Aposta dos private equity na auditoria “pode atrair jovens” para a profissão

A entrada dos private equity em empresas de contabilidade e auditoria está a acelerar. Uma aposta que Lee White, CEO da IFAC, diz poder atrair jovens que procuram modelos menos tradicionais.

A atração e retenção de talento é, hoje, um desafio para os vários setores da economia a que a contabilidade e a auditoria não escapam. Em entrevista ao EContas, Lee White, CEO da International Federation of Accountants (IFAC), considera que a implementação de tecnologia pode ser um fator de atratividade para os novos profissionais, mas não só. A aposta dos fundos de private equity nestas empresas também pode mudar a forma com os mais jovens olham para estas profissões.

O responsável explica que as próximas gerações podem sentir-se atraídas por empresas em que há uma participação destes fundos, ao considerarem que a sua forma de trabalhar adequa-se mais ao que procuram e ao ritmo acelerado de transformação do que o modelo mais tradicional.

Este interesse crescente dos private equity, que está a ditar maior consolidação na auditoria e contabilidade, não pode, porém pôr em causa a qualidade do serviço prestado aos clientes, nomeadamente às pequenas e médias empresas, alerta Lee White. “Teremos de perceber como é que estes novos modelos continuam a funcionar de forma independente e a cumprir todos os requisitos éticos”, diz o presidente do organismo que reúne 180 membros de 135 jurisdições, representando mais de três milhões de profissionais.

Qual é a sua perspetiva sobre o mercado de auditoria e contabilidade a nível global e em Portugal?

A profissão de auditoria a nível global ainda se encontra numa fase muito interessante. Tem estado fortemente envolvida durante muitos anos na prestação de garantias de relatórios financeiros. [Um serviço que agora se alarga] com os relatórios de sustentabilidade e, em segundo lugar, com a utilização da IA. É um bom momento.

A profissão mudou ao longo dos anos. Quais são as principais mudanças?

Quando comecei a minha carreira, há já muito tempo, a garantia dada pelas auditoras limitava-se estritamente aos relatórios financeiros. Agora está a alargar-se. As competências de um profissional de auditoria também continuam a evoluir. Sempre houve utilização de tecnologia na prestação de serviços de garantia, mas, neste momento, é fundamental para a prestação destes serviços.

Lee White, CEO da IFAC, em entrevista ao EContasHugo Amaral/ECO

Houve vários casos mediáticos que penalizaram a imagem das auditoras. A confiança já foi totalmente recuperada? O que é preciso fazer mais para recuperar a credibilidade?

A auditoria de demonstrações financeiras acontece há muitos anos. Haverá momentos em que se registou um colapso empresarial, em que houve declarações financeiras falsas e surgiram questões sobre a solidez do auditor ou dos processos do auditor. Quando há colapsos maiores, como o do Lehman Brothers ou de qualquer outro banco, a atenção recai sobre a profissão. Não sei se se trata de restaurar, mas sim de garantir que o serviço que está a ser prestado pelas auditoras tem valor. Para mim, o valor continua a residir muito na confiança e na transparência.

Não devemos ser complacentes enquanto profissão. Temos de dizer todos os dias que queremos continuar a merecer a sua confiança. Usou a palavra restaurar, eu uso a expressão ganhar a confiança, mas o sentimento é semelhante. Nunca devemos tomar como garantido que as pessoas confiam em nós. Temos de continuar a merecer sempre essa confiança.

Não devemos ser complacentes enquanto profissão. Temos de dizer todos os dias que queremos continuar a merecer a confiança [das pessoas].

Lee White

CEO da IFAC

Mas acha que existe confiança nas auditoras?

Sim, muito. Vejo globalmente uma confirmação muito forte da confiança na auditoria. Mas voltando ao meu último comentário, o facto de ter existido ontem não significa que existirá amanhã e temos de continuar a merecê-lo.

Temos atualmente muitos desafios para esta profissão e um deles é a desregulação. Como é que isto pode afetar a ética e a independência na auditoria e na contabilidade?

Os contabilistas e auditores têm de compreender as mudanças que estão a ocorrer. E, em seguida, compreender o que as mudanças realmente significam, a fim de garantir que as novas expectativas serão sempre satisfeitas antecipadamente e não retrospetivamente. Se pensarmos nos princípios fundamentais da ética, de trabalhar de forma transparente, com integridade e competência profissional, a base desses princípios permanece sólida, independentemente das mudanças.

São ainda mais importantes neste contexto…

São sempre importantes. Mesmo havendo mais estabilidade, continuo a defender que são extremamente importantes, porque pode ser a altura em que pode haver um sentimento de complacência.

A aposta dos private equity nas empresas de auditoria é algo que o preocupa?

Estamos a fazer algum trabalho. Começámos há cerca de 12 meses a recolher dados sobre as mudanças ocorridas com o crescimento da participação de private equity nas empresas de contabilidade e auditoria. E a razão pela qual pedi que isso fosse feito é que, sem os dados, é fácil pensar nas implicações. É necessário dispor dos dados para compreender o que está a acontecer. É evidente que existe uma atividade muito significativa de private equity nos EUA, no Reino Unido e também em algumas partes do continente europeu.

As áreas em que estamos a pensar, em termos de implicações, são aquelas relacionadas com a atratividade da profissão. Será que as próximas gerações se sentirão mais atraídas por uma profissão em que exista um nível de participação de private equity, porque isso poderá estar mais de acordo com a forma como se veem a si próprios como profissionais?

Lee White, CEO da IFAC, em entrevista ao EContasHugo Amaral/ECO

Este tipo de investimento pode atrair mais jovens?

A próxima geração pode sentir que trabalhar numa sociedade com um modelo antigo de partnership não se adequa à sua personalidade num ambiente de trabalho em rápida evolução. Trabalhar para uma empresa com uma participação de um private equity pode adequar-se para alguns, não digo para todos, mas para alguns. Ainda não sabemos. Isto demora algum tempo.

O private equity vai mudar a forma como a auditoria funciona?

Não a forma como a auditoria funciona. As empresas têm de continuar a cumprir as normas e todos os requisitos adequados. Mas podem vê-la de uma forma diferente da de uma prática contabilística mais tradicional. Este é um aspeto da atratividade. [Por outro lado, há a questão da] concentração, que é uma parte muito importante. Há também uma série de empresas que trabalham especialmente para as pequenas e médias empresas. O que os private equity estão a fazer é comprar algumas destas pequenas e médias empresas e consolidá-las numa só. Por conseguinte, [é preciso perceber se] continuará a haver um nível adequado de prestação de serviços à comunidade das PME à medida que esta consolidação for sendo realizada.

Na sua perspetiva, continuará a haver esse nível adequado de prestação de serviços às PME?

Acreditamos que sim, mas, mais uma vez, precisamos de ver as implicações do que acontece, porque a comunidade das PME, e eu diria que em todo o mundo, é o motor da prosperidade económica. Garantir a qualidade correta dos serviços prestados às PME, por parte dos escritórios mais pequenos, é muito importante. Teremos de perceber como é que estes novos modelos continuam a funcionar de forma independente e a cumprir todos os requisitos éticos.

A próxima geração pode sentir que trabalhar numa sociedade com um modelo antigo de partnership não se adequa à sua personalidade num ambiente de trabalho em rápida evolução. Trabalhar para uma empresa com uma participação de um private equity pode adequar-se para alguns.

Lee White

CEO da IFAC

A necessidade de investir em tecnologia também está a acelerar esta consolidação?

Outra vantagem da entrada dos private equity seria a injeção de capital significativo. Grande parte deste capital iria para investimentos em tecnologia, a fim de permitir que as empresas [mais pequenas] sejam tão competitivas como, porventura, algumas das organizações de maior dimensão que já puderam investir devido aos recursos de que dispõem. É importante referir que esta injeção de capital para se investir em tecnologia pode acelerar a capacidade destas empresas para continuar a prestar serviços de uma forma contemporânea e não ser mais limitada devido aos recursos que tradicionalmente têm.

Os profissionais de contabilidade e auditoria estão preparados para implementar a tecnologia, nomeadamente a IA?

Esta profissão sempre evoluiu e continuará a evoluir. Tem de haver uma mentalidade, independentemente da idade do profissional, de querer estar envolvido com estas novas tecnologias, ser capaz de prestar os serviços de uma forma ainda mais eficiente para os meus clientes. Vejo a nossa profissão a abraçar globalmente a IA e a utilização da tecnologia, mas isso acontecerá a ritmos diferentes.

Lee White, CEO da IFAC, em entrevista ao EContasHugo Amaral/ECO

A utilização de IA oferece riscos e oportunidades…

A nossa profissão não pode correr o risco de não ser líder na adoção da IA e da tecnologia. E isso relaciona-se um pouco com o que disse anteriormente sobre continuar a atrair as próximas gerações. Se as próximas gerações, por algum motivo, nos virem como uma profissão que não está a adotar novas formas de trabalho, novas tecnologias, não atrairemos essas pessoas e precisamos de o fazer. Por isso, não nos podemos dar ao luxo de não utilizar a tecnologia. Só precisamos de compreender os parâmetros certos para a sua utilização.

Outro dos desafios são as exigências a nível do reporte de sustentabilidade. As empresas estão preparadas para responder a isto?

Tenho o privilégio de estar em todo o mundo e de ver a mudança bastante rápida com a transformação da sustentabilidade, não só ao nível da elaboração de relatórios e prestação de garantias, mas também da transformação das empresas. Estou a ver muitas regiões a avançar muito rapidamente, porque veem nisso uma vantagem competitiva. Vejo muitas empresas a avançar para a produção de informação que os seus investidores e os seus clientes querem ver. O ritmo é diferente, mas estamos preparados e temos estado realmente no centro da liderança desta mudança. Vemos que a Europa, em particular, assumiu um papel de liderança em termos de transformação da sustentabilidade.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Aposta dos private equity na auditoria “pode atrair jovens” para a profissão

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião