Ex-militante do PCP durante 48 anos, a presidente de Setúbal revisita a rutura com os comunistas que a levou a independente e conta como surgiu o apoio do PSD. Para as Presidenciais, já tem candidato.
A 12 de outubro, o PCP, com o qual Maria das Dores Meira governou Setúbal em maioria absoluta de 2009 a 2021, passou das seis vitórias consecutivas na capital de distrito, desde 2001, para uma derrota significativa, com apenas um mandato alcançado, numa vereação com 11 eleitos.
Regressada à cadeira da presidência enquanto independente apoiada pelo CDS e PSD, provocando mesmo uma cisão entre os social-democratas locais e nacionais, Dores Meira explica o que a levou a deixar os comunistas, dizendo-se empurrada devido ao trabalho executado nos últimos quatro anos em Almada, autarquia onde se candidatou em 2021, após atingir limite de mandatos na capital do Sado.
Acusada pelo antecessor de peculato pelo uso do cartão de crédito da autarquia, Dores Meira nega, assegura ter havido na campanha eleitoral um conluio entre PS e PCP, e lembra que também André Martins usou esse cartão quando ainda era seu vice-presidente.
Na entrevista ao ECO/Local Online, a autarca, ex-militante do PCP durante 48 anos e uma das figuras mais destacadas do partido no municipalismo, revela em quem vai votar nas Presidenciais. A resposta pode surpreender.
A sua vitória numa candidatura independente é a vitória da personalidade Dores Meira, ou a derrota do trabalho dos últimos quatro anos?
É mais o que não foi feito, porque se alguma coisa tivesse sido feita, a queda não seria tão grande. As pessoas que continuaram este projeto – porque a ideia era exatamente essa, um projeto em que me dediquei de alma e coração, para que ele tivesse continuidade do trabalho feito –, e que estavam comigo há cerca de 20 anos, com três mandatos de maioria absoluta, mais três anos de mandato com maioria relativa, foram, de facto, dececionantes.
Várias das pessoas que lideraram a Câmara nos últimos quatro anos estiveram consigo. O presidente dos últimos quatro anos foi seu vice-presidente. Fora do seu Executivo deixou de ter qualidades?
Quando achamos que sabemos tudo e conhecemos tudo, é mentira. Não conhecia aquela pessoa. Conhecia alguns dos que o cercavam e que tentaram fazer comigo o que fizeram com ele, no sentido de serem eles a comandar, com muita prepotência, muita ditadura, muita perseguição às pessoas. Tentaram comigo, mas não conseguiram.
Depende da personalidade de cada um. Eu não deixaria nunca que isso acontecesse. Era do executivo que deveria sair a orientação de trabalho político, para depois passar ao trabalho efetivo. Na aproximação às juntas de freguesia, ao movimento associativo, aos nossos trabalhadores, foi sempre esse o meu sucesso. E, portanto, não haver meia dúzia de pessoas que, em nome do partido, comandavam o exercício municipal.
Quando saí – e em sete pessoas, só eu é que saí – caiu tudo que nem um baralho de cartas. Caiu porque este trabalho foi comandado pelo partido, por algumas pessoas que nem sequer faziam parte do Executivo e que comandaram a atitude do senhor presidente, que não teve a minha personalidade, para dizer, como eu disse várias vezes no PCP, que se não confiam em mim, ponham-me de lado.
A 12 de outubro, o cidadão penalizou a obra feita nestes quatro anos ou premiou a personalidade a quem deu vitória?
O cidadão olha para as duas coisas. Olha para a obra, pensando que foi com esta personalidade que a obra aconteceu. Porque quando saí – e em sete pessoas, só eu é que saí – caiu tudo que nem um baralho de cartas.
Caiu porque este trabalho foi comandado pelo partido, por algumas pessoas que nem sequer faziam parte do Executivo e que comandaram a atitude do senhor presidente, que não teve a minha personalidade, para dizer, como eu disse várias vezes no PCP, que se não confiam em mim, ponham-me de lado. Se confiam em mim, eu devo fidelidade e muito trabalho aos setubalenses.
Primeiro os setubalenses, os nossos trabalhadores, as nossas freguesias, e depois falamos de partido. A minha atuação não é contra aquilo que é a essência do partido, aquilo que são os objetivos do partido, ou seja, estar próximo das pessoas e resolver os problemas das pessoas. Acho que é esse o objetivo do partido, ou deveria ser.
Tentou regressar, inserida na CDU, mas a CDU preferiu manter o presidente que estava em exercício?
Depois das eleições [de 2021], critiquei várias vezes a atitude do PCP em Almada, estava lá como vereadora de oposição, e critiquei várias vezes a atitude do PCP, porque não me identificava.
Quando se começa a desenhar o futuro autárquico, houve quem dissesse, do PCP nacional… eu não pedi para continuar, mas, antes que eu pedisse, essa pessoa – não sei se por decisão própria, porque muitas vezes também se fazem coisas por decisão própria, dizendo que o partido decidiu, e quando dizemos “o partido decidiu, então eu quero falar com o partido”, é claro que ninguém aparece, não há ninguém que dê a cara – com medo que eu colocasse em cima da mesa que gostaria de continuar na vida autárquica, disse-me imediatamente que o PCP não contava comigo, eu era página virada e carta fora do baralho.
Quem é essa pessoa?
É um membro destacado do Comité Central, não posso dizer quem é, não devo dizer, não me fica bem, não aquece nem arrefece. Para verem o tipo de atitude e como as pessoas são usadas, amachucadas e deitadas fora. Só para se ver a atitude do PCP em relação a mim, mas não fui caso único.
Houve muitos camaradas a quem fizeram isto e eu achava que não era bem assim, quando ouvia falar dos outros. Dizia sempre que era dentro do partido que as coisas tinham de se discutir. Mas, de facto, é mesmo verdade. Não adianta nada, nada, mas nada. Foram 48 anos [de militância, entre 1 de janeiro de 1976 e 26 de abril de 2024], sei o que estou a dizer.
A ortodoxia do PCP venceu-a e levou-a a sair?
Sim, já era o limite dos limites. Eu tive um boicote duro nas eleições em Almada.
Do PCP local?
Do PCP local. Eu acho que havia muita gente que não me conhecia, pese embora o facto de morar ali, saía de manhã muito cedo e entrava muito tarde. Eu tinha cinco escritórios [de registo de marcas e patentes], e, portanto, tinha sempre muita coisa para fazer. Depois vim para a Câmara, continuei a sair cedo e a entrar muito tarde. Foi havendo uma cada vez menor ligação às gentes de Almada, ao tecido empresarial e movimento associativo.
Quando se trabalha muito, e quando se tem uma profissionalidade forte, isto ensombra algumas pessoas que fazem da mediocridade a sua vida, e a forma que têm de se defender é atacando os outros. Não pelo trabalho, mas pela demagogia, pelo ataque gratuito. É isto que tem levado a que o PCP se vá afastando do movimento associativo, das populações. Verifiquei aqui e verifiquei lá, não há grande ligação do PCP aos bairros sociais.
Fui membro de uma comissão de moradores, das primeiras a aparecerem no país, em maio de 1974. As duas vezes que fui presa pela GNR, porque ainda não tinham percebido que havia o 25 de abril, eu estava a defender uns moradores que viviam em condições deploráveis. Tive muita população a ir buscar-me ao posto da GNR.
Só quero saber o que é que essas pessoas deram ao PCP, ou hoje dão ao PCP. Não conhecem os bairros sociais. Eu andei naqueles bairros sociais em Almada, com alguns camaradas, é certo, mas o grosso não estava lá. As pessoas já não estão em (19)76, em 78, em 80, já não se deixam enganar. Se aquilo fosse credível, o resultado não seria o que temos vindo a verificar.
Quando as pessoas começaram a perceber que eu vinha, as pessoas disseram logo, “você sabe que o meu voto vai ser em si, agora com mais alegria, porque não tenho que tapar os olhos”. Aqueles que eram do PSD, que queriam que eu voltasse, e que nem tapando os olhos conseguiam pôr a cruz na CDU, começaram a dizer “finalmente, agora sim, vou votar em si”. Eu dizia sempre aos dirigentes locais do PSD que devíamos conversar.
Saltando então para Setúbal. O PSD local incompatibilizou-se com o PSD nacional por recusa de se associarem a si, considerando o apoio que o PSD deu à sua candidatura independente. Como viu essa questão?
Foi com alguma tristeza que verifiquei essa situação. Quando iniciei o processo de passar a independente e de me candidatar, tive algumas conversas com pessoas do PSD.
PSD local?
Local. Dizendo-lhe que, se calhar, não era mau se conversássemos. Eu temia que o PSD não conseguisse eleger ninguém, porque quando eu cá estava, o PSD não conseguiu pôr mais que um vereador. A maior parte das pessoas que votavam na CDU… votavam em mim, não votavam na CDU. É melhor esclarecermos isto: votavam em mim.
Essas pessoas faziam sempre com que a CDU, comigo, tivesse a maioria absoluta. Era uma grande ajuda por parte das pessoas do PSD, que diziam nós não votamos em partidos, votamos em pessoas. Mas era eleitorado essencialmente do PSD. Muita gente diz isto. Também havia muita gente do PS que votava em mim, todos os partidos votavam em mim. Mas o grosso era, de facto, pessoas que votavam o PSD. E diziam sempre “tenho que tapar os olhos para conseguir votar em si”.
Quando as pessoas começaram a perceber que eu vinha, as pessoas disseram logo, “você sabe que o meu voto vai ser em si, agora com mais alegria, porque não tenho que tapar os olhos”. Aqueles que eram do PSD, que queriam que eu voltasse, e que nem tapando os olhos conseguiam pôr a cruz na CDU, começaram a dizer “finalmente, agora sim, vou votar em si”. Eu dizia sempre aos dirigentes locais do PSD que devíamos conversar.
Do ponto de vista da política local, é totalmente diferente, não estamos a falar de legislativas, de quem vai promulgar leis, de quem vai decidir a política do país. E eu dizia, temos de conversar. E o tempo foi passando, até que fui abordada pelo presidente da concelhia para um apoio. O apoio seria ele ficar num lugar de destaque, neste caso, em segundo lugar.
Eu disse-lhe “vou pôr [o tema] às pessoas que estão comigo, eu não quero coligações, nem os outros vão querer coligações, mas eu vou colocar”. É claro que ninguém quis, tal como eu previa. Não queriam coligações. É por demais evidente que se uma pessoa que é o presidente da concelhia está num lugar elegível, seria uma coligação. Eu disse que não.
Porque assim passaria mesmo a ser vista como a candidata do PSD em Setúbal?
Como é óbvio. Eu não queria ser a candidata do PSD. Eu quero ser a candidata dos setubalenses e azeitonenses, independentemente de quem vem cá votar, ou de quem nos vai apoiar. Eu tive sempre o apoio do PSD e os votos de muitos socialistas, bloquistas e muita gente do CDS. E isso nunca incomodou ninguém.
Isto é política local. Não havia problema algum. Podíamos ir buscar destacados militantes do PSD, para serem, por exemplo, pessoas de destaque na Comissão de Honra. Pessoas do PS que foram destacados representantes na Comissão de Honra. Nunca houve problema algum.
O problema era ter alguém do PSD local, num lugar elegível, e sobretudo a número dois.
Eu não aceitaria uma coisa dessas. Com uma pessoa com essas características, um apoio passaria a ser uma coligação. Quando eu disse que não, passei a ser a pior pessoa do mundo. A partir desse momento, [disseram] “vamos perder a identidade. Ela não tem idoneidade para liderar um grupo”. Por que não tenho idoneidade?
No que toca a idoneidade, em cima das eleições ressurgiu a questão do peculato no uso do cartão de crédito da Câmara.
Sim. Começa a ser feito um fato à medida, pela CDU e pelo PS. Aproveitado por aqueles dirigentes do PSD. Eu nunca tive conversas com o PSD nacional até àquela altura. Do PSD nacional perguntam-me se eu estaria disponível para aceitar o apoio. E eu disse que era bem-vindo.
Primeiro, tive conversas com o CDS, que me perguntou se aceitava, e eu disse que eram muito bem-vindos. E depois veio o PSD, e eu disse que eram muito bem-vindos. Com o CDS não houve problema nenhum, tudo foi pacífico. Com o PSD local houve alguma guerra.

E o relatório sobre alegado peculato que apareceu a dias das eleições?
É um relatório muito bem esculpido, documentos internos sem contexto. Tudo tem um contexto na vida. Aqueles documentos também têm um contexto, e alguns deles foram tão bem fabricados, tão bem descontextualizados, que fizeram crer que eu estaria em dois sítios no mesmo dia.
Em relação à utilização dos cartões, os cartões são dinheiro, e os cartões eram utilizados por toda a Câmara. Inclusive pelos detratores, que foram ao Vietname, que foram à China, a tantos sítios, utilizaram o cartão. Isto estará tudo no processo para a Justiça. É legal. Estamos à espera que venham pareceres, que eu pedi, assim que cheguei aqui, de isto tudo.
Os cartões eram e são legais. Em caso de urgência, se é preciso comprar pneus, um carro de bombeiros ou do lixo que parou porque teve um problema, é necessário comprar lâmpadas que se fundiram numa escola… leva o cartão e vai buscar. Se se está a fazer o procedimento, que na contratação pública leva uma data de tempo, leva o cartão e vai buscar.
Mas há passos legais prévios para uma Câmara poder fazer essas aquisições.
É utilizado em regime de urgência, e há na lei a exceção para urgências. Quando se faz documento do cartão, ele tem o suporte da fatura do serviço e depois é feita a fundamentação da utilização. Tivemos cá várias inspeções a toda a contabilidade. Estava lá a utilização dos cartões por mim, pelo ex-presidente, na altura em que ele era meu vice-presidente. Na altura em que me acompanhou, nunca houve dúvidas. Por que houve dúvidas naquela altura?
Tomando essa sua explicação por boa, o ex-presidente, então seu vice-presidente, colocou-se a si próprio em xeque.
Ele ainda não deve ter reparado. Eu disse-lhe na campanha, nos debates, “o senhor também os utilizou”. Houve uma auditoria pedida para mandatos [20]17-21 e [20]21-24. A auditoria parou em [20]21, pagaram até [20]24, mas a auditoria parou em [20]21. Com afirmações por parte dos auditores a dizer que não há conclusão de ilegalidade nenhuma.
Vê-se a pertinência do serviço, mas não se vê a ilegalidade… é tudo o que diz a auditoria. Eu perguntei ao senhor presidente por que não fizeram para a frente? “Porque para a frente eu não utilizei os cartões”. É mentira.
Pelo que percebo, a Câmara pagou uma auditoria à utilização de cartões de 2017 a 2024, mas apenas foi feita no mandato de 2017 a 2021 enquanto a senhora era presidente, e no mandato do agora ex-presidente nada foi escrutinado. Se é assim, vai avançar com a auditoria ao mandato que agora terminou?
Claro, claro. Vamos fazer agora o caderno de encargos para se fazer outra vez [a auditoria], do meu tempo até [20]24. Tudo! Era uma técnica que levava o cartão, eu assumo, era uma técnica que ia na comitiva. Se íamos comer a qualquer lado, íamos com mais pessoas que não tinham ajudas de custo, essas pessoas que estavam na comitiva, quem pagava? Tinha que ser com o cartão.
Se estávamos com outras delegações, normalmente uma oferece um dia um jantar, vão beber uma bebida e oferecem a bebida. Setúbal não oferecia, porquê? Nós pagávamos com o cartão, vinha a fatura, fazíamos o mesmo procedimento. Encontraram alguma despesa de cartão da minha ida ao cabeleireiro? De alguma saia que eu tivesse comprado? De alguma coisa pessoal, para mim ou para a minha família? Se tivessem encontrado, era notícia nacional.
Também ficaram famosos os almoços pagos pela Câmara de Oeiras e que o Executivo justificou com receção de empresários de multinacionais e outros encontros de trabalho. Há necessidade de alterar a lei para enquadrar estes casos?
Há necessidade de clarificar, foi o que eu pedi agora, clarificar do ponto de vista legal. O cartão é um pagamento.
Uma última pergunta. Em janeiro, Luís Marques Mendes ou António Filipe?
Estamos a brincar, não? (sorriso) Isso nem se coloca!
Significa isso que…
Se eu lhe disse o que tinha a dizer em relação ao PCP logo de início. Por exclusão de partes, está dada a resposta.
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Dores Meira: “Quando saí de Setúbal, caiu tudo que nem um baralho de cartas”
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