Data centers criam “oportunidade certa” para a energia eólica offshore

Pedro Amaral Jorge acredita que a energia eólica offshore pode ter um novo impulso em Portugal com a instalação de centros de dados, que estimulam a procura e trazem empresas robustas à equação.

A indústria da energia eólica vai estar no centro da discussão nos dias 21 a 23 de abril, na conferência da associação do setor a nível europeu, a Wind Europe, que se realiza em Madrid. O último dia irá a lançar os holofotes sobre a tecnologia que leva as torres até ao oceano: girará em torno da energia eólica offshore.

Pedro Amaral Jorge, tem acompanhado de perto os avanços — e travagens — da energia eólica offshore em Portugal como líder da Associação Portuguesa de Energias Renováveis. Agora, a caminho da presidência do Operador do Mercado Ibérico – Portugal (OMIP), e quatro anos depois de publicada uma lista com 50 interessados em participarem num leilão português, faz um balanço deste percurso, que está a ser feito “ao ritmo que é possível”, no seu entender.

Com o crescimento da procura de eletricidade, muito assente nas necessidades dos centros de dados, a energia eólica offshore pode ter agora a “oportunidade certa” para dar passos mais decisivos em Portugal, e tornar-se economicamente viável, crê Amaral Jorge.

À data de hoje, considera que um leilão não é a única forma de fomentar a instalação desta tecnologia. Acredita ainda que a larga maioria dos 50 interessados se mantém disponível para investir em águas lusas, mas que seria benéfico um sinal de vida, por exemplo, ao avançar desde já com a seleção das empresas que se qualificam para desenvolver projetos em determinadas áreas. Seja como for, um procedimento concorrencial concluído até ao final do ano, considera “difícil”.

Lá fora, a voz contrária da administração norte-americana em relação às energias renováveis, em particular a eólica, pode fazer algumas empresas voltarem a olhar para a Europa, vaticina. Por cá, em Portugal, aponta dificuldades no licenciamento de projetos eólicos.

Que indicações tem agora sobre a fase em que estamos neste processo de um eventual leilão de energia eólica offshore?

Temos tido algumas iniciativas por parte da tutela [ministério do Ambiente] relativamente a um acordo com o Luxemburgo para apoiar o desenvolvimento das instalações. Portugal fez um trabalho relevante relativamente à espacialização das áreas marítimas, ficou definido o plano de afetação das energias renováveis. Houve, entretanto, o levantamento de um conjunto de dados do ponto de vista oceanográfico, biológico, climático e atmosférico por parte do IPMA [Instituto Português do Mar e da Atmosfera] e por parte do LNEG [Laboratório Nacional de Energia e Geologia]. O ideal seria, uma vez essa informação toda recolhida, que se pudesse pensar como é que se poderia fazer um procedimento concorrencial para atribuir este leito marítimo.

Vamos precisar de investir em alguma rede elétrica de transmissão offshore e onshore. Até 2 gigawatts de consumo, o investimento em terra na rede elétrica de transmissão é pequeno, mas temos que desenvolver a componente da rede no mar. E depois precisamos de criar o enquadramento de mercado para que os projetos consigam estar em condições de serem financiáveis e bancáveis.

Ao contrário do que nós fizemos no passado, em que pensámos que poderia haver apenas uma solução para a remuneração em função dos contratos por diferença para o eólico offshore, neste momento pode pensar-se em hibridizar provavelmente um modelo de Power Purchase Agreement [contratos de aquisição de energia] a longo prazo, juntamente com o apoio de CfD [contratos por diferenças], mas isso tem que ser devidamente estudado e analisado.

O que é importante aqui é perceber que a lógica tem que ser o mercado a longo prazo, para que estes projetos possam ver a luz do dia.

O que é importante aqui é perceber que a lógica tem que ser o mercado a longo prazo, para que estes projetos possam ver a luz do dia.

Com as zonas de grande procura que têm sido licitadas, quer em Sines, quer noutras regiões, e com esta necessidade crescente de termos potência elétrica para suprir o consumo de data centers, cria-se aqui provavelmente um momento do mercado em que juntar geradores, comercializadores e consumidores através de mecanismos de estruturação de contratos a prazo pode ser a oportunidade certa. Penso que é preciso investigar essa alternativa e perceber como é que isso pode avançar. Obviamente temos que passar pela parte dos licenciamentos todos ainda, mas a definição de onde os centros eletroprodutores iam ficar instalados no mar é um trabalho que normalmente demora muito tempo, e felizmente Portugal já o fez.

Então, pensa que estamos a avançar a um ritmo adequado?

Eu não diria que estamos a ir a um ritmo adequado, eu diria que estamos a ir ao ritmo que é possível, porque provavelmente é preciso acelerar esta questão de trazer o interesse dos geradores para cá.

Eu não diria que estamos a ir a um ritmo adequado, eu diria que estamos a ir ao ritmo que é possível.

Mas o que aconteceu, tirando Inglaterra, é que muitos projetos offshore também ficaram vazios noutros procedimentos concorrenciais. Também é preciso pensarmos que isto tem de ser feito de certa forma, para que o nosso não fique vazio, ou por prever condições de remuneração que não são atingidas, ou por questões de garantia de acesso ao mercado que não estão asseguradas.

Apesar do “ritmo possível”, o leilão está em risco de não se realizar, na sua opinião e das indicações que tem?

Eu acho que devemos ter leilões ou devemos até ter outras estruturas de mercado a prazo que consigam ajudar a fazer isto. É uma questão que tem que ser estudada e tem que ser reanalisada. Os leilões vão depender muito do preço médio da eletricidade.

Eu acho que devemos ter leilões ou devemos até ter outras estruturas de mercado a prazo que consigam ajudar a fazer isto.

Agora, nós sabemos que aquela potência para o baseload nacional [quantidade mínima de energia elétrica que é fornecida ou consumida num sistema durante um determinado período] é fundamental, e que é uma alternativa interessante face ao que nós estamos a assistir agora, de utilizar ou ciclos combinados ou qualquer outra fonte fóssil, ou pensarmos que vamos ter uma solução, por exemplo, nuclear, nos próximos 15 anos, que não teríamos.

Então, quer seja um leilão ou outro tipo de procedimento, o eólico offshore não está esquecido e estamos a avançar?

Não, não está esquecido, está no nosso Plano Nacional de Energia e Clima. Há alguns projetos que têm avançado na União Europeia, muito mais bottom fixed do que flutuante, mas o flutuante vai ser a próxima tecnologia.

Além disso, a lógica do eólico offshore não é apenas a de um projeto de produção de eletricidade, é todo o desenvolvimento de uma fileira industrial das empresas instaladas em Portugal e criar aqui o chamado cluster, que permita desenvolver infraestruturas portuárias e transportes. Há aqui todo um salto de crescimento económico que vem associado à instalação destes centros eletroprodutores.

A lógica do eólico offshore não é apenas a de um projeto de produção de eletricidade, é todo o desenvolvimento de uma fileira industrial das empresas instaladas em Portugal.

Em 2022 e em 2023, não tínhamos a noção desta exigência tão acentuada de potência elétrica para computação, não é? A revolução industrial 4.0 vai ter muita informatização, muita robotização, portanto vai precisar de muito consumo elétrico. Não vai ser a solução de converter gás natural em eletricidade ou converter qualquer outra fonte fóssil em eletricidade que vai resolver o problema.

Temos que criar um portfólio das diferentes tecnologias, solar, eólico onshore, eólico offshore com baterias, e temos que criar aqui uma matriz de resiliência.

Tendo em conta esse contexto que nos dá, que se torna mais favorável para o desenvolvimento de projetos offshore, nomeadamente as exigências ao nível da computação, quais são as expectativas à data de quando poderá ser realizado um procedimento a nível nacional para avançar mais definitivamente com a energia eólica offshore?

Eu não tenho essa informação. O que lhe posso dizer é que há aqui um processo que pode ser interessante para manter o interesse em Portugal, que é termos uma pré-qualificação técnica e uma pré-qualificação financeira, e depois provavelmente vamos ter que escolher um procedimento concorrencial.

Há aqui um processo que pode ser interessante para manter o interesse em Portugal, que é termos uma pré-qualificação técnica e uma pré-qualificação financeira.

Para manter o interesse, fala de pré-qualificação técnica e financeira. Em que é que consistiria?

[Olhando a] todo o universo de empresas que tinha mostrado interesse à data, selecionar aquelas que efetivamente são empresas capacitadas. Fazer-se uma avaliação às suas capacidades técnicas, às suas competências e capacidades financeiras, por autodeclaração, e com isso criar, no fundo, um conjunto de empresas a que nós, enquanto Estado português, reconhecêssemos a capacidade para poder desenvolver o projeto.

Os 50 interessados, tem ideia de se se mantêm, ou se a lista diminuiu?

Houve alguns que já saíram de Portugal. Por exemplo, a Equinor saiu, a Orsted saiu, a Total saiu, mas havia muitos interessados que continuavam firmes a olhar para esta oportunidade. Não é porque três saem que é uma revolução. É um número inferior de empresas? É. Mas isso não reduz, substancialmente, o interesse que pode ter. E essas empresas, em função da dimensão que têm, quando o mercado começa a movimentar, também automaticamente se posicionam para poder voltar a estar em jogo neste mercado.

Pedro Amaral Jorge, presidente da OMIP (Operador do Mercado Ibérico de Energia – Pólo Português), em entrevista ao ECO/Capital VerdeHugo Amaral/ECO

Lançar um procedimento, este ano não será previsível, ou acha que ainda é uma hipótese?

Não tenho informação alguma que lhe possa dizer. Para os leitos marítimos seria possível, provavelmente, para o procedimento concorrencial como um todo, acho difícil que possa acontecer até o final do ano.

Basicamente, então, definir quem fica em cada zona.

Exatamente.

O procedimento concorrencial como um todo, acho difícil que possa acontecer até o final do ano.

A meta que tínhamos para 2030 dos 2 gigawatts, pensa que ainda é possível?

Estar em operação, acho que é praticamente impossível. Agora, começar a trabalhar-se com o objetivo de estar em curso, acho que sim, acho que ainda é possível.

Isso seria chegarmos a 2030 com os projetos em que fase?

Licenciados em termos de estrutura da sua bancabilidade, provavelmente alguns já em fabricação dos flutuadores em espaço nacional. Isso seria vantajoso quer para o sistema, quer para a economia nacional.

Um dos aspetos que referiu como importante é a bancabilidade. A ex-secretária de Estado de Energia, Maria João Pereira, chegou a avançar que o Governo estava a preparar um estudo para perceber a viabilidade económica [do eólico offshore]. Tem ideia se este trabalho já está concluído?

Não. Eu imagino, da informação que tenho, que este trabalho continue em curso.

Pedro Amaral Jorge, presidente da OMIP (Operador do Mercado Ibérico de Energia - Pólo Português), em entrevista ao ECO/Capital Verde Hugo Amaral/ECO

A energia eólica offshore é atrativa economicamente para o país ao dia de hoje?

Num portfólio de múltiplas tecnologias de fonte renovável, ter uma alternativa de eólico offshore para uma pequena parte da potência, em que essa eletricidade seja vendida no mercado a prazo a consumidores, sem que tenha um impacto direto a grande parte dos consumidores residenciais nacionais, acho que faz sentido.

Construir o eólico offshore a pensar em consumidores específicos, é isso?

Estas infraestruturas de computação e de armazenamento de dados precisam de muita eletricidade. Pretende-se que seja sem emissões. Não é apenas o eólico offshore que vai suprir este consumo todo, supriria uma parte. Na lógica do custo médio, poderia ser uma coisa extremamente interessante para arrancar o eólico offshore em Portugal. Para desbloquear essa viabilidade económica, temos de começar a ter os primeiros passos de empresas que tenham, no fundo, índices de rating corretos para poder contratar esta potência a prazo e, com isso, conseguir avançar nesse sentido.

Quando olhamos para Microsoft, Amazon, Apple, todos estes gigantes que asseguram a um banco que são clientes que têm a robustez financeira para poder assinar um Power Purchase Agreement a 15 ou 20 anos. Essas empresas, se forem a fundação destes primeiros data centers e sistemas de computação em Portugal, podem ser a grande força de arranque para acelerar a implementação do eólico offshore.

Essas empresas, se forem a fundação destes primeiros data centers e sistemas de computação em Portugal, podem ser a grande força de arranque para acelerar a implementação do eólico offshore.

Isso seria quase como ter um autoconsumo, numa escala completamente diferente?

Não é bem um autoconsumo porque essa eletricidade vai à rede elétrica, mas a consolidação financeira entre comprar aquela eletricidade a um determinado preço num contrato bilateral e remunerar os geradores dessa forma, pode ser uma solução interessante para evitar que esses custos, ou que uma parte representativa desses custos, tenha qualquer reflexo sobre a tarifa dos consumidores da eletricidade.

Existem ainda outras questões, como a ligação dos projetos à rede.

Um financiamento europeu que retirasse esse encargo dos consumidores de eletricidade é o que se tem procurado fazer. Penso que essa será a melhor solução.

Mencionou a questão dos clusters, que é um dos maiores argumentos [para a instalação de tecnologia eólica offshore]. Como este já é um assunto com alguns anos, queria perceber se, neste momento, Portugal ainda vai a tempo de captar essa cadeia logística, ou se já outros países estão demasiado à frente e, portanto, seremos sempre importadores.

Acho que Portugal, em parceria com empresas que já estão localizadas nesses países e que já têm uma base de escala mínima, não perdeu o comboio. Mas terá que ser através de parcerias, juntamente com grande parte das competências que já existem em Portugal, em empresas que já estão cá instaladas. Todo esse ecossistema empresarial, acho que ainda vai a tempo, inclusivamente empresas que estão instaladas no Porto de Setúbal e que já fazem esse trabalho também para empresas no estrangeiro. Ainda é uma oportunidade.

Obviamente que ter a administração da Casa Branca completamente alinhada com ter uma solução energética na parte do fóssil não ajuda ao potencial de crescimento que [o eólico offshore] poderia ter, mas não o impede.

Nos Estados Unidos, o Presidente Donald Trump tem travado vários projetos desta tecnologia. De que forma é que esta atitude afeta a Europa e Portugal? Quais são os efeitos?

Quando eu olhei para os dados da Bloomberg New Energy Finance, referentes ao ano 2025, em termos de investimento em renováveis lato sensu, mobilidade, produção de eletricidade, armazenamento, o que nós vimos foi que a União Europeia aumentou face a 2024. Praticamente 18% no investimento de soluções de fonte renovável, nas quais, provavelmente, terá que estar inserido o eólico offshore. Os próprios Estados Unidos aumentaram em 3,5% o investimento face a 2024. Obviamente que ter a administração da Casa Branca completamente alinhada com ter uma solução energética na parte do fóssil não ajuda ao potencial de crescimento que [o eólico offshore] poderia ter, mas não o impede. É expectável que este tema do eólico offshore, mesmo que congele um pouco durante dois ou três anos, que cedo ou tarde venha para cima da mesa para o tal base load complementar que é necessário.

Mas a energia eólica offshore tem sido das mais atingidas.

Porque há uma especial predileção, sem se perceber porquê, contra eólico em geral por parte da administração de Trump. Não tem qualquer sentido, nem de mercado, nem económico, nem ambiental, aquilo que ele muitas vezes refere. Creio que os Estados, na sua governação local, se tiverem soluções que são o melhor para as suas empresas e para os seus consumidores residenciais, vão procurar alcançar essas soluções.

Mas então, quais as repercussões para o lado europeu?

Se esses projetos afetarem muito as empresas, porque são projetos de milhares de milhões de euros, podem fazer com que o seu processo de reinvestimento em outras geografias seja mais lento. Mas não acredito que seja de mudança total de direção.

Ou seja, pensa que vão continuar a querer investir no offshore e podem mesmo realocar o investimento?

Olhar para a Europa novamente. Não podemos esquecer que o Inflation Reduction Act, que era aquele grande programa do Presidente Biden, que foi tentativamente desmantelado pela nova administração Trump. Quando essas condições foram criadas nos Estados Unidos, houve muitas empresas a olhar para aquele enquadramento regulatório e pensar que era mais fácil acelerar os projetos daquele lado do Atlântico. Quando revertemos a administração e há uma desaceleração desse programa, é expectável que voltem a olhar para a Europa.

Conta então que não existam repercussões especialmente negativas.

Eu acho que não vai haver redução das metas, pode haver translação das metas no tempo. Mesmo nos Estados Unidos, acho que mesmo que desacelere, não vai inverter.

Passaria do assunto do eólico offshore para o eólico, o terrestre. Nas projeções da Wind Europe, que foram divulgadas recentemente, Portugal deverá adicionar 2,1 gigawatts até 2030. Ainda assim ficamos a um pouco mais de 2 gigawatts, aquém da meta que temos no PNEC. Portugal está a esquecer-se do eólico terrestre?

Não, eu acho que há muito interesse no eólico terrestre. Infelizmente, nós temos tido muitas dificuldades no licenciamento desses projetos e alguma incompreensão, vamos chamar, sistémica de porque é que esses projetos são interessantes. A forma mais fácil de o fazer é hibridizando onde há solar. Nós temos tido alguns projetos que têm chumbado em sede da avaliação do ICNF, muitas vezes com alguma perplexidade da nossa parte. O grande tema do eólico vai passar muito pela implementação final daquilo que é a transposição da RED III, quando ficar estruturalmente e com segurança jurídica devidamente estabelecida a questão do interesse prevalecente das renováveis, não prejudicando o restante.

Infelizmente, nós temos tido muitas dificuldades no licenciamento desses projetos e alguma incompreensão, vamos chamar, sistémica de porque é que esses projetos são interessantes.

Crê que houve algum excesso de zelo nessas avaliações até agora?

Eu não posso dizer que seja um excesso de zelo porque eu não conheço os casos todos. O que nós temos conhecimento é que às vezes há interpretações que não parecem fazer sentido, recusa de utilização de tecnologias para evitar a colisão de aves que já estão previstas na lei alemã… Esse tipo de coisas têm que efetivamente ser reanalisadas.

Nesta conversa, já falámos tanto de as metas do eólico offshore muito provavelmente não serem atingidas, e as do eólico terrestre, nas projeções da Wind Europe, estão no mesmo caminho. Ainda vamos a tempo de cumprir as metas do PNEC?

Mesmo que nós não consigamos chegar a todas as metas de capacidade em 2030 e o consigamos fazer até 2032, 2033, eu acho que não é péssimo. Agora, temos que claramente assegurar que temos 90% de incorporação de renováveis na produção de eletricidade.

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