No dia 1 do Mundial, Miguel Poiares Maduro, que chefiou o Comité de Governança da FIFA, deixa críticas à presidência de Infantino. Mais receitas servem para comprar lealdade e ficar no poder, diz.
Miguel Poiares Maduro é provavelmente o português que melhor conhece os meandros do regime atual de Gianni Infantino na FIFA. Depois da queda de Sepp Blatter devido a escândalos financeiros, Infantino chegou à liderança em 2015 com promessas de ‘limpar’ a organização. Em 2016, no 66º congresso, a FIFA elegeu Poiares Maduro, jurista conceituado e ex-ministro, para presidente do Comité de Governança da FIFA e da Comissão Independente de Revisão.
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Mas a experiência não correu bem. Depois de dez meses conturbados, foi afastado por se opor à nomeação do vice-primeiro ministro russo para o Comité da FIFA. No dia em que arranca o Mundial 2026 – organizado por Estados Unidos, México e Canadá – o ex-ministro do Desenvolvimento Regional (2013-2015) no Governo de Pedro Passos Coelho explica ao ECO que esse caso foi a gota de água depois de “várias outras situações muito difíceis“.
Para Poiares Maduro, atualmente Dean da Católica Global School of Law, Infantino veio intensificar “um sistema de incentivos perverso, em que a permanência no poder passa pelo avolumar de receitas, que utiliza para premiar aqueles que são leais e para penalizar os outros”, com este Mundial a confirmar essa estratégia, nomeadamente nas questões dos direitos televisivos, dos preços “altíssimos” dos bilhetes e da expansão do número de equipas para 48.
Considera Infantino como “uma pessoa que partiu de origens muito simples e de repente se vê neste mundo e se acha como uma das personalidades mais importantes do mundo – ele até veio dizer que a FIFA é a única organização que pode promover a paz no mundo, por exemplo”. Poiares Maduro recorda que a última eleição de Infantino “não foi por voto secreto, foi por aclamação, uma coisa típica do regime autocrático, por proclamação, por aplauso, acho que diz tudo da organização e dos graves problemas que tem”.
O que é que este Mundial representa na estratégia da FIFA neste momento?
É um Mundial relevante a esse respeito porque confirma uma estratégia que faz parte da estrutura de incentivos de funcionamento da própria FIFA, infelizmente, que é uma estratégia em que a prioridade neste momento é aquela do avolumar das suas receitas. A FIFA e as federações desportivas internacionais vivem num conflito de interesse sistémico, que é, por um lado, são os reguladores daquele desporto, mas também de todos os mercados económicos relacionados com esse desporto.
Não consegue ser um atleta e um profissional do futebol sem autorização da FIFA. Não consegue ser uma empresa, um clube, a atuar nesse mercado sem autorização da FIFA. Os principais eventos desportivos, as principais competições desportivas, são organizadas pela FIFA ou as suas confederações, a Champions League, o Campeonato do Mundo…
Mas isso já acontecia antes.
Já acontecia antes. E, portanto, e isso significa que a FIFA é, ao mesmo tempo, o regulador destes mercados, mas é também o principal operador comercial destes mercados. Não há nenhum outro mercado económico assim. Imagine no mercado digital se a Microsoft fosse ao mesmo tempo a reguladora do mercado e o principal e único operador económico.

E que distorções é que isso cria, na prática? O que é que significa?
Significa que isto oferece uma oportunidade muito grande à FIFA de maximizar as suas receitas económicas, como qualquer monopolista, que para além de ser monopolista, é o próprio regulador do mercado. E essa maximização das receitas está muito relacionada com o sistema de poder da FIFA. Ou seja, um presidente da FIFA, como é que se mantém no poder? E é constantemente renovado, como temos visto. Antes de Infantino, Blatter tinha estado lá 17 anos, só saiu pelos escândalos jurídicos e pela investigação americana nessa altura. João Havelange, antes de Blatter, tinha estado 30 anos.
Portanto, com o início do valor comercial, quando o futebol se transformou num mega negócio, isto criou um sistema de incentivos perverso, em que a permanência no poder e a consolidação do poder de um presidente da FIFA passa pelo avolumar de receitas, que ele utiliza para premiar aqueles que são leais e para penalizar os outros.
Aqueles que votam…
Exatamente. Temos 200 votos de federações, muitas delas pequenas, em que o valor que recebem pela FIFA é astronómico para o contexto do PIB do país.
Nos bilhetes não são apenas preços altíssimos, há a criação de uma plataforma de revenda que no fundo foi a FIFA trazer para dentro o mercado da candonga. Em vez de criar limitações à venda em mercado secundário a valor muito mais alto, criou uma forma de isso ser feito de forma regular e há bilhetes de 200 euros a serem vendidos por 3 mil euros
E cada país é um voto?
E cada país é um voto. O Brasil, que é um gigante de futebol, tem o mesmo número de votos que o Curaçao, por exemplo, ou Aruba, para termos uma ideia. Em que os valores que chegam fazem, às vezes, das federações nacionais quase a entidade com mais valor económico nesse país. E este Mundial, porquê que é representativo a esse respeito? É representativo de duas formas. Por um lado, porque é um Mundial em que, claramente, a FIFA assume a prioridade de maximizar as suas receitas.
Ou seja, se a FIFA não fosse apenas um agente comercial, ou não fosse prioritariamente um agente comercial, mas fosse alguém preocupado com todos os valores do ecossistema do futebol, ela ia ter uma preocupação grande em que os jogos, por exemplo, fossem visíveis em canal aberto. Ora, nós tivemos um risco muito grande disso não acontecer. Não vai acontecer em alguns países.
Em Portugal tivemos um risco grande.
Em Portugal tivemos um risco grande. Porquê? Porque a FIFA deu prioridade a ter mais receitas do que a tornar os jogos do futebol mundial mais acessíveis aos adeptos. Esse é um exemplo.
O outro é a questão dos bilhetes. Não apenas preços altíssimos, mas para além disso a criação de uma plataforma de revenda que no fundo foi a FIFA trazer para dentro da própria FIFA o mercado da candonga. Em vez de criar limitações à venda de bilhetes em mercado negro ou secundário a valor muito mais alto, criou uma forma de isso poder ser feito de forma regular e há bilhetes que tinham valores de 200 euros a ser vendidos por 3 mil euros.
Isto tem a ver com os preços dinâmicos também?
Esse é outro fator, ainda mais, um terceiro fator de amplificação das receitas da FIFA. Portanto, este Mundial é muito representativo a esse respeito da prioridade que a FIFA dá neste momento à amplificação das suas receitas. Claro que o senhor Infantino vai dizer que nunca a FIFA teve tantas receitas no Mundial e que vão ser utilizadas para promover o futebol no mundo. Na realidade, servem sobretudo para consolidar o seu poder.
A natureza da relação entre Infantino e Trump é uma relação extraordinariamente próxima. E aí temos mais uma contradição na própria organização da FIFA e na forma como a FIFA se comporta
Há um programa que chamam de Football Forward, que é uma forma de recompensar os países, mas é criticado por ser essencialmente uma forma de controle.
O Football Forward, se quiser, é o PRR da FIFA. É a forma simples das pessoas perceberem. E tal como a Comissão União Europeia utilizou o PRR para impor aos Estados condições, oferecer dinheiro é um instrumento de poder, na FIFA também é, mas é um instrumento de poder sobretudo ao serviço do presidente, da sua agenda e da consolidação do seu poder.
Depois, este Mundial também é a confirmação de uma relação cada vez mais próxima entre o futebol e o poder político. A natureza da relação entre Infantino e Trump é uma relação extraordinariamente próxima. E aí temos mais uma contradição na própria organização da FIFA e na forma como a FIFA se comporta.
Mas isso já aconteceu com Vladimir Putin, por exemplo, com o Qatar, até com a Arábia Saudita.
Mas temos cada vez mais a confirmação desse tipo de relação.
E sem disfarce.
Sem disfarce.
Agora com um prémio da paz também…
Claro. Por isso é que eu estou a dizer, é levado ao extremo porque sempre houve essas relações próximas, falava-se muito delas. Mas em termos públicos, de forma tão explícita, o presidente da FIFA apoiar – não apenas ter uma boa relação cordial, publicamente, com o presidente de um país de acolhimento, o que é normal – mas, na realidade, fazer discursos em que apoia o programa político desse presidente, em criar um prémio ad hoc sem qualquer base nos estatutos da FIFA, sem saber como é que foi selecionado, como é que foi atribuído e oferecê-lo a um presidente que está neste momento em curso de mandato e que é uma personagem política, é uma contradição enorme com o chamado princípio da neutralidade política, que é um princípio que a FIFA tem.

Há a questão também de termos 48 equipas, eram 32, passam para 48. Isso faz parte da estratégia de expansão comercial, certo?
Faz parte dessa estratégia de expansão comercial, ganhar mais dinheiro e faz parte da estratégia de consolidação de poder. Porque há mais federações que o presidente da FIFA consegue satisfazer trazendo ao Mundial e que de outra forma não vinham. Nós nunca teríamos um país como Curaçao no Campeonato do Mundo se não fosse com este alargamento. E curiosamente fala-se de o próximo Mundial, que inclui Portugal, poder vir a ter ainda mais equipas. Porque, como se sabe, o nosso Mundial já é um Mundial também muito sui generis, porque é Portugal, Espanha, entretanto depois Marrocos e depois alguns países da América do Sul queriam ter três jogos mas fala-se que esses países em vez de três jogos podem vir mesmo a ter grupos e que o Mundial pode atingir as 60 equipas porque não faz muito sentido organizar três jogos e estarem equipas a fazer um jogo do grupo lá e depois virem cá. E como a Conmebol já foi a primeira confederação a dizer – quando Infantino acabou de ser reeleito para mais um mandato – que já o apoia para um mandato seguinte e o presidente da Conmebol está neste momento debaixo de bastante escrutínio por investigações jornalísticas que levantaram dúvidas éticas, fala-se dessa possibilidade de vir a ter um Mundial com mais equipas.
Acredita que isso dilui o evento? Estamos habituados a um certo número de jogos, uma certa competitividade.
Em primeiro lugar, como têm dito os atletas e como têm dito algumas federações europeias, é, do ponto de vista da saúde dos atletas, cada vez mais perigoso. E é duplamente perigoso, são mais jogos, são jogos a distância muito maiores, em climas diferentes, em atletas que já tiveram uma competição muito longa, provavelmente vamos ver algumas consequências disto neste Mundial e no próximo, se for Portugal, Espanha, Marrocos e América do Sul. E já agora, não sei se se sabe qual é a leitura imediata do próximo Mundial ter lugar em três confederações, três continentes?
Não.
Não é por acaso que o Mundial seguinte foi atribuído à Arábia Saudita, quando em princípio isso não poderia acontecer porque há uma regra de rotação entre confederações. E o Qatar tinha sido há muito pouco tempo. Portanto, um país daquela zona não deveria ser. Mas isso tornou-se possível a partir do momento em que o próximo Mundial ocorre em três confederações ao mesmo tempo. Deu imenso jeito que esse Mundial fosse em três confederações, permitindo-se saltar novamente para a confederação da Arábia Saudita, a Confederação Asiática. E coincidentemente foi atribuído à Arábia Saudita, quando a Austrália até tinha manifestado interesse, mas com três semanas de pré-aviso, a Arábia Saudita tinha estranhamente a sua candidatura preparada e a Austrália disse, bem, com poucas semanas nós não conseguimos preparar uma candidatura. Mas enfim, isto são seguramente só coincidências e nada mais que isso.
O argumento foi de que queriam fazer o jogo inaugural no Uruguai para festejar o centenário.
Sim, sim, exatamente. Foi essa a justificação que encontraram. Mas é uma justificação muito útil e também é muito útil que o terceiro país, em vez de ter sido na Europa, como estava a pensar de ter sido na Ucrânia foi em África, que permitiu mais um continente.
Na questão da intensidade, já tivemos críticas no ano passado, quando de repente a FIFA entra no jogo dos clubes, com um mundial de clubes no fim da época, nos Estados Unidos também.
E com um apoio financeiro de mil milhões de euros da Arábia Saudita. Coincidência outra vez. Só para notar mais uma. Atenção, é perfeitamente legítimo que a Arábia Saudita queira organizar o Campeonato do Mundo. O que eu acho é que a FIFA devia ser uma instituição que funciona de acordo com regras transparentes, com processos completos. Tinha prometido isso depois dos escândalos de 2015. E, aliás, na altura que eu fui, durante um breve período, presidente do Comité de Governança, na sequência, precisamente, de reformas que queriam evitar este tipo de problemas, uma das promessas que a FIFA tinha feito é que, primeiro, nunca voltaria a atribuir mundiais ao mesmo tempo, mais que um mundial ao mesmo tempo, porque foi o que aconteceu com a Rússia e o Qatar e que permitiu trocas de favores. E isso, infelizmente, voltou a acontecer agora. E segundo aspeto, que os processos iriam ser verdadeiramente competitivos, abertos, transparentes, e foi tudo menos isso.
Na FIFA não há praticamente vozes contra. A única voz que se ouve um bocadinho crítica é a da presidente da federação da Noruega. E, coitada, já teve de diminuir as suas críticas porque foi afastada de vários cargos
Infantino chegou à presidência da FIFA em 2015, com a ideia de ‘limpar’ depois do escândalo Blatter, criou esse Comité de Governance. O que é que aconteceu quando o Miguel chegou lá? Foi a oposição à nomeação de um governante russo o obstáculo à sua permanência na liderança desse comité? Conte-nos um bocado essa história.
Esse é o caso que ganhou mais visibilidade mediática, porque obviamente quando o comité que eu presidia excluiu do Conselho da FIFA o então vice-primeiro-ministro da Rússia, e ainda por cima menos de um ano antes do Mundial, como imagina, não foi uma decisão bem acolhida internamente na Rússia. Mas para nós, e independentemente de sobre essa pessoa também existirem suspeições que nós nem conseguimos chegar a investigar, porque ele era indicado como a pessoa responsável pelo doping do Estado na Rússia, mas não foi por essa razão que ele foi excluído. Porque nós, aliás, nessa altura, por exemplo, não tivemos cooperação nenhuma do Comité Olímpico Internacional na investigação desses factos, que tinham ocorrido nas Olimpíadas de Sochi, mas essa pessoa foi excluída, como, aliás, tínhamos já excluído outra pessoa, com base no princípio, precisamente, da neutralidade política e na obrigação que dele decorre no código de ética da FIFA, de todos os oficiais da FIFA, de todas as pessoas que exercem funções na FIFA, serem neutrais relativamente aos governos. Ora, por definição, o vice-primeiro-ministro não pode ser neutral relativamente a um governo. Mas era mais uma das contradições, era uma prática comum na FIFA que nós quisemos terminar e, portanto, nós excluímos essa pessoa.
Tivemos consciência de que fazer isso um ano antes do Mundial na Rússia era diplomaticamente complicado, mas, como transmiti na altura ao presidente da FIFA, a nossa função era aplicar as regras de forma igual para todos. Não há uma regra que diz que porque há um país organizador do mundial, as regras não se aplicam aos seus membros. Essa foi a questão que ganhou mais dimensão e que muitos jornalistas, na altura, atribuíram depois à minha partida. Mas, na realidade, nós tivemos várias outras situações muito difíceis, desde outras pessoas bastante importantes no mundo do futebol que falharam os testes de integridade e, portanto, nós tivemos de afastar, com forte oposição de algumas confederações, sendo que muitos desses casos nem sequer foram públicos, porque nós dávamos a possibilidade às pessoas, como era um teste de integridade, de desistirem das candidaturas. E, portanto ou era-nos comunicado pelo presidente, que queria nomear a pessoa tal, e nós dizíamos que não pode ser, portanto não deve, foram casos também bastante complicados, quer por um conjunto de outras circunstâncias, no controlo dos processos eleitorais. Nós tivemos bastantes conflitos.
Por exemplo?
Conto só uma história, porque é quase anedótica, mas exemplar ao mesmo tempo. O primeiro congresso que eu fui em que chefiei a delegação no controlo das eleições foi em Goa, da AFC, e uma das novas regras que tinha de ser aplicada era a regra que obrigava que entre os membros do Conselho da FIFA, que são eleitos nas diferentes confederações – cada confederação elege um conjunto de pessoas, pode ser 11, por exemplo, varia com as outras confederações, que pelo menos um deveria ser uma mulher. E essa confederação aplicou essa regra, ou procurou aplicar essa regra, criando o que eles chamavam de posição feminina, e fazendo de todas as mulheres candidatas, candidatas a essa posição e só a essa posição. Ou seja, transformaram o ‘pelo menos uma mulher’ em ‘não mais que uma mulher’. E quando eu e os meus colegas dissemos que obviamente que não podia ser, porque eles estavam a transformar uma regra destinada a promover a representação das mulheres numa regra que na realidade limitava a representação das mulheres, ao que eles me responderam, “isto é verdade, mas acrescentaram que mesmo assim é mais do que antes”, o que é revelador na reunião que tivemos. Eles não quiseram alterar essa regra e nós dissemos que, nesse caso, não reconheceríamos, na prática, o resultado daquelas eleições. Na manhã seguinte, a AFC iniciou o congresso e foi cancelado, adiado, acusando o meu comité de interferência com a autonomia democrática da sua confederação. Portanto, isto foi dois meses depois de eu iniciar funções e eu percebi logo naquela altura que iria ter um papel muito difícil, pelo choque com as regras que nós éramos supostos aplicar e que tentámos aplicar até com alguma diplomacia, sobretudo com pedagogia. Eu, por exemplo, pedi ao presidente Infantino – mas ele não quis que eu e o meu comité fizéssemos isso – que tivéssemos a possibilidade de ir visitar as diferentes direções, as diferentes confederações, para explicar as regras. E nós fizemos uma coisa que nunca mais se fez, que foi publicarmos os nossos critérios de interpretação, ou seja, tornámos bem transparentes quais eram as regras que nós estávamos a seguir nos testes de integridade, uma coisa que nunca mais foi feita. Mas, mesmo assim, o conflito com a cultura instalada foi demasiado forte e, portanto, ao fim de 10 meses eu saí.
E como é que essa saída se efetuou? Falou com o Infantino? Chegou a expor a sua lógica?
Depois, quando foi do caso do Vitaly Mutko, o presidente Infantino – isto também está em matéria de conhecimento público, até porque há um relatório feito pelo parlamento britânico e um pelo Conselho da Europa a esse respeito – , tentou, digamos assim, convencer-me a mudar de opinião relativamente a esta decisão e a convencer os meus colegas a mudar de opinião, o que eu naturalmente não aceitei porque a regra não permitia uma decisão contrária. E na sequência disso ele praticamente deixou de comunicar comigo. Cruzámos num congresso de uma confederação da Concacaf, em que eu chefiei a delegação que foi supervisionar essas eleições poucos meses antes do congresso em que depois eu fui retirado de funções. Formalmente fui não reconduzido ao fim de 10 meses, mas na prática afastado de funções, e nessa altura eu disse que tínhamos de falar, até porque vinha o congresso da própria FIFA, ele disse, sim, sim, depois devemos falar, mas depois nunca mais falou.
Eu, logo nessa altura, ponderei demitir-me, porque percebi que ia ser muito difícil desempenhar o meu papel de forma adequada e que provavelmente iria ser afastado na sequência dessa decisão. E falei com pelo menos um colega do Comité de Governança, que me convenceu a ficar, dizendo que achava, por um lado, que devíamos colocar o ónus sobre eles, que se quisessem ser eles a afastar-nos e não nós a sair de forma voluntária. E, em segundo lugar, ele acreditava até que o custo reputacional para a FIFA era tão grande que eles não iriam ter coragem, tão cedo depois dos escândalos de 2015, de afastar o nosso comité, ainda por cima sendo óbvio para toda a gente quais seriam as razões para esse afastamento. Mas, como me disse uma pessoa da FIFA, nessa altura – quando, aliás, me tentaram convencer a alterar a decisão relativa ao vice-primeiro-ministro da Rússia, eu disse que não, e eu disse, mas se quiserem, afastam-nos, mas vão ter um problema de reputação. E essa pessoa da FIFA disse uma coisa que eu nunca me esqueci: “É uma semana de má imprensa e depois a vida continua”. E é a forma como a FIFA funciona, e por isso é que as coisas continuam, e por isso é que Infantino não dá uma conferência de imprensa há três anos, por exemplo. Eles não se interessam com o escrutínio público, porque sabem que ninguém lhes pode fazer nada.
Num recente artigo da New Yorker, no qual o Miguel é citado, um jurista diz que parece haver ali um modelo de governação, há uma comissão de ética independente, uma política de direitos de alto nível, uma assembleia democrática global, mas que, no fim, é tudo vazio. Concorda?
É o Mark Pieth, que é um grande especialista em matéria de legislação e que foi responsável por várias das reformas que foram introduzidas e que, entretanto, vem dizer ele próprio que, infelizmente, elas não funcionam e a opinião dele é até que – e talvez ele saiba mais que eu – que a situação está pior agora ainda até do que antes de 2015. Eu não consigo dizer isso, não tenho observação suficiente. Mas é verdade, isto é, eu costumo dizer, nós olhamos, e nós temos um código de ética lindíssimo, nós temos um conjunto de regras, nós temos o princípio de não-discriminação entre homens e mulheres, nós temos o princípio de que as eleições devem ser livres, íntegras, e, no entanto, por exemplo, quando investigámos e tivemos que criar mais problemas, verificámos que a compra de votos e o controle de votos é enorme.
Para dar um exemplo, uma das coisas que o meu comité fez foi proibir as pessoas, para a sua própria proteção, de levar telemóveis, smartphones, para a cabine de voto, porque é uma das formas mais comuns de controlo de voto, que é obrigá-los a tirar uma fotografia e depois mostrar. Porque é dessa forma que os presidentes controlam que as pessoas. E ninguém se atreve [a contrariar]. Repare que na FIFA não há praticamente vozes contra, a única voz que se ouve um bocadinho crítica é da presidente da federação da Noruega. E, coitada, já teve de diminuir as suas críticas porque foi afastada de vários cargos. Há várias pessoas no mundo do futebol e nas federações que gostavam que fosse diferente.
Mas é possível salvar a FIFA dessa situação?
Não, internamente é impossível.
Teria que vir alguém muito forte de fora?
É assim, Infantino se não tivesse feito aquilo, provavelmente afastavam-no a ele. Se ele não nos tivesse afastado a nós, afastavam-no a ele. E, portanto, eu, desse ponto de vista, até compreendo o ponto de vista da mera sobrevivência política. Eu é que não teria aceite fazer isso.
Infantino aparece sempre em modo performativo, raramente dá conferências de imprensas. Já que lidou com ele durante algum tempo, pergunto como é que ele é como personalidade. Era alguém muito operacional atrás do Michel Platini e de repente chega ao poder.
Era um operacional que eu acho que se tornou fascinado pela importância do cargo. É excessivamente simpático no primeiro contacto, tenta ser muito simpático, muito sedutor, mas de uma forma que transparece como algo artificial. É uma pessoa que partiu de origens muito simples e de repente se vê neste mundo e se acha como uma das personalidades mais importantes do mundo. Ele veio dizer que a FIFA é a única organização que pode promover a paz no mundo, por exemplo.
Há ali uma criação de uma espécie de culto de personalidade?
Repare no seguinte. Em clara violação dos estatutos, a última eleição de Infantino não foi por voto secreto, foi por aclamação, uma coisa típica do regime autocrático, por proclamação, por aplauso. Acho que diz tudo da organização e dos graves problemas que a organização tem. Eu já desisti de qualquer hipótese de que a FIFA se reforme por ela própria, pelas razões que estava a dizer. E eu cada vez mais tenho dito aos seus colegas, incluindo aos colegas estrangeiros, que as perguntas têm de começar a ser colocadas não à FIFA, porque eles não vão dar resposta àquilo que eu digo. Enterram a cabeça na areia, pois a vida continua para eles, eles sabem que a vida continua, estão-se pouco a importar com isso. As perguntas têm de ser colocadas aos responsáveis políticos, como é que permitem que uma organização com estes problemas de governação interna, com estes problemas de integridade, de corrupção, continuar a ter este controle. Não é apenas sobre uma área social tão importante, é sobre mercados económicos. Não há nenhuma outra atividade de mercado em que se aceite que exista uma entidade que seja ao mesmo tempo operador económico e o regulador, e que exerce essas funções sem qualquer tipo de escrutínio, praticamente.
Agora, é assim, é difícil individualmente aos Estados, porque nenhum Estado quer individualmente arriscar-se a que a sua federação seja excluída.
Os líderes políticos nacionais na Europa e os próprios líderes europeus, a presidente da Comissão, têm de assumir uma responsabilidade muito grande de não permitir isto. Não é apenas a circunstância de sabermos que há imenso dinheiro que está ali a ser desviado para outras finalidades. Não é o chocante do comportamento desta organização. É que isto tem consequências muito grandes do ponto de vista económico
Então quem pode agir?
Há uma entidade que tem demonstrado já, sobretudo através do Tribunal de Justiça, que tem poder e capacidade de poder para fazer esse papel, que é a União Europeia. Tem a ter a vontade política para o fazer. Eu acho que os líderes políticos nacionais na Europa e os próprios líderes europeus, a presidente da Comissão, têm de assumir uma responsabilidade muito grande de não permitir isto. É que, repare, não é apenas a circunstância de sabermos que há imenso dinheiro que está ali a ser desviado para outras finalidades. Não é o chocante do comportamento desta organização. É que isto tem consequências muito grandes do ponto de vista económico. Desde logo, relativamente a mercados, que a própria União Europeia já disse num estudo que representavam mais de 3% do PIB da Europa, mas também, por exemplo, de outras matérias. Os relatórios da própria Comissão Europeia e do Parlamento Europeu dizem que o futebol é uma das atividades com maior evasão fiscal, que o futebol é uma das atividades mais suscetíveis a branqueamento de capitais. As organizações, os clubes de futebol, enquanto empresas, estavam excluídos do regime de branqueamento de capitais, da diretiva de branqueamento de capitais. Portanto, quer dizer, nós sabemos como é que o sistema de transferências de futebol é utilizado, por exemplo, para o branqueamento de capitais. A FIFA prometeu há muitos anos que ia fazer uma clearing house, precisamente, para limitar isso. Não o fez. Fez-o uma coisinha muito pequenininha, que é só para as compensações pela formação dos jogadores, sob pressão do Conselho da Europa.
Estamos a falar aqui do papel que Infantino representa, que é do interesse de alguns Estados. Mas qual é o papel das grandes corporações que usam este veículo para promoção? Temos a Coca-Cola, a Aramco, os gigantes multinacionais que metem cada vez mais dinheiro nisto.
Em 2015, com o escândalo que ocorreu nessa altura, com as investigações feitas pelo Departamento de Justiça norte-americano contra vários responsáveis da FIFA e a detenção de várias dessas pessoas, a associação ao futebol tornou-se complicada para alguns desses patrocinadores e, portanto, eles foram os principais promotores dessa dita reforma de 2015. Eu julguei que poderia funcionar nessa altura porque a pressão era muito grande, pública, e porque os próprios patrocinadores colocaram pressão. Uma das condições que eu impus para aceitar as funções era saber quem eram os outros membros, ou poder ter uma voz relativamente aos outros membros do meu comité, para garantir que eram pessoas em que tinha confiança. E eu lembro-me, nessa altura, soube, por exemplo, que alguns nomes foram sugeridos por patrocinadores, nome como Navi Pillay, ex-Alta Comissária da ONU para os direitos humanos, pessoas com credibilidade, e eram esses patrocinadores que estavam por trás.
Entretanto, o que é que aconteceu?
Com a passagem do tempo, a pressão pública diminuiu e, portanto, naturalmente, os patrocinadores deixaram de colocar pressão porque a associação à FIFA já não tem, assim, a mesma conotação negativa que tinha em 2015. Ao mesmo tempo, tem acontecido outra coisa, que é a origem de boa parte desses patrocínios cada vez mais vem de países cujas empresas de regimes autocráticos ou petrodólares em que muitas vezes a associação de financiamento da FIFA é resultado não de uma decisão empresarial mas de uma decisão política de usar o futebol como instrumento de promoção política e de reforço do capital político desses regimes. E, portanto, a FIFA encontrou fontes de financiamento alternativas que são menos problemáticas para a FIFA do ponto de vista do escrutínio do seu comportamento em termos de integridade. E nós temos estado a ver isso, quer ao nível dos patrocínios quer ao nível dos países de acolhimento das competições, um desvio para regimes que normalmente não são democráticos, e não sendo democráticos, implicam menos escrutínio, menos dores de cabeça, facilitam muito mais o controlo que a FIFA quer ter sobre os seus eventos.
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“Este Mundial confirma que a prioridade da FIFA é avolumar receitas”
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