• Entrevista por:
  • Helena Garrido e Paula Nunes

Banca é a surpresa positiva para o FMI

É a grande surpresa e o maior motivo de satisfação para o FMI. Os banqueiros estão finalmente a reconhecer que a banca tem problemas e a trabalhar nas soluções.

Foi “uma das coisas mais importantes” desta quinta avaliação pós-programa da troika, diz Subir Lall. Os bancos estão finalmente a reconhecer que têm um problema de crédito malparado e de elevados custos operacionais e começaram a trabalhar nas soluções em conjunto com o supervisor e o Governo. A satisfação é manifestada por Subir Lall nesta parte da entrevista em que se fala sobre o setor bancário.

Há anos que o Fundo avisava os banqueiros que era preciso ter uma atitude mais proativa na resolução dos problemas em vez de esperar que o crescimento da economia os resolvesse, diz o líder da missão do FMI que esteve em Portugal entre finais de novembro e 7 de dezembro.

Subir Lall, chefe de missão do FMI para Portugal
Subir Lall, chefe de missão do FMI para PortugalPaula Nunes/ECO

A solução que está a ser trabalhada tem por base o princípio de que não há um fato único que sirva para todos os problemas da banca. São necessárias várias soluções, “uma abordagem holística”. Subir Lall diz que a estratégia que está a ser trabalhada “parece cobrir todos os aspetos do problema”.

Nem a necessidade de arranjar dinheiro para enfrentar o problema do crédito malparado preocupa o FMI. Subir Lall usa o exemplo do BCP para mostrar que, quando há uma estratégia convincente e coerente, os investidores de longo prazo aparecem. Quanto à CGD, o Governo tem de encontrar “espaço orçamental” para que haja dinheiro para capitalizar o banco público sem ameaçar os compromissos com a dívida. Embora, diz, o montante não seja elevado.

O sistema bancário português está melhor?

Uma das coisas mais importantes a que assistimos durante esta visita foi constatar que houve uma mudança — pelo menos alguns de nós sentiram isso — na atitude dos próprios bancos relativamente à forma como lidar com os grandes montantes de crédito malparado.

Há algum tempo que pedimos um esforço mais proativo da parte dos bancos e dos acionistas dos bancos para lidar com este problema. Mas, no passado, sempre sentimos que estavam um pouco passivos, à espera que o crescimento regressasse e que resolvesse o problema. Parece ter havido uma clara mudança de mentalidade. Estou certo que houve ação dos supervisores e do Governo, a enfatizarem a importância dessa mudança. Mas também os próprios bancos parecem falar de uma forma muito mais proativa. Agora dizem ‘sim, o problema existe e estamos a tentar lidar com ele’. Em vez de dizerem ‘vamos esperar que as coisas se resolvam’. Essa foi uma perceção muito encorajadora que tivemos nesta visita.

Houve uma mudança na atitude dos bancos (…) Agora dizem ‘sim, o problema existe e estamos a tentar lidar com ele’. Em vez de dizerem ‘vamos esperar que as coisas se resolvam’. Essa foi uma percepção muito encorajadora que tivemos nesta visita [da troika].

Subir Lall

Ao mesmo tempo, tanto do ponto de vista do Governo como do banco central, existe um esforço concertado e enérgico para encontrar uma solução, dentro do enquadramento europeu, que garanta também a estabilidade financeira, sem ser disruptivo e preservando o capital social e económico.

Claro, o mais importante é que, desta discussão que está a ser feita, saiam planos concretos e definição de datas. Mas estou contente com a mudança na forma de pensar. A atitude dos bancos é a mais proativa de que me lembro ter visto durante todo o tempo que liderei a missão do FMI.

Subir Lall, chefe de missão do FMI para Portugal, com a jornalista Helena Garrido.
Subir Lall, chefe de missão do FMI para Portugal, com a jornalista Helena Garrido.Paula Nunes/ECO

Pode dar-me um exemplo?

Quando os bancos discutem — obviamente não vou comentar bancos específicos — e falam sobre o tema, reconhecem agora de forma honesta que a magnitude do problema é o que é, mas também reconhecem que um crescimento mais elevado não vai, por si, eliminar o problema. E que os bancos têm de fazer mais para lidar com os ativos problemáticos e também têm de fazer mais do lado dos custos e da rentabilidade, para criarem o espaço de que necessitam para provisionarem de forma mais agressiva a limpeza dos balanços. É algo que temos pedido já há bastante tempo. Na realidade, poderá recordar-se no final de 2013, creio que em dezembro, quando aqui estive, pedi uma abordagem agressiva da parte dos bancos. Na altura, não nos pareceu que a mensagem tivesse verdadeiramente chegado a bom porto. Mas agora sentimos que há alguma compreensão.

Os bancos aceitam agora que têm um problema, mas não têm ainda planos concretos?

Mas parece que estão a trabalhar nisso. Estamos ansiosos por ver o resultado final. Obviamente que vai ser um processo longo que não é fácil. Temos de ter alguma paciência.

No comunicado, o FMI diz que as autoridades estão a adotar uma estratégia que abrange a supervisão, a legislação e a justiça. O que significa isso?

Há um reconhecimento alargado, primeiro do lado do supervisor. Claramente, há consciência de que os bancos têm, primeiro, de reconhecer o problema, para o compreenderem e para avaliarem realisticamente os ativos e depois encontrar uma forma de lidar com o problema devidamente.

Mas também se reconhece que nem todo o crédito malparado (NPL) é igual. Depende da dimensão de quem pediu o crédito (se são PME ou grandes empresas), se têm colaterais ou não, se estão ligadas ou não ao imobiliário. As autoridades, e os supervisores também, percebem que a abordagem tem de compreender as especificidades do problema. Não pode ser uma solução única para todos.

É necessária uma abordagem holística [para resolver o problema dos bancos] , tanto ao nível da consciencialização dos bancos, mas também ao nível das ferramentas para resolver o problema.

Subir Lall

Também se reconhece agora que este é um problema de todo o sistema bancário e não de alguns bancos específicos. Claramente, o crédito malparado é um problema sistémico, o que acontece também noutros países. Por outro lado, por exemplo, existe também o reconhecimento de que quando os bancos têm de recorrer ao sistema judicial, poderá haver um grande hiato temporal entre o momento em que o caso é iniciado e aquele em que é concluído. E os bancos podem aceder ao colateral subjacente, ou livrar-se dele. Há ainda trabalho a decorrer, por isso ainda é muito cedo para comentar os detalhes

É necessária uma abordagem holística, tanto ao nível da consciencialização dos bancos, mas também ao nível das ferramentas para resolver o problema. A abordagem que está a ser trabalhada parece cobrir todos os aspetos do problema.

Mas para resolver este problema não precisamos de mais dinheiro?

Sim, no sentido em que o capital dos bancos terá de ser aumentado. É por isso que no passado salientámos que era necessário os bancos terem mais margem de manobra nos seus balanços e assim focarem-se na rentabilidade. É por isso que encorajamos, tal como no passado, que cortem nos custos. O rácio custos/proveitos de alguns bancos ainda é bastante elevado. Outros bancos têm sido mais bem-sucedidos. Portanto, pode ser feito. A rede de balcões, por exemplo. Não são necessários tantos balcões, num país tão pequeno.

Como sabe não se podem fechar os balcões ao mesmo tempo. Criaria um significativo problema de desemprego, um problema social…

É verdade. Mas dizem-nos isso há pelo menos três anos. Já passaram três anos. Se tivessem começado há três anos estariam muito mais avançados no processo. Mas sou um otimista. Se começarem agora já é muito bom.

Mas, como não podem reduzir tão rapidamente os custos operacionais, precisam de dinheiro para aumentar capital. Certo? Quanto vão precisar? E quem pagará?

Neste momento não temos uma estimativa agregada porque exigiria olhar para todos os bancos e não temos acesso a esse tipo de informação, obviamente, porque não somos supervisores. Mas se pensarmos em termos de capital, temos um exemplo de um banco que conseguiu atrair capital privado de um investidor.

Subir Lall, chefe de missão do FMI para Portugal
Subir Lall, chefe de missão do FMI para PortugalPaula Nunes/ECO

Está a falar do BCP?

Sim. Desde que um banco seja capaz de apresentar uma estratégia coerente e de mostrar aquilo que está a enfrentar, a forma como está a planear lidar com a questão e a visão de longo prazo, os investidores de longo prazo vão ter isso em conta. E estarão dispostos a injetar capital novo num banco desde que vejam um modelo de negócio sustentável a longo prazo e que, eventualmente, seja lucrativo. Desde que fique claro qual a abordagem do banco, quais as perdas máximas que um investidor potencial poderá vir a sofrer e quais os riscos. É bastante fazível. Mas o primeiro passo é reconhecer que há um problema e que tem de ser tratado de forma proativa. É por isso que estou otimista, porque temos assistido a isso. O exemplo desse banco é muito bom para isso.

A Caixa Geral de Depósitos não pode usar capital privado. Como resolver o problema sem usar dinheiros públicos?

Já existe um acordo para injetar dinheiro público no banco.

Isso não é um risco para a dívida pública?

Obviamente que não é desejável do ponto de vista da dívida pública. Trata-se de um banco público, o acionista são os contribuintes, por isso é que é necessário criar espaço orçamental, noutro sítio, para que coisas destas possam acontecer. Medidas extraordinárias como esta já aconteceram no passado. Isto está ligado à estratégia orçamental. É necessário criar espaço para poder fazer isto. Mas no contexto geral das coisas, a quantidade de dinheiro canalizada para isso não é muito grande em percentagem do PIB.

  • Helena Garrido
  • Paula Nunes
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