Secretário de Estado das Comunidades convoca os cinco milhões de portugueses e lusodescendentes a contribuir mais para o investimento e internacionalização. Nova plataforma vai facilitar ligação.
Com a diáspora a ultrapassar os cinco milhões de portugueses e lusodescendentes, distribuídos por 178 países, o Governo quer que o país passe a encarar estas comunidades emigrantes mais numa “perspetiva empresarial”, chamando-os a contribuir para o investimento, inovação e internacionalização da economia nacional. O arranque dessa estratégia será dado na primeira edição do fórum Portugal Nação Global, a 29 e 30 de abril no Centro Cultural de Belém.
Em entrevista ao ECO na véspera deste encontro promovido com a Fundação AEP, que vai juntar quase 450 empresas nacionais e da diáspora em Lisboa, o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa, para quem a “Venezuela pode ser um novo destino económico muito interessante para as empresas portuguesas”, reclama que “chegou a altura de aproveitarmos estes ativos estratégicos que andamos há centenas de anos a espalhar pelo mundo”.
Como é que a diáspora pode ser um ativo estratégico para o desenvolvimento económico do país?
Temos comunidades portuguesas em 178 países, andamos a emigrar há centenas de anos e conseguimos manter uma chama nestas comunidades, com uma ligação à pátria muito interessante. Nas viagens que fui fazendo, percebi que muitas dessas pessoas que emigraram têm grande sucesso, são grandes empresários – só nos EUA temos um milhão e meio de portugueses e lusodescendentes e alguns deles são dos maiores empresários, nomeadamente na construção civil, nas pescas, na agricultura. Vejo em todos eles um carinho e uma atenção muito especial ao país, até a procura do nosso passaporte, e percebi algumas oportunidades. Chegou a altura de aproveitarmos estes ativos estratégicos que andamos há centenas de anos a espalhar pelo mundo.
Surgiu então esta ideia de criar um novo conceito de nação. Aprendemos na escola que é aquele espaço geograficamente limitado, com um povo que tem uma língua e uma cultura comum. Essas características de uma nação fariam sentido há 400 ou 500 anos, mas no tempo da internet, do WhatsApp, da videoconferência, do avião, em que as distâncias ficaram muito curtas e o tempo de comunicação é instantâneo, estando Portugal nestes sítios todos, pode constituir-se como uma nação não apenas geográfica, mas uma nação de pessoas, de comunidades. E aí somos, de facto, uma nação muito grande, das maiores do mundo.
Vamos começar com este fórum de negócios em que começámos a trabalhar há alguns meses. Encontrámos uma parceria com a Fundação AEP, que tem um trabalho muito significativo com a plataforma Rede Global, que vamos agora transformar. Começamos pelo mundo dos negócios, embora a ambição seja muito maior.
Começam por um fórum de negócios porque esse “carinho” dos emigrantes não se traduziu em ganhos empresariais até ao momento?
Para o pontapé de saída deste conceito de ‘Portugal Nação Global’ é o mais interessante. O mundo mexe-se muito em trocas comerciais, em negócios. Vamos chamar estes portugueses espalhados pelo mundo às nossas empresas. Os empresários da diáspora vão ter encontros com empresas portuguesas com quem possam ter algum interesse de negócio, seja no sentido de importação ou de exportação.
Depois há o modelo dos municípios, das comunidades intermunicipais e das áreas metropolitanas. Desafiei-os a irem ao evento apresentarem as oportunidades de investimento que existem na sua terra. Se houver interesse em investirem num hotel, em habitação ou numa fábrica, têm a oportunidade de um encontro direto com o presidente da Câmara, que é o melhor interlocutor para uma intenção de investimento.
Quais os benefícios a retirar dessa maior interação entre as empresas de um lado e do outro?
Desde logo, há uma afinidade cultural e linguística. Ao criamos uma comunidade económica dos portugueses, a ideia é que em qualquer processo negocial – e no futuro pode evoluir para a cultura ou para a ciência – haja uma plataforma em que podem pesquisar um interlocutor português ou de origem portuguesa com quem trocar impressões e que facilite alguma intenção de importação ou exportação. Queremos que este seja um evento anual — até podemos fazê-lo num país à escolha –, mas esta plataforma será permanente. Não é para fazermos o evento e acabou. Temos o nome registado, vai ser gerida pelo Estado em parceria com a Fundação AEP e será alimentada permanentemente com esta rede de contactos.
Ao criamos uma comunidade económica dos portugueses, a ideia é que em qualquer processo negocial – e no futuro pode evoluir para a cultura ou para a ciência – haja uma plataforma em que podem pesquisar um interlocutor português ou de origem portuguesa com quem trocar impressões e que facilite a importação ou exportação.
Nos seus contactos regulares com as comunidades portuguesas no estrangeiro, sente nos emigrantes empresários ou nos decisores em posições de influência esse interesse real em investirem em Portugal ou em terem negócios com empresas portuguesas?
Sem dúvida. Até porque Portugal ganhou uma nova atratividade em todo o mundo. Basta pensar que os EUA é um dos países de onde têm vindo mais pessoas para viver permanentemente em Portugal, é a terceira origem. Neste momento, Portugal tem uma excelente imagem em todo o mundo. Pela segurança, pela estabilidade, pelas condições climatéricas, pela gastronomia. O país é muito atrativo e há muito interesse das pessoas da diáspora investirem em Portugal, seja na compra de uma habitação ou para desenvolverem um negócio.
Sinto isso sempre que vou ao estrangeiro. Costumo ter quatro pontos nas minhas viagens às comunidades portuguesas: visita aos nossos serviços consulares e diplomáticos; verificar a aprendizagem do ensino do Português; encontrar-me com o movimento associativo que se vê em muitos países; e reunir com empresários da diáspora. Percebi este interesse, com perguntas sobre como se investe em Portugal, ‘com quem falo, como é que eu faço’. Esta procura e curiosidade são uma oportunidade. Com a presença dos municípios, da AICEP ou do Banco de Fomento vão ter sessões em que podem esclarecer dúvidas, conhecer as estratégias, as políticas públicas e as oportunidades concretas de investimento, as linhas de financiamento. Haverá um conjunto de participações dirigidas aos investidores.
Quais são as maiores barreiras? Porque é que esse fluxo de investimento tem sido curto?
‘Com quem falo? Qual a entidade que me pode informar melhor para constituir uma empresa? Onde é que devo investir? Será que devo investir no território de onde veio o meu avô?’ Aliás, a chamada dos presidentes de câmara a este evento é para eles promoverem a sua terra e para que o investidor passe a ter uma rede de contactos permanente para tirar dúvidas.
Falta-lhes sobretudo um ponto de contacto em Portugal?
Muitas vezes até têm dificuldade em saber onde se dirigir. O Ministério da Economia e a AICEP têm feito um bom trabalho, mas muitas vezes do outro lado as pessoas têm dificuldade em encontrar o interlocutor. Aqui, os empresários da diáspora vão poder falar com o empresário português em áreas onde possa haver interesse de negócio. O mundo dos negócios funciona bem entre empresários. A linguagem dos negócios é de empresário para empresário.

Quais os setores de atividade em que vê maior potencial?
Há muitos. Um dos que mais se destaca é o da tecnologia e do digital, em que teremos 18 empresas. Da construção e imobiliário são 26, depois há 11 no agroalimentar, 11 na indústria, nove na hotelaria e no turismo, oito na comunicação e media, sete no setor financeiro. Na parte jurídica também está inscrita muita gente, mas a construção, a tecnologia, o agroalimentar e a indústria são os grandes setores inscritos para este encontro.
E quais são os países e as geografias mais promissores?
Estamos em todo lado. E temos uma imagem boa: o emigrante português é visto como alguém trabalhador, que não causa problemas e que vai para trabalhar e que contribui para o desenvolvimento desse país. A partir desta imagem e de muitos casos de sucesso, podemos aproveitar para criar esta comunidade económica dos portugueses.
O emigrante português é visto como alguém trabalhador, que não causa problemas e que vai para trabalhar e que contribui para o desenvolvimento desse país. A partir desta imagem e de muitos casos de sucesso, podemos aproveitar para criar esta comunidade económica dos portugueses.
Os novos emigrantes, até aos 40 ou 45 anos, que saíram mais recentemente, são diferentes da geração anterior? Estão mais ligados ou desligados do país? Têm maior ou menor vontade em ter essa participação económica em Portugal?
São diferentes. Há uma geração mais velha também com muito sucesso e que está muito presente nos EUA ou no Brasil, muitos deles já conseguiram fazer a sucessão para os descendentes. Há grandes empresários nestas latitudes que começaram há 40 ou 50 anos e que têm sucesso, sobretudo na área da construção, do agroalimentar ou da agricultura. E depois há uma nova emigração de pessoas muito qualificadas em diferentes setores, sobretudo na Europa, mas também nos EUA e no Canadá, e muitos deles são gestores de topo. Mas têm uma ligação idêntica ao país em termos económicos. É uma geração mais habituada a viajar, que conhece o mundo e passa longas temporadas fora, mas que, curiosamente, mantém aquela nossa característica de querer voltar, de estar sempre muito atenta ao país. Dificilmente se desligam.
Os mais antigos, que estão há mais tempo fora, trabalhavam a ligação ao país de uma forma muito saudosa, apaixonada, mas raramente vinham cá. Criavam a sua associação, a sua igreja, fazem a sua comemoração religiosa, recriam as tradições da sua terra de origem. As novas gerações são um bocadinho diferentes, mas também estão ligadas ao país. Ou seja, esta maneira de ser português, que é mais vincada nas gerações mais antigas, mantém-se nas atuais gerações. Vejo isso no Reino Unido, no Luxemburgo, em França. Continua a haver uma portugalidade bem presente nos nossos emigrantes.
Mas é maior o potencial de aproveitamento económico com esta geração?
Sim. Fiz questão de vincar que o convite à diáspora é para empresários, mas também para os muitos portugueses que estão na gestão de topo, que são diretores financeiros ou estão noutras áreas de governação. Portanto, o conceito de ‘empresário português’ tem de ser alargado a estes gestores de empresas que têm múltiplos proprietários.
O convite à diáspora é para empresários, mas também para os muitos portugueses que estão na gestão de topo, que são diretores financeiros ou estão noutras áreas de governação. Portanto, o conceito de ‘empresário português’ tem de ser alargado a estes gestores de empresas que têm múltiplos proprietários.
Fez referência aos emigrantes que fundaram as empresas e que já passaram os negócios às segundas e até terceiras gerações. Sente os lusodescendentes com igual ligação afetiva e também económica ao país?
Essa ligação mantém-se. É até interessante ver já nas terceiras e quartas gerações a procura do cartão do cidadão e do passaporte português. Tentam muitos até regressar à terra e ter a sua casa em Portugal. Mesmo na Europa, em que a necessidade de ter um passaporte português poderia não ser tão permanente, há uma procura pela nacionalidade e pelo passaporte português. Há uma questão identitária que está latente e que se evidencia cada vez mais nestes lusodescendentes.
Mas sente que o país olha para a diáspora com preconceito e só se lembra dos emigrantes uma vez por ano, quando cá vêm no verão?
É um bocadinho isso, mas a própria comunidade sempre se viu assim, ela própria. É uma visão de saudade. A emigração toca a quase todos: não haverá quase nenhum português que não tenha um ou dois familiares emigrados. É uma característica nossa. Mas os emigrantes têm de deixar de ser apenas a ‘saudade’ e serem também um ativo económico. Temos encarado sempre os emigrantes na perspetiva da saudade, da confraternização, da amizade, mas agora temos de os ver nesta perspetiva económica e empresarial. Eles estão lá, muitos têm sucesso, continuam a gostar do país e querem ajudar Portugal. Então, vamos juntar os empresários que cá estão com os que estão lá fora.
A partir do sucesso deste primeiro evento vão abrir-se muito mais oportunidades e interesse. Está tudo preparado para darmos um grande salto na perspetiva económica das empresas portuguesas e da sua ligação com todo o mundo e com a diáspora portuguesa. Temos de nos ligar mais. É preciso um novo espírito de ligação.
Desafiei os autarcas a apresentarem as oportunidades de investimento que existem na sua terra. Se houver interesse em investirem num hotel, em habitação ou numa fábrica, têm a oportunidade de um encontro direto com o presidente da Câmara, que é o melhor interlocutor para uma intenção de investimento.
Falta também envolvimento por parte dos municípios, que são o território de maior contacto com a comunidade emigrante? Que papel deveriam ter os autarcas? Vê as câmaras com políticas ativas e robustas de captação de investimento precisamente junto da diáspora?
Hoje, a captação de investimento e o desenvolvimento económico dos territórios é muito trabalhada pelos municípios. Uns com mais qualidade, outros com menos, mas hoje essa é uma missão do presidente de câmara. Neste encontro vamos ter as 14 comunidades intermunicipais, as duas áreas metropolitanas e os dois governos regionais. A diplomacia económica faz parte das tarefas mais notórias dos autarcas.
Normalmente, o emigrante tem saudade da sua terra, tem essa memória. E quer conhecer a terra dos pais e dos avós. Agora temos de aproveitar a diáspora na perspetiva económica para que os portugueses que cá estão também possam fazer parte do desenvolvimento que queremos ter.
E porque é que acha que desta vez é que é? No passado houve outras iniciativas deste género que não obtiveram resultados substanciais.
Cheguei a participar em algumas enquanto presidente de Câmara, como o Programa Nacional de Apoio ao Investimento da Diáspora. Já havia a perceção do potencial, mas nunca se conseguiu traduzir num evento que ligasse verdadeiramente. Por isso é que este é diferente. Assenta em encontros B2B [business-to-business] entre empresas portuguesas e da diáspora, com uma plataforma tecnológica permanente que permite aos participantes aceder ao perfil dos inscritos e agendar reuniões individuais.
Outra parte [diferente] é a presença dos municípios, porque um investidor que queira investir em determinada área de negócio ou território, se o tiver como interlocutor tem o caminho desbravado. Resolvem até aqueles pormenores de que às vezes uma grande instituição não se apercebe, mas em que um autarca atento consegue ajudar.
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“Emigrantes têm de deixar de ser apenas ‘saudade’ e serem um ativo económico”
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