Infinite Foundry é uma empresa portuguesa que desenvolve gémeos digitais ('digital twins'). No Podcast .IA, André Godinho Luz explica como esta tecnologia de IA pode beneficiar a indústria portuguesa.
André Godinho Luz é líder da Infinite Foundry, uma empresa portuguesa de tecnologia de ponta especializada em gémeos digitais (digital twins), que cria réplicas virtuais das fábricas para replicar e simular processos industriais em tempo real. “Em Portugal, acreditamos que este setor deve receber uma atenção especial. Tecnologias como a nossa oferecem uma vantagem competitiva significativa às indústrias portuguesas face a outros mercados”, declara o gestor e empreendedor, no 5.º episódio do Podcast .IA.
Nesta entrevista, o general manager da Infinite Foundry explica como a inteligência artificial (IA) pode sair do ecrã e ser levada para o mundo físico, nomeadamente em contexto industrial, e que vantagens os clientes da plataforma podem retirar desta abordagem. “Em termos de retorno, nós estamos a falar muitas vezes em aumentar a produção em 30%. Esse é um valor fácil de atingir”, assegura o especialista.
André Godinho Luz aborda ainda os próximos passos da Infinite Foundry e os mercados onde a empresa já está presente.
Como é que a Infinite Foundry consegue trazer a IA para o mundo físico?
A Infinite Foundry é uma empresa de tecnologia com nove anos de atividade. Estamos sempre muito focados na área da IA física, ou seja, em trazer a inteligência artificial para o mundo das coisas.
Temos a filosofia de que é no mundo físico que, efetivamente, existe o maior desafio: sermos mais eficientes, alcançarmos maior sustentabilidade e garantirmos que o produto final corresponde ao que o cliente pretende. Mas é também aí que enfrentamos enormes dificuldades, porque lidamos com máquinas antigas e com processos que, muitas vezes, não estão totalmente documentados.
Não é fácil fazer IA neste contexto, porque em muitos casos nem sequer existem dados. E uma das áreas em que a empresa sempre se baseou muito foi precisamente em perceber como recolher esses dados e, depois, como processá-los. Estas são as duas grandes áreas onde nós trabalhamos.
Como fazem isso?
Para recolher os dados, utilizamos uma tecnologia chamada gémeo digital. É uma abordagem em que recolhemos informação a partir de sensores que já existem, mas a realidade é que há muitas áreas que não estão sensorizadas.
Nesses casos, temos de recorrer a outras fontes de dados. Pode ser através de câmaras — garantindo sempre a anonimização das pessoas — ou através de modelos de cálculo. Ou seja, com base em informação que está dispersa, conseguimos inferir, por diferentes constrangimentos, o que está a acontecer em áreas onde não é possível colocar sensores.
Um exemplo clássico é o interior de um forno industrial. Não posso colocar um sensor dentro do forno, porque ele iria fundir, mas é crucial perceber se a temperatura está homogénea. Isso permite garantir que a peça final tem a qualidade necessária, porque se não houver esse controlo, no final o produto não tem qualidade e transforma-se em desperdício.

E depois geram um modelo 3D de uma fábrica, por exemplo?
Exatamente. É quase como se fosse um jogo, como o The Sims [popular videojogo que simula a vida e o quotidiano]. Em tempo real, tudo o que está a acontecer na fábrica acontece também no nosso “Sims” — ou seja, no gémeo digital –, de forma exatamente equivalente, mas sempre com anonimização.
As pessoas, por exemplo, são representadas por avatares. Cumprimos rigorosamente todas as normas de proteção de dados e estamos apenas focados na parte operacional. Para dar um exemplo simples: se uma pessoa fizer uma pausa para ir à casa de banho, o avatar desaparece temporariamente do nosso sistema.
Se não soubermos qual é a verdade, não conseguimos otimizar processos nem ser mais eficientes. O que o gémeo digital nos permite é garantir que tudo está a ser feito como foi planeado
O que é que isto pode trazer para uma fábrica se for levado ao limite? Qual é o expoente máximo do potencial de uma tecnologia como o gémeo digital?
O gémeo digital é aquilo a que chamamos, no jargão inglês, a ‘single source of truth’, ou seja, a fonte única de verdade. A partir daí, deixa de haver o “eu acho que aconteceu isto” ou “eu acho que aconteceu aquilo”, porque a realidade está ali representada.
E é por aí que temos de começar. Se não soubermos qual é a verdade, não conseguimos otimizar processos nem ser mais eficientes. O que o gémeo digital nos permite é garantir que tudo está a ser feito como foi planeado. Se existir um desvio, esse desvio fica documentado, conseguimos perceber a sua origem e sabemos como o corrigir. É assim que avançamos.
No fundo, tudo começa na parte mais simples: garantir que sabemos exatamente o que acontece no mundo real, sem dogmas e sem opiniões, apenas com factos.

Depois da monitorização, existe uma segunda vertente, que passa pela otimização e pela previsão. Ou seja, perceber se é possível simular e testar diferentes cenários no mundo digital, sem ter de intervir diretamente nas máquinas.
Exatamente, e é por isso que é essencial termos a certeza de que, no computador, temos a verdade do mundo real. Se eu fizer simulações sem essa verdade, os resultados vão ser sempre maus. O digital twin serve precisamente para monitorizar, para garantir que temos controlo e responsabilidade sobre tudo o que está a acontecer, assegurando que está em conformidade com a lei, com a qualidade e com todos os requisitos necessários.
Vivemos num mundo em mudança constante. Muitas vezes, quando uma marca acaba de definir um produto, o mercado já está a caminhar noutra direção. Isto tem levado as fábricas ao limite. Tradicionalmente, as fábricas eram pensadas para produzir a mesma peça durante anos. Hoje, começam a produzir uma e, entretanto, o mercado já mudou para outra. É exatamente aqui que entra o conceito de IA física. A IA física pega na informação que temos no gémeo digital e começa a processá-la, a testá-la de diferentes formas. Se for necessário produzir um produto diferente, basta reorganizar as máquinas, reorganizar as pessoas.
“E se eu adicionar mais um robô?” Aqui está a grande vantagem dos computadores face ao mundo real. Sem esta tecnologia, sem o gémeo digital e sem a IA para fazer simulações, eu teria de parar fisicamente a fábrica, fazer testes no terreno e perder dinheiro. No mundo virtual, posso simular milhares de cenários e, a partir deles, encontrar rapidamente aquele que responde melhor à necessidade do mercado. E como a nossa IA física está ligada ao gémeo digital, quando encontramos esse cenário ótimo, a IA comunica diretamente com as máquinas e diz: “Amanhã vais operar de outra forma”, sem necessidade de intervenção humana. É exatamente aqui que está a grande vantagem da nossa tecnologia.
Nós estimamos que esta tecnologia é tipo Fernando Pessoa. Primeiro estranha-se, depois entranha-se. Não é muito fácil perceber à primeira, mas rapidamente o cliente começa a ver grandes vantagens e grandes mudanças
Se a fábrica tiver uma determinada disposição física, o modelo consegue reconhecer, por exemplo, a existência de um pilar onde não pode ser colocada uma máquina? Ou seja, essa limitação é identificada automaticamente quando é feito o scan do espaço?
Já começa a não ser necessária essa intervenção humana direta, e é aqui que entra outra tecnologia fundamental: o 5G. Atualmente, quando se constrói uma fábrica moderna, a lógica já não é a tradicional máquina a máquina, mas sim uma abordagem modular. Trabalha-se com módulos que podem, literalmente, ser colocados sobre rodas. O 5G permite a comunicação em tempo real entre esses módulos, transformando a organização da fábrica numa espécie de puzzle.
Desta forma, os módulos podem ser movidos para um local ou para outro, consoante a orientação da chamada inteligência artificial física, que optimiza a disposição de acordo com as necessidades da produção.
Qual é o retorno médio expectável da aplicação deste tipo de tecnologias? Para quem tem uma fábrica, o que é que pode esperar de aumento de produtividade, de rendimento?
Nós estimamos que esta tecnologia é tipo Fernando Pessoa: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se.” Não é muito fácil perceber à primeira, mas rapidamente o cliente começa a ver grandes vantagens e grandes mudanças.
E, portanto, em termos de retorno, nós estamos a falar muitas vezes em aumentar a produção em 30%. Esse é um valor fácil de atingir, podemos chegar a 100%, 200%, dependendo do nível, digamos, ainda analógico em que o cliente estava. Essa é que é o grande poder da tecnologia, mas é uma tecnologia que ainda demora algum tempo ao dia de hoje a ser configurada.
É uma tecnologia cara? Como é que é o vosso modelo de negócio?
É uma tecnologia que tem um elevado retorno de investimento. Obviamente, necessita de alguma tesouraria por parte do cliente, mas o retorno de investimento, o nosso recorde em Portugal é uma semana.
Isso quer dizer, é uma tecnologia que compensa. Ou seja, ao fim de uma semana, o cliente, os ganhos que teve, pagou a tecnologia. É o recorde [uma semana] que temos em Portugal e queremos batê-lo.
Esta tecnologia é desenvolvida em Portugal?
Quase toda desenvolvida em Portugal. A nossa empresa é 100% portuguesa, mas também tem duas empresas no Brasil. Temos uma parte de desenvolvimento no Brasil, mas é, digamos, praticamente toda desenvolvida em Portugal.

De que forma é que casos como o vosso podem contribuir para Portugal se diferenciar neste ecossistema que é de facto muito competitivo a nível internacional, não só entre setores, entre tecnologias, mas também entre blocos geopolíticos?
Trabalhar no mundo físico é extremamente complexo e, por isso, não é para todos. No mundo virtual, posso realizar grande parte das tarefas sozinho, confortavelmente em casa, quase de pijama, apenas com o meu computador. No mundo físico é necessário estar presente na fábrica. O processo é mais lento. Mas isso também cria barreiras à entrada de novos clientes e concorrentes.
Em Portugal, acreditamos que este setor deve receber uma atenção especial. O nosso país tem uma forte tradição industrial, muito centrada na subcontratação, e é essencial conseguirmos responder rapidamente ao mercado, garantindo qualidade, eficiência e sustentabilidade. Tecnologias como a nossa oferecem uma vantagem competitiva significativa às indústrias portuguesas face a outros mercados.
Há alguma medida que pudesse e devesse estar a ser seguida pelos nossos decisores políticos para dar visibilidade, dar apoio, acelerar esta área?
Claro que sim. Uma tecnologia de IA física é uma tecnologia também computacionalmente que requer bastantes recursos e, portanto, o Banco Português de Fomento tem de ter uma iniciativa nessa área. E é importante, além de termos a parte de hardware, também termos a parte de financiamento que ajuda a utilizar o próprio sistema.
Não é só ter o sistema, mas também utilizar. É importante haver alguns apoios nessa área, para que nós possamos acelerar processos. Porque a nossa concorrência também tem apoios. Nós não vivemos num mundo hermético, e essa é a parte importante.
Enquanto empresa, onde é que querem chegar? Quais são os próximos passos?
Nós achamos que estamos numa área crítica para a IA. Achamos que a IA, ao dia de hoje, não está muito ligada ao mundo físico. Somos uma das empresas que está na linha da frente dessa área e, obviamente, queremos atingir um ponto de alguma relevância no mercado internacional e, efetivamente, de marca. E queremos ser uma das empresas mais importantes nesta área da IA física.
E querem atingir algum mercado específico?
Estamos a trabalhar vários mercados, como o Japão. Temos já clientes em Marrocos, Estados Unidos, portanto, já temos alguns mercados fora dos mercados tradicionais, que sempre foram Portugal e Brasil, e queremos muito crescer nos mercados internacionais.
Para além da Visabeira [que foi convidada no mesmo episódio deste podcast], têm outros clientes em Portugal?
Temos. A Efacec, o exército português…
Estão a trabalhar na defesa?
Estamos a trabalhar na defesa, também na ótica de responder rapidamente a qualquer urgência e necessidade.
Veja aqui a versão em vídeo do podcast (na íntegra):
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Empresa portuguesa cria réplicas de fábricas como no ‘The Sims’: “Este setor deve receber uma atenção especial”
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