“Em 2026, acredito que teremos um mercado de M&A mais seletivo e estratégico”

A sócia da Sérvulo, Inês Gomes Ferreira, antecipa um mercado de M&A mais “seletivo” e “estratégico” em 2026, uma vez que considera que os investidores serão cada vez mais “criteriosos” .

Inês Gomes Ferreira integrou recentemente a equipa de sócios da Sérvulo e espera “contribuir ativamente” para a continuação do crescimento da área de Corporate & M&A.

Para o ano de 2026, antecipa um mercado de M&A mais “seletivo” e “estratégico”, uma vez que considera que os investidores serão cada vez mais “criteriosos” e “orientados para oportunidades que gerem valor sustentável a longo prazo”.

O que a motivou a aceitar o convite da Sérvulo & Associados neste momento de carreira?

Na verdade, considero que o convite surgiu no momento ideal da minha carreira. Após 18 anos muito enriquecedores na Vieira de Almeida (VdA), nas áreas de M&A e Corporate & Governance, seguidos de dois anos como sócia responsável da área de Corporate & Governance num escritório com o qual mantinha uma ligação familiar, senti que reunia as condições, profissionais e pessoais, para abraçar um novo desafio.

Sempre vi a Sérvulo como um escritório de referência no mercado da advocacia em Portugal, reconhecido pela excelência, rigor e qualidade dos serviços que presta aos seus clientes. A sua evolução, desde uma prestigiada boutique de Direito Público e Contencioso até à sociedade multidisciplinar, full-service que é hoje, aliada à estratégia de crescimento que tem vindo a desenvolver, e ao reforço sustentado das áreas transacionais, designadamente a de M&A, foram fatores determinantes. Neste contexto, a solidez de áreas que se cruzam naturalmente com estas operações, como Financeiro e Governance, reforça a capacidade da Sérvulo para acompanhar transações cada vez mais sofisticadas e complexas.

A isto acresce uma forte identificação com os valores da Sérvulo, em particular a exigência técnica, a integridade e a forma colaborativa como encara a prática da advocacia, o que tornou este projeto especialmente apelativo e desafiante.

A Sérvulo refere que a sua integração representa um “marco estrutural” para o crescimento da equipa de M&A. O que acha que poderá trazer de diferente à firma?

Encaro essa referência sobretudo como um reconhecimento do momento de crescimento que a equipa de M&A da Sérvulo atravessa e do investimento que a firma tem vindo a fazer nesta área.

Do meu lado, acredito que posso acrescentar uma combinação de experiência acumulada em operações complexas e uma visão transversal do negócio, construída ao longo de muitos anos a trabalhar com clientes de diferentes setores e perfis. Procuro trazer uma abordagem muito prática e orientada para o cliente, assente numa relação de proximidade, numa leitura estratégica das transações e numa forte articulação com as restantes áreas da firma. Ao mesmo tempo, dou grande importância ao trabalho em equipa, valorizo muito a colaboração, a partilha de conhecimento e o desenvolvimento das pessoas. Espero também contribuir para os aspetos de gestão da área, com base na experiência de liderança que acumulei ao longo dos anos.

Inês Gomes Ferreira, sócia da SérvuloHugo Amaral/ECO

Que valores considera fundamentais num escritório de advogados moderno e competitivo?

Num escritório de advogados moderno e competitivo considero fundamentais valores que combinem excelência técnica com uma cultura de colaboração e integridade. Por um lado, a exigência e o rigor são essenciais para garantir que os clientes recebam serviços de alto valor acrescentado, consistentes com as complexidades do mercado. Por outro, a forma como se trabalha em equipa, a partilha de conhecimento e a valorização das pessoas são decisivas para criar um ambiente sustentável, inovador e motivador, capaz de atrair e reter talento.

A estes valores acrescentaria uma aposta clara na inovação, nas suas diversas vertentes, sem esquecer, obviamente, a incorporação de ferramentas de inteligência artificial e de business intelligence. Estas ferramentas têm um impacto muito relevante tanto na vertente interna, ao aumentar a eficiência, a produtividade e a qualidade dos processos, como na vertente externa, permitindo desenvolver respostas jurídicas mais inovadoras e sofisticadas, ajustadas às necessidades dos clientes.

Por último, destaco a importância da adaptabilidade e da visão estratégica, que permitem ao escritório antecipar tendências, responder de forma ágil às necessidades dos clientes e consolidar a sua posição num mercado muito concorrencial e em constante evolução.

Que expectativas tem para o primeiro ano enquanto sócia da Sérvulo? Há projetos ou ambições específicas que deseje levar adiante?

No meu primeiro ano como sócia da Sérvulo, espero contribuir ativamente para a continuação do crescimento da área de Corporate & M&A, quer através de novos clientes e transações, quer pelo aprofundando das relações com os clientes atuais, reforçando parcerias já existentes e identificando novas oportunidades de negócio. Paralelamente, e tendo a sorte de vir integrar uma equipa muito sólida, quero apoiar o seu desenvolvimento, promovendo uma cultura colaborativa e de partilha de conhecimento, essencial para consolidar uma área forte, coesa e capaz de gerar resultados sustentáveis para o escritório.

A economia portuguesa tem mostrado uma resiliência assinalável, crescendo em contraciclo com grande parte da Europa, realidade que foi recentemente reconhecida a nível internacional, incluindo pela distinção de Portugal como Economy of the Year pela The Economist.

O mercado de M&A e de investimentos em Portugal e na Europa tem enfrentado vários desafios. Como antevê o panorama para 2026?

Apesar de persistirem desafios no mercado de M&A e de investimentos em Portugal e na Europa, vejo com otimismo o panorama para 2026. A globalização e a crescente pressão competitiva continuam a impulsionar as empresas a procurarem crescimento e reforço estratégico, seja através de fusões, aquisições, investimentos ou parcerias que reforcem capacidades competitivas, entrem em novos mercados ou acelerem processos de transformação digital.

Em particular, a economia portuguesa tem mostrado uma resiliência assinalável, crescendo em contraciclo com grande parte da Europa, realidade que foi recentemente reconhecida a nível internacional, incluindo pela distinção de Portugal como Economy of the Year pela The Economist. Este contexto tem sido acompanhado por um papel cada vez mais relevante do private equity e do venture capital, que já vinham a dinamizar o mercado de M&A nos últimos anos e que deverão manter-se em 2026.

Naturalmente que o contexto geopolítico continua complexo e dinâmico, e o ambiente empresarial não é isolado dos riscos globais. Contudo, essa realidade tem levado muitas empresas a reavaliar cadeias de valor, a diversificar parcerias e a focar‑se em soluções resilientes e sustentáveis. Em 2026, acredito que teremos um mercado de M&A mais seletivo e estratégico: os investidores serão cada vez mais criteriosos e orientados para oportunidades que gerem valor sustentável a longo prazo, integrando aspetos económicos, regulatórios e de risco global.

Quais os setores que oferecem as maiores oportunidades de M&A em Portugal em 2026?

Em 2026, vários setores deverão continuar a oferecer oportunidades particularmente relevantes no mercado de M&A em Portugal. Desde logo, destaco a transição energética e as infraestruturas sustentáveis. Portugal tem vindo a posicionar-se como um país com um mix energético avançado, com uma grande proporção de energia proveniente de fontes renováveis, e com investimentos ambiciosos em redes e capacidade industrial, o que cria terreno fértil para transações em energia limpa, eficiência energética e infraestruturas críticas.

Outro setor com forte potencial de M&A é o de tecnologia e inovação digital. Portugal tem desenvolvido um ecossistema de inovação dinâmico, com hubs tecnológicos em várias cidades e uma base de talento altamente qualificado, que tem atraído centros de competências, startups e centros de investigação ligados a áreas como inteligência artificial, cibersegurança, cloud e data centers.

Saúde, biotecnologia e ciências da vida também se destacam, apoiados por capacidade de investigação e um mercado interno em expansão, bem como por uma procura crescente por soluções avançadas. Este é um setor que tem vindo a gerar interesse tanto de investidores estratégicos como de fundos que procuram crescimento sustentável.

Destaco, ainda, segmentos ligados à economia azul, logística e manufatura de valor acrescentado, incluindo setores tradicionais ligados à agricultura e recursos naturais transformados em produtos com maior valor, estão a ganhar relevância à medida que as empresas procuram reforçar cadeias de valor e expandir internacionalmente.

No seu conjunto, estes setores não só refletem vantagens competitivas estruturais de Portugal, como infraestruturas modernas, um ecossistema de inovação crescente e capital humano qualificado, como são sinais de crescente atratividade internacional e potencial de transações de M&A de longo prazo em 2026.

Inês Gomes Ferreira, sócia da SérvuloHugo Amaral/ECO

Que conselhos daria a empresas e investidores que estão a considerar reestruturações, fusões ou aquisições num contexto de incerteza económica?

Num contexto de incerteza económica, o principal conselho é que empresas e investidores adotem uma abordagem ponderada, mas não excessivamente defensiva. Momentos de maior volatilidade exigem uma análise mais rigorosa dos riscos, mas também oferecem oportunidades relevantes à luz de uma visão estratégica de médio e longo prazo.

É fundamental investir tempo na preparação cuidada das operações, com especial atenção ao enquadramento regulatório, à solidez financeira dos ativos e à estrutura das transações, assegurando flexibilidade e capacidade de adaptação a diferentes cenários. Também o investimento numa due diligence aprofundada e multidisciplinar se torna ainda mais crítico, permitindo que empresas e investidores, devidamente assessorados, tomem decisões informadas e pragmáticas, capazes de gerar valor sustentável mesmo em contextos mais desafiantes.

Quais os erros mais comuns que constata neste tipo de operações?

Mesmo em operações conduzidas por empresas e investidores muito sofisticados, há desafios que podem comprometer o sucesso de uma transação e é precisamente aí que os advogados de M&A, em articulação com os assessores financeiros, fazem a diferença. A experiência mostra que a complexidade regulatória, financeira ou de mercado exige, muitas vezes, ajustes estratégicos ao longo do processo, e a capacidade de antecipar essas necessidades é determinante para proteger e maximizar o valor da operação.

Vejo também, com frequência, que quando temas como governance, alinhamento económico entre as partes ou cenários de saída não são tratados desde cedo, o racional do negócio perde-se rapidamente. Acresce a importância das opções de estruturação e, sobretudo, de garantir que a execução e a integração pós-fecho acompanham a visão estratégica que motivou a transação. Na prática, alinhar equipas, processos e expectativas desde o início não só mitiga riscos, como transforma as oportunidades negociadas em resultados concretos e sustentáveis. É essa visão integrada, do início ao pós-fecho, que distingue operações bem-sucedidas das que ficam aquém do seu potencial.

Em Portugal, os principais obstáculos numa transação de M&A estão associados à complexidade dos enquadramentos regulatórios aplicáveis, em particular em setores mais regulados.

Quais os principais obstáculos regulatórios ou práticos que se levantam numa transação de M&A em Portugal?

Em Portugal, os principais obstáculos numa transação de M&A estão associados à complexidade dos enquadramentos regulatórios aplicáveis, em particular em setores mais regulados. Em áreas como infraestruturas, energia, financeiro, telecomunicações ou saúde, os regimes de autorização e licenciamento administrativos (incluindo ambientais), o controlo de concentrações pela Autoridade da Concorrência e, em certos casos, os mecanismos de controlo do investimento estrangeiro estratégico podem ter um impacto relevante no calendário, na estrutura e até na viabilidade das operações.

A isto acrescem desafios ao nível fiscal, laboral e de corporate governance, sobretudo em transações com uma dimensão internacional, onde é necessário compatibilizar requisitos do direito português com enquadramentos regulatórios europeus e com as expectativas de investidores estrangeiros. A correta identificação e alocação destes riscos desde cedo é muitas vezes determinante para o sucesso da negociação.

Do ponto de vista prático, é ainda essencial assegurar a articulação entre diferentes autoridades, assessores e stakeholders, bem como a integração das exigências regulatórias na estrutura da operação. Da minha experiência, quando estas matérias são tratadas de forma antecipada e integrada, os obstáculos tornam-se geríveis, há maior previsibilidade e eficiência na execução das transações.

Que tendências ou mudanças regulamentares ou de mercado acredita que moldarão o direito societário e de M&A nos próximos anos?

De um ponto de vista mais geral, acredito que, nos próximos anos, o direito societário e de M&A será moldado por uma crescente densificação regulatória, pela integração de normas europeias e internacionais, pela evolução da corporate governance e pela sofisticação das estruturas societárias, impulsionadas por investidores mais exigentes e por um escrutínio regulatório mais intenso. Temas como governance, transparência, compliance e sustentabilidade tendem a assumir um papel cada vez mais central nas decisões societárias e transacionais.

De um ponto de vista concreto, assistimos a uma evolução clara na forma como o risco é tratado nos contratos, com maior recurso a mecanismos de ajustamento, repartição de risco e flexibilidade estrutural. Na prática, estas mudanças estão a aproximar o direito societário e de M&A da estratégia empresarial, exigindo um aconselhamento jurídico cada vez mais integrado e proativo, alinhado com os objetivos de longo prazo das empresas.

Inês Gomes Ferreira, sócia da SérvuloHugo Amaral/ECO

Qual foi o melhor conselho que lhe deram ao longo da sua carreira?

Felizmente, ao longo da minha carreira recebi vários conselhos que valorizo muito, pelo que é difícil escolher apenas um. Ainda assim, destaco um que se mantém atual e que considero útil em todas as fases do percurso profissional de um advogado: “assumir a responsabilidade pelo meu percurso e ser protagonista das escolhas que faço”. É essencial definirmos o rumo que queremos dar à nossa carreira, integrado numa visão mais ampla da forma como valorizamos as diferentes vertentes da nossa vida, e agir de forma deliberada para atingir os objetivos que traçámos. O que é bom para uns não é, necessariamente, o que é bom para outros.

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