É uma boutique entre as feiras de arte, com quase um quilómetro de galerias e mais prémios para aquisições. Rita Sousa Tavares faz o balanço de 10 anos de ARCO em Lisboa.

Não foi há muito tempo, mas foi há tempo suficiente. Há uma década, Lisboa não tinha uma feira de arte, uma lacuna que a ARCO Lisboa, filha mais nova da ARCO Madrid, veio preencher. Abre ao público esta sexta-feira, a partir das 14h00, e fica até domingo na Cordoaria Nacional, e não só. “Tentamos ao máximo articular com os museus da cidade, transformando a ARCO numa Art Week, que é o que a ARCO se transformou. É uma semana dedicada à arte na cidade”.
Escolha o ECO como fonte preferida no Google
Dez anos depois, a pergunta impõe-se: como era Lisboa antes? “Como é que viviam as galerias sem este agente agregador em que se transformou a ARCO?”, reflete em voz alta Rita Sousa Tavares, coordenadora da ARCO Lisboa e líder da produtora Café Pessoa, em entrevista ao ECO Avenida, devolvendo a pergunta. “Eu acho que os últimos 10 anos foram realmente de consolidação e de resolver pequenos problemas do setor, bastante patentes e visíveis, e que começaram a dissipar-se com os anos”, explica Rita Sousa Tavares.
“A solidariedade entre as próprias galerias, as rivalidades norte e sul, tudo isso está ultrapassado ao fim destes 10 anos e eu acho que muito graças a esta perspetiva que a ARCO tem de congregar e trazer públicos de fora para conhecer a arte cá dentro. Pôr a arte em diálogo com artistas internacionais, com artistas nacionais, o que é muito importante”.
Por outro lado, “o público da arte contemporânea era muito mais limitado”. Hoje muito mais gente (e marcas) se quer associar à arte contemporânea. “Tornou-se uma área muito atraente para marcas, para escritórios de advogados, para consultoras, para bancos…”.
Nunca como antes, tiveram tantos prémios para aquisições na ARCO Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, Milenium, FLAD, MACAM, Vieira de Almeida, Kells, Colección Studiolo – Candela A. Soldevilla são algumas das organizações, para além da própria Fundação ARCO que adquirem peças aos galeristas.
“É uma forma também de garantir um negócio a priori para as galerias, embora não saibamos de antemão quais são as galerias e os artistas que os vão receber, mas torna também o grau de exigência das galerias, no fundo, no projeto que trazem para dentro da feira, mais exigente e mais criativo”, afirma.
Um programa para colecionadores, curadores e diretores de museu
Para lá dos stands de galerias na nave de um quilómetro da ARCO, abertos ao público, um dos trabalhos invisíveis da ARCO Lisboa é congregar em Lisboa colecionadores e especialistas em arte contemporânea que conheçam os artistas que aqui vivem e trabalham, com visitas a galerias e museus.
A ARCO faz um grande investimento, e é das poucas feiras mundiais que o faz, para convidar mais de 100 colecionadores e também um grupo de profissionais, diretores de museus, curadores internacionais, para ficarem hospedados em Lisboa durante a feira, durante duas noites”. Nesse tempo, “conhecem coleções privadas, são guiados pela mão dos artistas e dos curadores às exposições, muitas vezes veem-nas antes de inaugurar, têm aqui um programa absolutamente luxuoso e incrível”, diz a coordenadora da feira.
No programa deste ano está prevista, por exemplo, uma ida a Sintra, conhecer a Coleção de Arte Contemporânea do Estado (CACE) e a Fundação Albuquerque, cujo núcleo principal é porcelana chinesa do séculos XVI ao XIX, mas que têm a inaugurar uma grande exposição da artista Grada Kilomba. “Nós vamos, ainda antes de inaugurar essa exposição, levar um grupo de cerca de entre 80 a 100 pessoas para, pela mão da Grada, conhecerem a exposição e no final almoçarem com ela”, diz.
Como já tinha referido a diretora da ARCO, Maribel López, o grupo de convidados reúne sobretudo belgas, brasileiros, espanhóis. “Sem dúvida, as três nacionalidades mais fortes dos colecionadores internacionais”, mas também “norte-americanos, canadianos, americanos e da América do Sul também, da América Latina”, diz Rita Sousa Tavares.
Quem traz estrangeiros a Portugal, tem agora uma preocupação adicional: o aeroporto. “Nós estamos super preocupados com isso. A informação que tenho é que dia 29 a situação vai melhorar bastante. Quero acreditar que sim”, admite. “Isto é uma imagem péssima que passa de Portugal e temos que resolver este assunto depressa”, frisa.
A ARCO Lisboa abre às 14h00 e fecha às 21h00 esta sexta e sábado. Às 19h00 no domingo. Os bilhetes custam entre 14 euros (estudante e sénior) e 20 euros. Menores de 12 anos não pagam e jovens até aos 25 anos têm entrada gratuita esta sexta e sábado, entre as 16h00 e as 21h00.
ARCO quer crescer
A ARCO Lisboa é coproduzida com a Câmara Municipal de Lisboa, anfitriã da feira como gestora do espaço da Cordoaria Nacional. Sem a autarquia fazer a ARCO “seria difícil”.
“Seria difícil e, sobretudo, não fazia sentido nenhum”.
“Isto é um evento que atrai turismo cultural internacional e nacional que é o turismo mais valorizado. É o turista que menos estragos faz, que mais valoriza o espaço, que mais investe no espaço e o que, quando volta à casa, faz a melhor publicidade. Quando a experiência corre bem, e tem corrido sempre bem, é o chamado word of mouth, que vale muito. É um turista supervalorizado e não é só em Lisboa, é pelo mundo inteiro”.
A feira conta com a participação de 84 galerias, de Portugal e Espanha, e está no seu limite. Além da nave de 800 metros, ocupam os dois torreões. Do lado nascente, com a exposição organizada pela EGEAC (este ano dedicada Jorge Martins), a ArtLibris, dedicada aos livros de arte, e o espaço para conferências. Do outro lado, Poente, está uma exposição sobre as três coleções da Fundação EDP e um espaço.
“Nós realmente estamos no limite da capacidade”, aceita a coordenadora, questionada sobre a ambição de crescer “um pouco mais” e a uma “escala humana” da diretora da feira, Maribel López.
“Eu e a Maribel já batemos muitos espaços. Já caminhámos pela cidade fora e na companhia de alguns elementos da câmara que também nos tentaram ajudar a encontrar espaços maiores para a feira poder crescer fisicamente. A questão é que nenhum outro espaço tem esta perspetiva, tem esta luz”, considera. “É uma coisa que os colecionadores e os amantes da arte e mesmo os principiantes que estão a dar os primeiros passos valorizam”.
“Está no centro, acontece muito da arte. Estamos ali num polo importantíssimo”, defende. Do outro lado da avenida da Índia estão o MAAT e a Fundação EDP, main sponsors da ARCO e, muito perto, estão o Museu de Arte Contemporânea, o pavilhão Julião Sarmento, as galerias municipais, o MACAM…
“Nós não temos mesmo por onde crescer mais naquele espaço. A menos que fizéssemos uma estrutura para fora que envolveria invadir o espaço público, eventualmente o parque, não estou a ver outro sítio”, considera. “O que nós não queríamos mesmo era sair dali. Portanto, não é uma questão fácil de resolver. Por outro lado, também obriga a fazer uma curadoria cada vez mais cuidada”. E, de ano para ano, mais candidaturas para avaliação do comité de seleção da ARCO.
A feira portuguesa é vista como “uma extensão de Madrid”, considera Rita Sousa Tavares. “Madrid é uma instituição. Tem 200 e tal galerias, está para ficar, é colossal. A ARCO é vista como uma feira boutique, muito, muito entrosada com a cidade”. O que pode bem ser a sua vantagem.
“Eu acho que isto é o que torna a ARCO também tão interessante. É exatamente a cena artística local, e estas sinergias muito fortes feitas através da Câmara Municipal de Lisboa, mas também feitas com as instituições locais. Realmente há aqui um ecossistema que se aperfeiçoou”, considera. Dentro de mais 10 anos, Rita Sousa Tavares espera que a ARCO “esteja mais internacional”. E não é só a ARCO.
“São todos os museus nacionais, sobretudo aqueles que continuam com uma política que eu respeito e compreendo, mas não acho que seja o caminho certo, de aquisição apenas de arte nacional. Com certeza que os artistas nacionais precisam de ser apoiados, e compreendo que o Estado tenha esse papel, mas é muito importante pôr a arte nacional a dialogar com a arte internacional. Não só enriquece a experiência, como é a única forma de atrair turistas, que é o que nós precisamos. Turistas e portugueses para os museus”, conclui.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
ARCO Lisboa “atrai turismo cultural que é o turismo que menos estragos faz”
{{ noCommentsLabel }}