vindo a desenhar esta ideia com alguns parceiros certos para integrarmos de uma forma eficaz, porque a nossa rampa de lançamento foi a hospitalidade. Vai ser o ano da grande distribuição e da logística. Vamos entrar com pompa e circunstância, porque temos alguns parceiros de referência.

Por que é que escolheram a logística e distribuição como próximo passo? E a partir de quando se dará essa expansão?

A partir do segundo trimestre. Porquê? Desde que lançámos a merytu em abril de 2021, tivemos sempre a abordagem de outros setores. Temos uma longa lista de empresas que dizem que a solução seria muito interessante no seu setor. O da grande distribuição sempre se destacou, para já pela quantidade de referências, mas também por ter algumas semelhanças em termos operacionais com as funções de hospitalidade. Costuma até haver alguma transição de profissionais de ambos os setores, o que nos dá também mais capacidade instalada de poder valorizar a nossa atual comunidade com outro tipo de funções.

E ponderam internacionalizar a merytu?

A internacionalização é, desde cedo, um objetivo. Contudo, com a intensidade que a implementação na hospitalidade nos trouxe, acabámos por ter mais alguma ponderação neste passo tão decisivo. Estamos, neste momento, a terminar uma ronda de investimento até ao final do ano com dois parceiros – um grupo português de referência e um grupo multinacional –, que nos vai conferir os recursos necessários para esse passo.

Queremos chegar em 2026 a cerca de 20 a 25 pessoas, de forma a acelerar a implementação do que nos falta ainda em hospitalidade, entrar também de forma sólida no novo setor, e preparar esta grande odisseia da internacionalização que nos aguarda.

A perspetiva é internacionalizar em 2026?

Em 2027. Queremos analisar profundamente as geografias que temos em causa, porque o nosso modelo pressupõe uma base jurídica e laboral bastante tensa, e gostávamos de ir para um destino onde esta dimensão fosse um bocadinho mais liberal e mais aberta. Há vários destinos tentadores. Por exemplo, a Bélgica, mas não é um compromisso.

Estão a crescer. Quantos trabalhadores têm neste momento na merytu? E pretendem fazer crescer a equipa em 2026?

Em 2026, vamos, no mínimo, duplicar a equipa. Temos, neste momento, 12 peças base nesta equipa, e também trabalhamos com parceiros que complementam a nossa força de desenvolvimento. Queremos chegar em 2026, só na operação portuguesa, a cerca de 20 a 25 pessoas, de forma a acelerar a implementação do que nos falta ainda em hospitalidade, entrar também de forma sólida no novo setor, e preparar esta grande odisseia da internacionalização que nos aguarda.

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