Novas taxas sobre encomendas de baixo valor na UE podem "mudar a face da logística", diz Olivier Establet, líder da DPD. O gestor afirma também que "é mais difícil do que nunca" contratar pessoas.
As encomendas de baixo valor feitas em plataformas asiáticas vão estar sujeitas, a partir de 1 de julho, a uma taxa aduaneira fixa de três euros por produto, estando prevista a entrada em vigor de outra taxa “de handling” em novembro, o que vai “dificultar muito a vida” ao e-commerce asiático para a Europa. Estas “medidas protecionistas da União Europeia” ameaçam resultar em produtos até “sete euros” mais caros para os consumidores europeus, antecipa o presidente executivo da DPD Portugal, Olivier Establet.
“Nós não temos na DPD exposição nenhuma ao fluxo de e-commerce chinês”, esclarece o gestor, em entrevista ao ECO por ocasião da divulgação dos resultados anuais da empresa, que pertence ao grupo Geopost, detida por sua vez pelo grupo postal francês La Poste. No entanto, o responsável, com base na experiência de outros mercados, lembra que “há sempre uma tática de contorno dessas medidas”, que pode “mudar a face da logística”.
Com efeito, Olivier Establet, que também lidera a operação da Geopost ao nível ibérico, antevê uma rápida tendência de instalação, pelas plataformas asiáticas, de centros de fulfillment de encomendas em território europeu, incluindo em Espanha e Portugal, com vista a contornar o pagamento das novas taxas da União Europeia. Questionado sobre se afetará a DPD, o CEO deixa em aberto: “Da forma como está hoje, não. Da forma como estará amanhã, talvez.”
Em 2024 abriram um centro em Loures. Em 2025, abriram outro em Leiria. Para 2026 há mais algum investimento deste género na calha?
Temos a estrutura bem reforçada, com capacidade. Naturalmente que há sempre novos investimentos numa fase mais ou menos adiantada. Posso, pelo menos, confirmar que temos neste momento projetos a ser estudados para nos reforçar, mais na zona norte do país desta vez. Mas é uma fase ainda prematura, em que várias opções estão a ser ainda estudadas. Costumamos falar com a imprensa, no geral, quando os projetos estão talvez numa fase mais adiantada.
Falando dos que já são conhecidos, Loures e Leiria, o que é que esses investimentos estão a fazer pela DPD Portugal?
Pulmão. Mais capacidade de aguentar os picos da atividade. Porque a nossa atividade não é uma atividade plana ao longo do ano. Temos realmente muitos altos e, sobretudo, a fase do final do ano, que é muito exigente, a partir da Black Friday, diria até do início de novembro. Assistimos a crescimentos na ordem dos 50% da atividade face aos níveis habituais. Naturalmente que os nossos clientes não esperam um nível de serviço inferior nessa fase, mas não é fácil reforçar a atividade e a capacidade, sobretudo em 50%. Também tem que haver capacidade e infraestrutura e esses investimentos contribuem para ter essa capacidade. Talvez um pormenor aqui importante, interessante, é que, quando esses investimentos são criados, é a pensar nos próximos dez anos. Ou seja, quando estão na fase inicial, estão praticamente à metade da sua capacidade na fase final do ciclo de vida. Significa que qualquer investimento que fazemos é sempre a pensar no longo prazo.
Segundo dados da Anacom do terceiro trimestre, a quota da DPD Portugal nas encomendas rondou os 25%, enquanto a dos CTT andou em torno dos 40%. Está confortável com essa configuração do mercado?
É um mercado concorrencial, em que todos os operadores terão os seus posicionamentos, os seus argumentos. A característica do mercado português talvez seja a de que o mercado do e-commerce, que sempre é importante, é um mercado em grande parte de importação. As encomendas compradas online em Portugal, 70% vêm de fora. Às vezes não temos noção disso, porque as páginas nas quais compramos são todas traduzidas em português e não temos essa noção logística da origem dos produtos. E em volume, não digo em valor, mais de metade dessas encomendas hoje em dia vêm de operadores de plataformas asiáticas. É uma atividade na qual, por tradição, há uma grande proximidade com os operadores postais domésticos. Também em França acontece connosco. Isso faz com que, praticamente, 30% do mercado total estejam, por natureza, nas mãos do operador incumbente. É o caso também em Portugal, e nós não temos na DPD exposição nenhuma ao fluxo de e-commerce chinês.
E têm interesse nesse tipo de tráfego?
Estamos confortáveis com a nossa posição. Somos líderes de mercado em Portugal no B2B. Isso a Anacom não mede, só se limita a fazer uma avaliação muito global do mercado. Também somos líder do mercado em Portugal no que é o cross-border rodoviário na Europa, ou seja, todos os fluxos que existem entre Portugal e o resto dos países europeus através de um encaminhamento rodoviário, que é o grosso da atividade.
Terá estado muito atento quando, no final de 2024, os CTT anunciaram uma joint venture com a DHL. O objetivo é repartir o mercado de Portugal e Espanha entre CTT e DHL, tanto no B2C como no B2B. Como é que olha para esse negócio, que altera efetivamente a configuração do mercado ibérico?
Está atento e também tem memória, porque está a falar de algo que foi anunciado há mais de um ano, em dezembro de 2024. Mas não vou poder comentar, porque este assunto está, neste momento, a ser analisado pelas autoridades de concorrência e a investigação, a análise, está a decorrer. Por isso, há, neste momento, questões que estão a ser analisadas pelas autoridades competentes.
Acha que as autoridades deveriam intervir para travar esse negócio?
Eu não posso comentar isso. Estamos apenas a colaborar.
São uma entidade interessada? Declararam-se formalmente como entidade interessada nesse processo?
Nós colaboramos com todas as autoridades nacionais e internacionais quando somos consultados, e somos consultados muitas vezes, como deve imaginar, ao longo do ano, como um ator importante, que tem uma opinião, que pode aportar a sua visão. E por isso há uma grande regularidade de contactos entre as autoridades competentes e o grupo Geopost.
Mesmo que não concretize, tem reservas em relação a esse negócio?
Não posso dizer mais nada.
Investiram em Leiria e abriram um novo centro logístico em 2025. Entretanto, Leiria foi uma das regiões mais afetadas pelas tempestades. Tiveram algum prejuízo?
Não. Nós também fomos naturalmente atingidos, ainda por cima com instalações brand new, que acabaram de ser estreadas no ano passado. A primeira coisa que nos lembrámos foi, naturalmente, das pessoas, e algumas até não passaram bem, às vezes não relacionadas com o local de trabalho, mas nas suas vidas pessoais e, por isso, primeiro, toda a solidariedade com as vítimas desta catástrofe natural, que ainda deixou marcas, e que ainda está a ser parcialmente reparada. No nosso caso, tivemos que reagir da melhor maneira, apesar de haver naturalmente compreensão por parte dos consumidores, mas as nossas estações mais próximas em Torres Novas e em Coimbra, tiveram uma prestação extraordinária a ajudar em zonas que não costumam apoiar, de forma a minimizar ao máximo o impacto sentido pelo mercado no geral.
Há, neste momento, questões que estão a ser analisadas pelas autoridades competentes [na parceria entre os CTT e a DHL].
Contratar pessoas “é mais difícil do que nunca”

Quantas pessoas trabalham nesse centro de Leiria?
Pouco mais de 50 pessoas.
E na DPD Portugal, quantas pessoas trabalham atualmente?
Estamos com 1.100 pessoas contratadas, digamos, às quais temos que somar outras 500 pessoas em full-time, dedicadas à DPD, sem ser através de um contrato de trabalho, na figura de subcontratadas, que é um modelo muito usado neste setor.
Num país em que praticamente não há setor que não se queixe de falta de mão-de-obra, a DPD tem sentido essa dificuldade em encontrar as pessoas de que precisa?
Não. Toca num ponto que vai mais longe do que a DPD, mais longe do que o setor de transporte expresso, e que toca, no geral, o mercado de trabalho em Portugal. E a DPD, de facto, não é isolada, e não terá uma observação muito diferente daquela que no geral é referida. É mais difícil do que nunca. Há um mercado da mão-de-obra bastante ocupado, com uma taxa de desemprego muito baixa e há uma dificuldade grande para encontrar operadores de triagem, que efetuam a sua atividade na maioria do tempo à noite; encontrar motoristas, que têm uma atividade extensa ao longo do dia… Por isso, são lugares sujeitos também a alguma rotatividade e faz com que a necessidade do recrutamento seja constante. Por isso, aqui, acabamos por encontrar soluções, naturalmente, já que o nosso serviço está a ser prestado todos os dias. Mas as dificuldades são efetivamente maiores.
Nos últimos dois anos, este Governo tem tomado medidas para tornar mais difícil a imigração, apesar de alguns expedientes, como a ‘via verde’ para contratar imigrantes. As políticas do Governo nessa matéria estão a ir no sentido certo?
Eu não vou comentar as políticas do Governo. Mas o que eu posso dizer é que, nos nossos valores, temos a diversidade e a integração. Temos muitas nacionalidades também presentes no grupo Geopost, e também em particular em Portugal contamos com essa mão-de-obra, como qualquer outra mão-de-obra, e tem contribuído de forma também equitativa aos outros no valor que a DPD presta para o mercado português. Não podemos esquecer que o mercado de transporte expresso é uma empresa que é uma alavanca para toda a economia. É importante o papel que tem na cadeia de valor das empresas e da economia em geral. Esse valor vem da soma de todas as pessoas que trabalham e muitos são oriundos também da imigração, naturalmente. Eu também, já agora.
Falemos de tendências do mercado de e-commerce aqui em Portugal, mas também ao nível ibérico. Para onde está a caminhar o setor? Os operadores estão a apostar muito nos cacifos e nas entregas fora do domicílio.
Estamos talvez numa intensificação dessa tendência das entregas efetuadas fora do domicílio, através de redes de pontos ou de redes de lockers. Essa tendência é para ficar e vai intensificar-se. Um dia, talvez, a entrega a domicílio do e-commerce passará a ser o segmento premium de quem vende online, sujeito a pagamento, enquanto a solução de entregas em pontos de lockers passará a ser o mainstream e passará a ser incluído numa oferta de free shipping, que as empresas de retalho utilizam. É uma das poucas ferramentas de marketing que podem ser utilizadas para forçar as vendas online, o facto de não se pagar os portes. Isso tem um investimento grande por parte de quem vende online e, para o fazer, têm que utilizar as soluções mais económicas. Além de ser conveniente, essa tendência de entregas em pontos de proximidade — e também a solução mais económica –, sem dúvida de que é para continuar a contar com ela. Portugal já iniciou, aliás, connosco, há mais de dez anos, e a DPD tem essa rede de pickup ativa, com mais de 2.300 pontos, dos quais 400 lockers. Continuamos a liderar esse segmento, que era um nicho e que agora, cada vez mais, se está a impor como solução.
A segunda tendência que está para vir — porque ainda não se sente os impactos, mas vamos começar a senti-los –, são as medidas protecionistas que a União Europeia está a tomar face à invasão de produtos asiáticos através do e-commerce. A partir do dia 1 de julho vai terminar o regime de minimis e vão começar a ser cobradas taxas aduaneiras nas encomendas abaixo de 150 euros. Depois, a partir de novembro, vai-se intensificar. Vão ser valores que podem chegar a cinco, seis e sete euros por artigo. Isso vai, com certeza, dificultar muito a vida e penalizar o e-commerce asiático para a Europa. Também não é difícil imaginar o que vai acontecer. Há sempre uma tática de contorno dessas medidas, mas um contorno que pode mudar a face da logística, sendo que essas empresas chinesas vão cada vez mais optar pelo que chamam local to local e deixar de fazer importação massiva para entregar diretamente ao consumidor final.
Podemos, e vamos com certeza assistir — muito rapidamente, porque esses operadores nos habituaram a reagir e o que nós fazemos em meses ou anos eles fazem em dias — ao surgimento de centros de fulfillment nos nossos países europeus, como em Portugal e possivelmente em Espanha. E que vão fazer com que o fluxos, tal como existem hoje, vão com certeza mudar, podendo haver uma redistribuição de cartas nesse mercado que, para Portugal, é um mercado muito importante.
O que está a prever é que essas plataformas venham instalar centros de fulfillment aqui na Europa, nomeadamente no mercado ibérico, para passar a distribuir as encomendas daqui diretamente, sem pagar a taxa aduaneira. Ou seja, deixar de ser considerado uma importação.
Vão pagar taxas aduaneiras, mas de carga massiva de importação, que não é sujeita às mesmas taxas e que permite ter um custo médio inferior. Também pode haver, é importante referir, uma aposta maior nos sellers regionais. Por isso, vamos assistir cada vez mais a um mix de produtos oriundos de fora que vai diminuir a favor dos produtos [regionais] também de baixo valor. No fim, a solução vai ter de ser mais cara do que é hoje, mas o gap é tão grande atualmente que é previsível que essas plataformas continuem com uma vantagem competitiva do ponto de vista dos preços.
Estamos confortáveis com a nossa posição. Somos líderes de mercado em Portugal no B2B. Isso a Anacom não mede.
O ainda CEO dos CTT argumenta que se um produto que custa dois euros aumentar para quatro euros, que é um aumento de 100%, isso não irá afugentar os consumidores. Acha que vai de facto haver um travão?
Houve várias versões de qual seriam essas medidas que a União Europeia iria tomar e as versões de uma percentagem foram rapidamente abandonadas, porque realmente têm o efeito que menciona: um aumento de 50%, que é muito, sobre um produto de dois dólares não vai mudar muito, não é? Agora não digo o mesmo. Porque, quando estamos a falar de mais três, quatro, eventualmente sete euros a mais… posso dizer que, no nosso caso, em que às vezes por cêntimos de diferença no serviço de transporte o consumidor prefere optar por uma solução em vez de outra, o consumidor final é muito sensível ao preço. Muito sensível ao preço. Será um valor fixo de três euros a partir de junho e outro valor a partir de novembro por razões diferentes: um é de customs, outro é de handling.
Mas disse que a DPD Portugal não está exposta a esse mercado. Essa tendência não vos afeta, ou afeta?
Da forma como está hoje, não. Da forma como estará amanhã, talvez.
Em que medida?
Vai depender de como os fluxos logísticos se vão reformular. E se pudermos aportar valor, cá estaremos. Não temos qualquer problema existencial com esses fluxos. Não são diferentes dos outros. Neste momento, o que pretendem é um serviço low-cost, sem qualquer tipo de preocupação com os prazos de entrega, e, por isso, procuram uma solução mais próxima a uma solução postal, e há quem faça esse serviço melhor do que empresas como as nossas.
Portanto, face a esta dinâmica, a DPD pode ter interesse em servir clientes como a Temu, da qual os CTT têm exclusividade em Portugal?
A Temu é já cliente do grupo Geopost em muitos territórios e geografias. Portanto, pode vir a ser a qualquer momento. Não temos qualquer problema.
E quanto à primeira tendência, o que diz é que no futuro, ter a entrega ao domicílio, o estafeta da DPD a bater à porta, vai ser o serviço premium. Quando é que essa será a norma? Qual é a perspetiva?
Para simplificar, se fizer uma curva da percentagem de encomendas entregas nesses pontos de proximidade, há dez anos partimos do zero. Hoje em dia, estamos provavelmente perto dos 20% e vai continuar a subir para os 30%, certamente, nos próximos três anos.
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Encomendas da China terão aumentos que “podem chegar aos sete euros por artigo”
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