Rosário Lima, responsável em Portugal pelos sinistros na seguradora Zurich, fala da realidade dos acidentes rodoviários e como os seguros estão a querer dar resposta a um problema que volta a crescer.
Rosário Lima, Chief Claims Officer na Zurich, está muito bem colocada para falar da atual sinistralidade automóvel em Portugal. E, como responsável máxima pelos sinistros da companhia suíça, conta com um histórico de mais de 100 anos no país. Em 2025 foi a 4ª maior seguradora automóvel em Portugal, vendeu quase 250 milhões de euros em prémios e este ramo é o mais significativo para a atividade da companhia a nível nacional. É mestre em Direito e Pós-Graduada em Direito Civil pela Universidade Católica Portuguesa e foi como advogada que entrou na Zurich em 1992. Desde então ocupou vários cargos na área de sinistros.
O verdadeiro desastre que foi a última Páscoa quanto a sinistros automóveis e as recentes medidas do Governo para prevenir e sancionar condutores, foram motivo para ECOseguros entrevistar Rosário Lima sobre como está a evoluir o seguro automóvel em Portugal.
As novas medidas anunciadas pelo Governo serão suficientes para reduzir significativamente a sinistralidade automóvel?
As principais medidas anunciadas pelo Governo centram-se na fiscalização e na prevenção de comportamentos que violam as regras de trânsito. Um dos fatores essenciais para a redução de acidentes é a existência de uma fiscalização eficaz, capaz de desestimular atitudes infratoras. Uma atuação rigorosa e constante contribui diretamente para um ambiente mais seguro nas estradas, protegendo vidas e promovendo o respeito às normas.
Outra vertente importante das medidas anunciadas é o aumento do rigor na aplicação de coimas e na efetivação da aplicabilidade das sanções associadas às contraordenações estradais. O objetivo é garantir que as penalizações sejam efetivamente aplicadas, tornando o elemento punitivo uma realidade concreta que, no modelo atual, não acontecia pelas ineficiências do sistema, que fazia com que um elevado número de multas prescrevesse sem sanção.
Mais prevenção e maior punição, desde que fiscalizadas…?
Além da prevenção, a punição serve como um reforço adicional para desencorajar comportamentos de risco e promover uma cultura de segurança rodoviária. Acreditamos que essas medidas representam um avanço significativo para um dos aspetos mais críticos, embora não resolvam integralmente o problema da sinistralidade. Constituem uma parte relevante desta transformação, contribuindo de forma positiva para a construção de um ambiente rodoviário mais seguro e responsável. Estas medidas, por si só, não resolverão o problema, mas poderão representar mais um passo no sentido da melhoria da segurança rodoviária.

A Páscoa foi exemplo de grande sinistralidade mas, para além deste período, como está a evoluir a sinistralidade automóvel em Portugal?
Realmente, durante o período da Páscoa observámos um aumento de acidentes mortais em comparação com o mesmo período do ano anterior, reforçando esta preocupação com os comportamentos dos nossos condutores, apesar da fiscalização e das campanhas de sensibilização terem aumentado. Os dados mais recentes da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) mostram que, em 2025, ocorreram mais de 125 mil acidentes rodoviários entre 1 de janeiro e 13 de novembro, face ao ano anterior. Apesar de termos registado menos mortes do que em 2024, existe um sinal de alerta: aumentaram os acidentes com feridos graves, o que é motivo de grande preocupação.
Há causas que se destacam?
Na Zurich acompanhamos esta realidade diariamente. O agravamento da sinistralidade é especialmente evidente nos acidentes envolvendo utilizadores mais vulneráveis, como motociclistas, condutores de trotinetes e de velocípedes. Estes casos apresentam maior probabilidade de consequências graves, nomeadamente lesões físicas e neurológicas severas, frequentemente incapacitantes e, em alguns casos, com desfecho fatal. Os acidentes com vítimas mortais que acompanhamos tendem a ser o resultado de ultrapassagens em locais inadequados, velocidade excessiva, resultando em colisões frontais e despistes. Para além das perdas humanas irreparáveis, estes eventos têm um impacto profundo nas famílias e nas comunidades. Adicionalmente, existe uma tendência crescente no uso do telemóvel durante a condução, que constitui uma fonte de distração significativa – estima-se que o uso diário que damos ao telemóvel seja superior a três horas, o que aumenta de forma exponencial o risco de acidente.
E há locais mais comuns ou outros onde se estejam a registar desvios positivos ou negativos?
Os dados da ANSR evidenciam uma forte concentração de acidentes rodoviários nos grandes centros urbanos e nas zonas de maior tráfego, o que é compreensível dado o volume de veículos nestas áreas. No entanto, importa salientar que os acidentes mais graves – com consequências mais sérias para as vítimas – tendem a ocorrer sobretudo nas estradas nacionais, fora dos centros urbanos. Também estão identificadas zonas de risco com um elevado número de acidentes. O mapeamento destas áreas permite direcionar ações de prevenção e fiscalização, ajudando a implementar medidas específicas que aumentam a segurança rodoviária nesses locais.
Estamos a assistir a um aumento da gravidade dos acidentes. E aqui não falamos apenas de uma questão financeira para as seguradoras: falamos de uma questão humana e social muito séria, com feridos graves, vítimas mortais e famílias inteiras que se veem obrigadas a reorganizar-se.
Como tem sido a evolução de danos materiais e pessoais?
A evolução dos danos acompanha o agravamento da sinistralidade, e, por um lado, há mais danos materiais e custos de reparação mais elevados. Por outro lado, e este é o mais preocupante, estamos a assistir a um aumento da gravidade dos acidentes. E aqui não falamos apenas de uma questão financeira para as seguradoras: falamos de uma questão humana e social muito séria, com feridos graves, vítimas mortais e famílias inteiras que se veem obrigadas a reorganizar-se. É neste sentido que o setor segurador assume um papel essencial, no apoio às vítimas e às suas famílias, mas também pela consciencialização e incentivo à mudança de comportamentos – alertando condutores para práticas seguras.
Os prémios de seguro automóvel estão a aumentar generalizadamente. Porquê? A tendência vai manter-se?
O aumento da sinistralidade rodoviária tem tido repercussões nos valores dos prémios: ao mesmo tempo que leva ao aumento das indemnizações suportadas pelas seguradoras, provoca o aumento dos custos dos seguros para os consumidores. Situação que é ainda agravada pela pressão da inflação, que, aliada à escassez de peças, faz aumentar ainda mais os custos das reparações. O setor segurador tem reagido com ajustes nos preços dos seguros, como forma de manter o equilíbrio saudável entre os prémios a cobrar aos clientes e os custos a suportar com os sinistros. Para manter a competitividade num mercado altamente desafiante, as seguradoras têm vindo a trabalhar continuamente na otimização e redução dos seus custos de produção, de forma a oferecer soluções acessíveis aos clientes, apesar do contexto exigente.
Quais as coberturas complementares ao SORCA (Seguro Obrigatório de Responsabilidade Civil Automóvel) mais habitualmente pretendidos pelos clientes?
A grande maioria dos seguros automóvel no mercado, para além da cobertura obrigatória, são vendidos com as coberturas de Defesa e Proteção jurídica, Assistência em viagem e Ocupantes. São coberturas essenciais para garantir uma cobertura mínima de seguro aos clientes. A par destas, a cobertura de Quebra de Vidros é uma das coberturas facultativas mais contratadas no mercado. Além da cobertura obrigatória, a proteção contra danos próprios – incluindo colisão, capotamento, incêndio e fenómenos da natureza, como inundações ou quedas de árvores – tem sido cada vez mais procurada. Com as recentes tempestades que afetaram Portugal, notamos que as pessoas estão mais conscientes dos riscos climáticos e da importância de proteger os seus bens.
Há aumento da procura por coberturas de danos próprios no conjunto das apólices?
Sim, verifica-se uma tendência de aumento de coberturas de danos próprios, sobretudo porque as seguradoras têm vindo a adaptar este tipo de proteção às necessidades dos clientes. No caso da Zurich em particular, a cobertura de danos próprios pode ser desdobrada em pequenos packs mais personalizados, o que torna esta solução mais acessível e apelativa. Desta forma, mesmo clientes que optariam pela proteção básica do Seguro Obrigatório de Responsabilidade Civil Automóvel, acabam por alargar a sua cobertura, para obterem uma proteção mais robusta e mais ampla.
Para reduzir de forma eficaz a sinistralidade e proteger vidas, é essencial apostar na visibilidade na estrada: o uso de capacete, refletores e luzes deve ser uma prioridade, especialmente para quem circula em bicicletas ou trotinetes.
Os veículos elétricos já são um problema em custos de reparação?
Os veículos elétricos representam um desafio crescente no que respeita aos custos de reparação. Este aumento deve-se, em grande medida, à sua estrutura mecânica específica, que integra componentes mais dispendiosos, como as baterias, capazes de elevar significativamente os custos em caso de sinistro. Acresce ainda que muitas peças destes veículos são mais complexas e difíceis de substituir, exigindo mão de obra especializada. Face à forte expansão deste segmento, em especial pelos elevados custos dos combustíveis torna-se fundamental, enquanto seguradora, acompanharmos de perto este tema – só assim conseguiremos garantir que oferecemos soluções adequadas, competitivas e ajustadas às necessidades dos nossos clientes, dado que queremos continuar a incentivar a adoção de veículos elétricos, em linha com as crescentes preocupações de sustentabilidade e compromisso com um futuro mais sustentável.
Há grupos de condutores de maior risco identificados?
Sim, as estatísticas de sinistralidade rodoviária identificam grupos de maior risco: os jovens e os idosos. Os acidentes de viação permanecem como a principal causa de morte entre os jovens, que apresentam comportamentos mais arriscados e uma condução menos responsável, especialmente devido à velocidade excessiva. São também os principais utilizadores de velocípedes e motociclos, o que aumenta a exposição ao risco de acidentes. Por outro lado, os atropelamentos afetam sobretudo a população mais idosa, embora nem sempre resultem em casos graves. Esta faixa etária está mais vulnerável devido à mobilidade reduzida e à dificuldade em reagir a situações de perigo. Um dado relevante é que os homens têm maior probabilidade de se envolver em acidentes de viação do que as mulheres, refletindo uma tendência para comportamentos mais arriscados ao volante.
O pay-as-you-drive, pay-where-you-drive e outros sistemas semelhantes de formação de preço têm viabilidade e interesse económico para os seguradores e clientes?
Sim, modelos como o pay-as-you-drive e pay-where-you-drive representam tendências importantes no setor segurador, impulsionadas pelo avanço tecnológico e pelo acesso a dados cada vez mais precisos sobre o comportamento dos condutores. Esses formatos permitem uma personalização maior, premiando os bons comportamentos e adaptando as coberturas às necessidades reais de cada cliente. No entanto, é fundamental lembrar que o seguro assenta no princípio da mutualização, ou seja, na partilha do risco entre todos para garantir estabilidade e previsibilidade nas soluções oferecidas. Este equilíbrio entre personalização e proteção coletiva é essencial para manter o seguro acessível e sustentável para todos, assegurando que cada cliente pode contar com uma proteção sólida, independentemente das circunstâncias individuais.
Que recomendações simples e diretas pode dar para reduzir sinistralidade e vítimas?
A Zurich está atenta ao agravamento da sinistralidade rodoviária em Portugal. Infelizmente, não estamos a assistir a uma redução dos acidentes ao nível do que se verifica noutros países europeus. Para reduzir de forma eficaz a sinistralidade e proteger vidas, é essencial apostar na visibilidade na estrada: o uso de capacete, refletores e luzes deve ser uma prioridade, especialmente para quem circula em bicicletas ou trotinetes. Paralelamente, é importante reforçar o controlo de comportamentos de risco, como o consumo de álcool, o uso do telemóvel e aumentar a fiscalização – medidas que já têm mostrado resultados positivos noutros países europeus, como os países nórdicos.
Há também responsabilidade do Estado, por exemplo, quanto ao estado e desenhos das estradas e ruas?
Em Portugal, algumas vias apresentam características que aumentam em muito o risco de acidentes rodoviários: pavimento degradado, curvas perigosas e pouca sinalização, vias mal iluminadas, principalmente em áreas rurais e nos acessos a pequenas localidades, locais com falta de infraestruturas como passagens seguras para peões, ciclovias ou separadores centrais – e teremos de assistir a um maior investimento associado à segurança das nossas estradas. Investir em educação e campanhas de sensibilização é também fundamental. Este ano, a Zurich renovou a parceria com a Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP) para promover mensagens claras e impactantes, como “Quem vai com calma, chega melhor” ou “Quem vai com cuidado, vê melhor”. Queremos reforçar que atitudes tolerantes e responsáveis tornam a circulação nas estradas mais segura e contribuem diretamente para a redução do número de vítimas.
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“As medidas do Governo, só por si, não resolverão a elevada sinistralidade automóvel”
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