“É importante mostrar que Portugal é um país capacitado no setor aeronáutico”

OGMA e Saab são empresas do setor aeroespacial com as quais a Vangest trabalha. A empresa da Marinha Grande tem no aeroespacial um dos seus pilares de crescimento, diz o general manager Rui Tavares.

Da Marinha Grande vão sair peças de metalomecânica para fazerem parte dos Gripen da Saab. A Vangest é uma das empresas com as quais a empresa sueca está a trabalhar para a produção dos caças que quer vender à Força Aérea Nacional, para substituir os F-16.

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Há quarenta anos no mercado, a empresa, detida pelo fundo Zeno Partners, do português Duarte Moreira, está apostada em crescer no setor aeroespacial onde já tem uma relação com a OGMA. É este setor, com a Vangest Aerospace, que considera ser um dos pilares de crescimento do grupo que, além de unidades em Portugal, está presente no Reino Unido e Singapura.

Na Marinha Grande, o complexo industrial do grupo tem 43 mil metros quadrados de área, dos quais 25 mil metros de área de produção, espalhados por um total de oito pavilhões, dos quais dois dedicados ao setor do aeroespacial, que absorve 70 pessoas dos 350 trabalhadores.

Rui Tavares, general manager em Portugal, não revela valores absolutos, mas até 2035 estima que a área registe uma subida de 35% ao nível de volume de negócios. Atrair mais empresas internacionais para Portugal é, para o responsável, uma das estratégias para fazer crescer o setor aeronáutico no país e, com isso, toda a indústria. O grupo está a querer posicionar-se para fornecer diretamente aos fabricantes e, para isso, quer oferecer uma solução integrada, trazendo também para a cadeia outras empresas nacionais.

“Temos que criar também uma supply chain robusta nesta área, em alguns dos serviços ou etapas do processo não encontramos ainda parceiros em Portugal para nos fornecer o serviço. Algumas das nossas peças têm de ir ao estrangeiro e regressam novamente às nossas instalações. Criar um cluster é também criar toda uma cadeia de parceiros dentro da supply chain que nos garante que a peça circula dentro do nosso mercado, em Portugal, e que nos permita reduzir prazos, ter maior controlo sobre o processo”, diz.

Na Europa tem havido um grande impulso para a soberania da defesa com foco na produção na região. A Vangest está a colaborar com a Saab nos caças Gripen. Como surgiu esta oportunidade e que peso a defesa poderá vir a ter no grupo?

O aeroespacial é a área de negócio onde esperamos um maior crescimento nos próximos anos. A questão da Saab-Gripen surgiu através da cooperação, que já temos há algum tempo, com a OGMA, que nos facultou esse acesso. A Saab tomou conhecimento das competências e capacidades da Vangest e, consequentemente, [consideraram-nos] como sendo um possível parceiro para futuros projetos com eles.

É um setor que pretendem explorar mais, estão a fazer prospeção ativa nesse campo?

Estivemos recentemente em Sevilha, numa feira aeronáutica, onde se concentra uma série de OEM [Original Equipment Manufacturer/Fabricante de Equipamento Original] e Tier 1 [fornecedor que trabalha diretamente com o fabricante] da indústria e, sem dúvida, estamos a tentar captar novos clientes nessa área de negócio.

O nosso crescimento vai ser através da captação de mais clientes. O tecido empresarial a nível da aeronáutica em Portugal é muito limitado e muito pouca gente sabe quem faz o quê. A Saab foi uma boa publicidade porque surgiu o nome da Vangest como uma empresa certificada e qualificada para produzir peças aeronáuticas com determinados clientes.

Possivelmente, isto não é do conhecimento de toda a gente e de todos os potenciais clientes. O facto de já virmos a trabalhar há alguns anos com a OGMA tem consolidado essa nossa imagem de um parceiro sólido neste setor.

Unidade de produção do Grupo Vangest na Marinha Grande Hugo Amaral/ECO

Quando olha para a defesa, o foco é aeronáutica ou há outras oportunidades que, eventualmente, podem levar à criação de uma nova unidade dentro do grupo?

Dentro do setor aeronáutico, temos tanto projetos comerciais como de defesa. Não visamos um desses segmentos em particular. O que queremos estar é realmente no negócio da aeronáutica, sejam eles projetos comerciais ou de defesa.

Temos que criar também uma supply chain robusta nesta área, em alguns dos serviços ou etapas do processo não encontramos ainda parceiros em Portugal para nos fornecer o serviço. Algumas das nossas peças têm de ir ao estrangeiro e regressam novamente às nossas instalações. Criar um cluster é também criar toda uma cadeia de parceiros dentro da supply chain, que nos garante que a peça circula dentro do nosso mercado, em Portugal, e que nos permite reduzir prazos, ter maior controlo sobre o processo.

O que poderia ser feito para agilizar a criação desse cluster?

O principal fator é realmente trazer mais volume para Portugal dentro do mercado do aeroespacial. É importante trazer (negócio), mostrar que Portugal é um país capacitado no setor aeronáutico. Pelo menos tem capacidade instalada. O conhecimento necessita de ser desenvolvido, há alguns profissionais com experiência nessa área, mas não são abundantes. O fator de crescimento é que vai impulsionar também a criação desse cluster.

Neste momento [o setor aeroespacial] não é atrativo, possivelmente para muitos fornecedores, porque são de pequena, média dimensão, e todo o processo de certificação e validação é bastante oneroso e prolongado no tempo. Não basta dizer, ‘olha, quero produzir peças aeronáuticas’ e amanhã estou a produzir.

Foi todo um processo que a Vangest desenvolveu há uns anos e que hoje lhe permite estar realmente nesta posição em que está certificada e qualificada. Mas esse processo também tem de ser feito por toda essa cadeia de fornecedores e, em certos casos, pode representar um investimento adicional por parte desses fornecedores.

Possivelmente, aqui o Estado pode ter um papel importante em realmente suportar todo o desenvolvimento desta indústria aqui em Portugal.

As empresas não estão à espera de subsídios para fazer as coisas, necessitam de oportunidades e que realmente elas surjam. Atrairmos investidores estrangeiros na área da aeronáutica poderia ser um grande passo do reforço deste setor em Portugal.

Em que aspeto? Depois há sempre a ideia de que só funciona porque há subsídios.

Não falo só em termos de subsídios, temos também de mobilizar todos os agentes à volta deste potencial negócio. E isso passa por atrair empresas estrangeiras, possivelmente oferecer, aí sim, condições diferentes para se instalarem aqui em Portugal, trazendo a indústria, isso vai sem dúvida desenvolver o negócio. A AutoEuropa é um bom exemplo.

A indústria portuguesa, o setor automóvel, desenvolveu-se muito com a vinda da AutoEuropa para Portugal. A atração de grandes players mundiais para a sua instalação… Temos o exemplo da Airbus em Santo Tirso, vamos ter no futuro próximo a Lufthansa Technik. Através da atração desse tipo de projetos é que realmente vai permitir desenvolver todo o negócio nessa área.

Fala-se também de uma fábrica da Embraer para produzir Super Tucanos.

São com projetos desses que acho que o Estado tem um papel fundamental. As empresas não estão à espera de subsídios para fazer as coisas, necessitam de oportunidades e que realmente elas surjam. Atrairmos investidores estrangeiros na área da aeronáutica poderia ser um grande passo do reforço deste setor em Portugal.

Essa vontade de criar esse mini cluster poderá passar, eventualmente, por integrar dentro do grupo esses parceiros? Ou seja, haver aqui também um processo de consolidação, de aquisição, ou é mais parcerias?

Para já não está na nossa ótica. A nossa abordagem é a criação de parcerias. Mas, tudo vai depender da dimensão que vamos adquirindo, poderá ser depois, estratégico ou não, trazermos para dentro de portas algumas das competências, alguns processos que possamos estar a subcontratar. Para já, a abordagem que estamos a fazer, é sobretudo, desenvolver toda essa cadeia de fornecimento.

Espera-se que avance a substituição dos F-16, neste caso um projeto de aeronáutica militar, onde estão na corrida os Gripen da Saab. Oportunidade para a indústria portuguesa se desenvolver ou mais uma oportunidade perdida para o país?

Acredito que seja uma oportunidade de desenvolvimento do setor em Portugal. Já estamos com a Saab e conforme foi referido eles fecharam negócios com a Força Aérea Brasileira e montaram no Brasil uma empresa para a manufatura dos aviões.

Algo do género poderá vir a acontecer aqui em Portugal se realmente tivermos o negócio feito nesse âmbito. São estas oportunidades onde o Estado pode ter um papel preponderante no desenvolvimento do setor.

Portugal lidera o setor aeronáutico no grupo Vangest. Disse há pouco que é um dos pilares de crescimento, o que é que pode vir a representar no negócio?

Juntamente com a área médica, possivelmente vão ser os dois grandes setores de crescimento, e com muito valor acrescentado. Procuramos, sobretudo, áreas de negócio que tragam um valor acrescentado.

O setor automóvel, infelizmente, aquilo que vimos, trabalha essencialmente numa base pelo preço. A decisão e a escolha dos fornecedores é baseada unicamente num fator: preço, com margens que nós sabemos muito esmagadas, muito reduzidas.

Nesse sentido, a Vangest definiu a sua estratégia procurando mercados com valores acrescentados elevados e também setores que, por tradição, não procuram low cost como a China e preservam, sobretudo, todo o seu tecido empresarial e capacidade de fornecimento e de manufatura no seio da Europa.

Estando neste setor [do aeroespacial] garantimos uma sustentabilidade ao invés do automóvel, que, neste momento, talvez seja o setor de negócio com mais imprevisibilidade e mais exposto a todo este crescimento do setor automóvel na China.

Mas quando olha para o setor aeronáutico, que crescimento se antecipa que possa vir a ter?

O setor aeronáutico ao longo dos anos tem sido um setor sempre em constante crescimento, cada vez mais as pessoas deslocam-se e um dos meios mais eficientes e até baratos de se deslocar a grandes distâncias é o avião. É um setor que realmente está em crescimento e vai continuar a crescer.

Estando neste setor [do aeroespacial] garantimos uma sustentabilidade ao invés do automóvel, que, neste momento, talvez seja o setor de negócio com mais imprevisibilidade e mais exposto a todo este crescimento do setor automóvel na China.

Outro, é o setor da defesa, onde podem surgir grandes oportunidades, uma vez que se discute muito a questão da defesa na Europa e como é que a Europa se vai tornar mais autónoma e não depender tanto dos Estados Unidos. Era algo um bocado histórico, no pós-guerra, a Europa ficou com a criação da NATO muito ligada e à sombra do que os Estados Unidos representavam.

Agora apercebemos que também temos de ser autónomos a nível de defesa e sem dúvida isso vai impulsionar ainda mais o setor da aviação na área da defesa.

Olhando para os seus números, qual é a estimativa de crescimento?

O forecast de crescimento até 2030 parte de uma base de 2025, do negócio que nós tínhamos, e o nosso business plan aponta para um crescimento de 35%.

E que necessidades de investimento antecipa? Em equipamento, por exemplo, está previsto algum reforço?

Estamos agora em discussão com um cliente do setor aeronáutico e, em causa, está a compra de uma primeira máquina, mas podemos ir até três máquinas, em que cada uma delas representa, no mínimo, 2,5 milhões de investimento. É um dos grandes Tier 1 do setor da aeronáutica.

Estamos a falar da Airbus?

Não, estamos a falar de um Tier 1. Um fornecedor de fabricante. E dependendo da negociação com esse fornecedor, vai poder ser necessário fazer esse investimento. O que posso dizer é que estão eles mais entusiasmados do que nós para avançarmos com o negócio. Face ao momento que o aeroespacial está a viver, eles procuram também parceiros sólidos e com capacidade de se autofinanciar.

E a Vangest tem uma saúde financeira boa. Também é preciso ver esse aspeto. Não é qualquer um que pode fazer investimentos dessa ordem. Estamos a falar de um investimento de mais de sete milhões. Depois há uma série de outros equipamentos que são necessários, como ferramentas, meios de fixação, processos de automação.

O mercado português aeronáutico, neste momento ainda tem um peso bastante significativo, dado o nosso histórico com a OGMA. Temos vindo a trabalhar, essencialmente, no mercado europeu, na expansão para o mercado europeu.

Tudo somado, poderia implicar que investimento?

Ao longo dos anos poderia representar cerca de 10 milhões, tudo somado. Neste momento temos estrutura física suficiente. Podemos é vir a necessitar, dependendo dos projetos, de uma ou outra máquina específica.

No caso do que estou a falar, o cliente quer peças de grande dimensão e aí necessitamos desse investimento, mas de resto estamos bastante bem capacitados para extrair ainda mais horas de produção das nossas máquinas.

Nas suas receitas, qual o peso do mercado português e quais são os vossos principais mercados alvo?

O mercado português aeronáutico, neste momento, ainda tem um peso bastante significativo, dado o nosso histórico com a OGMA. Temos vindo a trabalhar, essencialmente, no mercado europeu, na expansão para o mercado europeu. Mas existe uma forte dependência ainda do mercado nacional fruto da evolução da relação com a OGMA.

Há algum mercado ou mercados alvo que dos vossos contactos comerciais sintam mais recetivo?

O mercado espanhol tem forte predominância no setor aeronáutico e depois, claro, Itália e França, fruto daquilo que é a supply chain deste mercado. Acaba por ser uma questão de consequência, onde estão os nossos potenciais clientes e clientes, obedecendo aquilo que é a nossa estratégia de sermos um parceiro de solução e não um Tier 2, 3, 4, um parceiro com uma solução integrada end-to-end, e poder cada vez mais ter proximidade aos OEM.

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