O embaixador dos EUA em Portugal e o presidente da AmCham acreditam que os empresários vão ajustar-se às tarifas mais elevadas, uma vez conhecidas as regras. Gastos com defesa despertam interesse.
John Arrigo foi nomeado embaixador dos EUA em Portugal pelo secretário de Estado Marco Rubio em setembro do ano passado. Na primeira entrevista sobre assuntos económicos, deixa a garantia de que uma das prioridades do seu mandato é continuar a melhorar a relação entre os dois países. Considera que os empresários vão ajustar-se às taxas aduaneiras mais elevadas e vê no aumento da despesa com defesa uma oportunidade para as empresas americanas. Já tem um alvo: vender os caças F-35.
“Uma das nossas primeiras prioridades é continuar esta relação sólida que temos com Portugal”, garante John Arrigo. “É preciso continuar estas relações e torná-las ainda melhores do que eram. E penso que quando o fizermos, perceberão que é a América em primeiro lugar, mas não é a América sozinha“, diz o embaixador numa entrevista em conjunto com o presidente da AmCham Portugal, António Martins da Costa, para o Transatlantic Talks, um novo podcast do ECO em parceria com a Câmara de Comércio Americana em Portugal, que celebra este ano o 75.º aniversário.
Oiça aqui o podcast em inglês:
Veja aqui o vídeo com legendas em português:
O embaixador já se encontrou com o primeiro-ministro português. “Que almoço fantástico tivemos juntos. Penso que estamos alinhados de forma muito próxima um com o outro“, relata.
“Somos o maior parceiro comercial de Portugal fora da União Europeia. E o nosso investimento direto, nos últimos sete anos, aumentou 70%, atingindo cerca de 16,5 mil milhões de dólares”, ilustra John Arrigo. Ainda assim, as novas taxas aduaneiras aprovadas pelo Presidente dos EUA em abril do ano passado pesaram nos negócios entre os dois países, com as exportações de bens para os Estados Unidos a recuarem 13% no ano passado.
Questionado sobre o impacto das tarifas, o embaixador dos EUA em Portugal, que durante mais de 30 anos foi dono e gestor de um grupo de retalho automóvel, afirma que os empresários vão adaptar-se. “Assim que estes empresários percebem as regras do jogo, que é o comércio, tudo bem, eles são inteligentes. Eles vão fazer os ajustamentos, tal como eu fiz no meu negócio durante anos“.
Gostaríamos que não houvesse tarifas de ambos os lados, certo? Mas o facto é que isso provavelmente nunca vai acontecer.
“Gostaríamos que não houvesse tarifas de ambos os lados, certo? Mas o facto é que isso provavelmente nunca vai acontecer”, disse. O podcast foi gravado ainda antes da decisão do Supremo Tribunal ter invalidado as chamadas “tarifas recíprocas” e Donald Trump ter anunciado uma taxa global de 10% recorrendo a outros instrumentos legais.
“Acho que temos altos e baixos na nossa relação. Isso é normal entre dois parceiros”, reage António Martins da Costa, presidente da Amcham Portugal, a propósito do aumento das taxas aduaneiras. Mas tal como John Arrigo, considera que “os empresários sabem adaptar-se”. “Fazem diferentes preços dos seus produtos, segmentam os seus mercados de uma forma diferente, tentam organizar parcerias diferentes, e é isso que está a acontecer agora”, refere.

Reduzir o défice comercial com Portugal
O antigo administrador executivo da EDP salientou que “a balança comercial entre os dois países é, neste momento, bastante favorável a Portugal“, sobretudo “na vertente dos serviços, porque a vertente dos serviços é o turismo, que está em franca expansão”. “No que respeita às mercadorias, a diferença está a diminuir. Ainda é favorável a Portugal, mas está a começar a diminuir e a estreitar”, completa António Martins da Cruz.
John Arrigo, que já foi vendedor de carros, advogado e agora é “político”, quer que esse fosso seja ainda menor. “Os números que tenho é que o nosso défice [comercial com Portugal] diminuiu 4%. Naturalmente, quero ver se conseguimos torná-lo um pouco mais equilibrado. Penso que estávamos com um défice de 3,8 mil milhões de dólares antes de eu chegar aqui”.
O embaixador rejeitou também que as tensões geopolíticas entre os EUA e a União Europeia, nomeadamente as pretensões americanas sobre a Gronelândia, estejam a penalizar a confiança dos empresários. Tal como a Casa Branca, enquadra o tema como uma questão de segurança. “Penso que a segurança é muito, muito importante. Os negócios são muito importantes. Mas creio que as duas coisas estão separadas”.

António Martins da Costa concorda: “Os empresários têm opiniões sobre as decisões políticas. Cada um de nós, como bons cidadãos, temos a nossa opinião sobre tudo. Mas uma coisa são as nossas opiniões, a outra é como é que ajustamos os nossos modelos de negócio às novas circunstâncias. O importante é saber quais são as regras“.
Vender a Portugal os caça F-35 americanos
O embaixador dos EUA vê a tecnologia e os centros de dados como um dos setores que já está a atrair muito investimento americano, dando como exemplo a Start Campus, em Sines.
Outra área que está a despertar muito interesse é a defesa. “Portugal está de parabéns por ter atingido os 2% do seu PIB em despesas com a defesa este ano”, elogia John Arrigo, que tem um alvo claro.
Eles sabem que têm uma frota de F-16 envelhecida, e acreditamos que o melhor parceiro é novamente os EUA, e o F-35 da Lockheed Martin é o caminho a seguir.
“Estamos ansiosos por ajudar Portugal com a despesa [em Defesa]. A primeira delas é a frota de F-16, que está a envelhecer. Eles sabem que têm uma frota de F-16 envelhecida, e acreditamos que o melhor parceiro é novamente os EUA, e o F-35 da Lockheed Martin é o caminho a seguir“, defende o embaixador.
“A Lockheed Martin tem a capacidade de os fabricar e de os entregar a tempo. Por isso, mal posso esperar. Uma parte emocionante do que faço é fechar esse negócio“, atira John Arrigo.
Vemos cada vez mais investidores americanos na área da defesa, aeroespacial e segurança a virem para cá e a estabelecerem parcerias ou mesmo acordos comerciais com as empresas portuguesas.
O presidente da AmCham Portugal também nota um maior interesse: “Vemos cada vez mais investidores americanos na área da defesa, aeroespacial e segurança a virem para cá e a estabelecerem parcerias ou mesmo acordos comerciais com as empresas portuguesas. Isto significa que este é um dos setores mais importantes para o desenvolvimento de negócios em Portugal e os nossos amigos dos EUA estão muito interessados nisso”. António Martins da Costa refere ainda um “terceiro domínio que é a biotecnologia”.
Um fórum para cortar na burocracia e facilitar negócios
A embaixada dos EUA em Portugal está a lançar o US-Portugal CEO Forum. O objetivo é “facilitar a atividade das empresas em Portugal”, explica John Arrigo, juntando à mesma mesa líderes empresariais e representantes dos Governos português e americano. “Sentarmo-nos e podermos discutir e debater como é que vai ser mais fácil para nós fazer negócios. E não apenas discutir o assunto, mas tomar decisões e fazer com que seja feito”, acrescenta.
Uma das missões será “reduzir a burocracia”. A ideia do fórum passa também por permitir uma partilha de experiências. John Arrigo dá o exemplo da Sword Health, o unicórnio português da área da saúde. “Encontraram uma forma de fazer as coisas um pouco mais facilmente” e podem “levar as suas melhores práticas empresariais a empresas do mesmo setor”, refere o embaixador. “É uma empresa de 4 mil milhões de dólares. Eles sabem o que estão a fazer e funcionou, certo?”
António Martins da Costa puxa de um barómetro realizado pela PwC junto dos associados da Amcham que aponta a competitividade do mercado como a primeira preocupação dos gestores, seguida pela burocracia e o excesso de regulamentação – “é preciso muito esforço, dinheiro e tempo para ultrapassar as barreiras regulamentares”.
Estas rendas são extremamente elevadas. Por isso, quando se pega numa pessoa jovem e talentosa e ela está a tentar começar uma carreira e se lhe diz que vai custar estes números realmente elevados para viver onde está o seu emprego, isso é um problema.
A terceira questão de que os empresários mais se queixam é “a dificuldade em obter o talento certo”. O presidente da AmCham Portugal assinala que “há pessoas talentosas que saem das universidades com uma excelente formação”, mas deixam o país “porque são mais bem pagos no centro da Europa. “Precisamos de medidas políticas para reter as pessoas aqui, para nos tornarmos mais atrativos”.
John Arrigo está em Portugal há cerca de três anos e meio e já aponta um dos principais problemas na retenção dos jovens: a habitação. “Eu vi o que custa viver em Lisboa. (…) Estas rendas são extremamente elevadas. Por isso, quando se pega numa pessoa jovem e talentosa que está a tentar começar uma carreira e se lhe diz que vai custar estes números realmente elevados para viver onde está o seu emprego, isso é um problema”, conclui.
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“É a América em primeiro lugar, mas não é a América sozinha”
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