Com cerca de 30 colaboradores, desde o início do ano a Neuraspace chegou a Munique, passando a ter representação em Portugal, Luxemburgo e Alemanha. A CEO Chiara Manfletti fala dos planos futuros.
Parte dos 15,6 milhões de euros que acabaram de ser levantados pela Neuraspace já têm um destino. Os mais de 9 milhões de euros obtidos via Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) serão aplicados num radar, reforçando a rede de sensores de dados da companhia que faz a monitorização do que orbita no espaço.
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E, para isso, a empresa está a conversar com a Força Aérea Portuguesa para encontrar uma base aérea onde o radar possa ser instalado. “Estamos a manter conversações com a Força Aérea Portuguesa para avaliar se uma das suas bases aéreas poderá ser um local adequado para a instalação do radar. Mais do que uma negociação, trata-se de discutir a melhor forma de tornar esse projeto possível, uma vez que traria benefícios para ambas as partes. Ainda não lhe posso dizer onde será instalado, porque as conversações ainda estão em curso”, revela Chiara Manfletti, CEO da Neuraspace, ao ECO/eRadar. “A nossa intenção é instalar o radar nos Açores, mas teremos de esperar para ver se, no final, será essa a localização escolhida“, admite.
A empresa, que no ano passado foi uma das escolhidas — em mais de 100 candidatas de toda a Europa — a integrar o NATO DIANA admite que participar no acelerador trouxe benefícios. “Graças a essa participação, creio que a Neuraspace se tornou mais conhecida entre diferentes entidades da defesa em toda a Europa. Aliás, já assinámos um contrato com uma dessas entidades. O anúncio será feito apenas em setembro, pelo que, nesta fase, não posso adiantar mais pormenores”, refere.
Com cerca de 30 colaboradores, desde o início do ano a empresa estendeu a sua pegada a Munique, onde abriu uma delegação, passando a ter representação em Portugal, Luxemburgo e Alemanha. Chiara Manfletti, que reside no país, tem planos para este mercado. “Existe um forte potencial para reforçar a parceria entre a Alemanha e Portugal no domínio espacial. Aliás, um dos meus objetivos é precisamente aproximar estes dois países nesta área.”
A Neuraspace levantou 15,6 milhões de euros para expandir as suas soluções comerciais e de defesa. Dado o atual foco europeu na Defesa será esse o vosso principal foco em termos de expansão?
Na minha perspetiva, que é também a perspetiva do conselho de administração, é importante que a empresa tenha tanto uma visão comercial como um pilar governamental. Por isso, continuamos empenhados em responder às necessidades tanto do segmento comercial como dos segmentos civil e da defesa. Naturalmente, tudo depende da situação geopolítica e, no contexto atual, que está longe de ser simples, foi anunciado um aumento da despesa com a defesa nos próximos anos em toda a Europa. Estou, por isso, convicta de que este segmento registará um crescimento mais acentuado do que no passado.
No entanto, para a empresa continua a ser muito importante atuar nos três segmentos — comercial, civil e defesa. Não estamos a alterar o nosso posicionamento. Não queremos abdicar do segmento comercial. Não se trata, de todo, de uma mudança de estratégia.
Estudos recentes apontam que a defesa impulsionou o crescimento do setor espacial. Quando olha para os três pilares qual aquele que antecipa será o maior motor de crescimento da empresa?
Penso que os três segmentos continuarão a ser importantes, embora de formas diferentes. Naturalmente, se analisarmos os anúncios mais recentes de investimento, é provável que as despesas com a defesa sejam, neste momento, significativamente mais elevadas. No entanto, sabemos também que o investimento em defesa tende a ser cíclico. Mas, se olharmos para esta questão de uma perspetiva diferente, que não se limita aos montantes investidos, mas também à dinâmica da inovação, então o segmento comercial continuará a desempenhar um papel importante. Por isso, diria que tudo depende da perspetiva adotada.
Se analisarmos apenas os números, concordo consigo que, no curto prazo, a defesa será provavelmente o principal motor da evolução do setor espacial, em particular da dinâmica da defesa no espaço. Ainda assim, os diferentes segmentos devem manter-se próximos entre si, porque têm dinâmicas distintas e podem beneficiar muito da partilha de conhecimento e da transferência de inovação entre eles. Creio que essa é, precisamente, uma das principais forças da Neuraspace e não queremos abdicar dessa vantagem.
O passo seguinte, que faz parte da componente financiada pelo PRR anunciada no âmbito desta ronda de financiamento, será dedicado à instalação de um radar. Nesse contexto, estou, de facto, em conversações com a Força Aérea Portuguesa para avaliar a possibilidade de instalar esse radar, novamente em parceria com a instituição, numa base aérea.
Tem uma parceria com a Força Aérea Nacional em torno do vosso telescópio ótico em Beja.
Sim, temos um memorando de entendimento (MoU) em vigor e, no âmbito desse memorando, um dos nossos telescópios está instalado na Base Aérea de Beja.
Há planos para expandir a atual rede de telescópios? Com que parceiros?
Deixe-me começar por enquadrar, de forma breve, a nossa estratégia de dados, porque penso que isso ajuda a compreender melhor a resposta. A Neuraspace não está focada numa única fonte de dados. Neste momento, dispomos de dois telescópios óticos. Investimos nesses equipamentos porque queríamos acelerar o acesso da empresa aos dados e, ao mesmo tempo, garantir aos nossos clientes acesso privilegiado a dados próprios.
No entanto, não acreditamos numa estratégia assente numa única fonte de dados. Por isso, integramos dados provenientes de diferentes origens, quer sejam dados óticos — recolhidos pelos nossos telescópios ou por parceiros —, dados de radar fornecidos por parceiros, dados de GNSS (Sistemas Globais de Navegação por Satélite), incluindo sinais do Galileo e do GPS recebidos pelos satélites, bem como outras fontes de informação.
Os dois telescópios devem ser entendidos neste contexto: o de garantir um acesso rápido aos dados, mantendo simultaneamente uma estratégia baseada em múltiplas fontes de dados. E essa continuará a ser a nossa estratégia no futuro.
O passo seguinte, que faz parte da componente financiada pelo PRR anunciada no âmbito desta ronda de financiamento, será dedicado à instalação de um radar. Nesse contexto, estou, de facto, em conversações com a Força Aérea Portuguesa para avaliar a possibilidade de instalar esse radar, novamente em parceria com a instituição, numa base aérea.
Estamos, assim, a aplicar um modelo que já demonstrou funcionar bem com um tipo diferente de sensor e que será complementar aos sensores óticos. Estes sensores dar-nos-ão maior flexibilidade de escolha. Se olharmos, por exemplo, para os dados de Observação da Terra, verificamos que, no passado, eram muito dispendiosos. Com o aumento do número de operadores que colocaram satélites em órbita, os dados de observação da Terra tornaram-se mais acessíveis e significativamente menos caros.
Um dos aspetos que acompanhamos de perto é a forma como o mercado de dados irá evoluir no futuro, garantindo à empresa diferentes opções à medida que cresce, para que possa adaptar-se com flexibilidade à evolução do mercado.
Referiu que querem estender a parceria com a Força Aérea aos radares. Em setembro passado falava de querer colocar um radar nos Açores.
Sim, esperamos que seja nos Açores.
E como estão a decorrer as negociações com a Força Aérea?
Não lhe chamaria negociações. Estamos a manter conversações com a Força Aérea Portuguesa para avaliar se uma das suas bases aéreas poderá ser um local adequado para a instalação do radar. Mais do que uma negociação, trata-se de discutir a melhor forma de tornar esse projeto possível, uma vez que traria benefícios para ambas as partes. Ainda não lhe posso dizer onde será instalado, porque as conversações ainda estão em curso.
Os Açores poderão ser a localização, mas poderá também ser outra. É o que está a dizer?
O que estou a dizer é que nada está decidido até estar efetivamente decidido. A nossa intenção é instalar o radar nos Açores, mas teremos de esperar para ver se, no final, será essa a localização escolhida.
O investimento no equipamento será da Neuraspace? Será um coinvestimento com a Força Aérea?
Será semelhante ao que aconteceu em Beja. O telescópio foi adquirido pela Neuraspace, com financiamento do PRR. O que a Força Aérea Portuguesa fez foi ajudar-nos a identificar um local adequado na Base Aérea de Beja para instalar o telescópio e apoiar a preparação do terreno.
Se considerarmos o contributo em termos de recursos humanos, nomeadamente na preparação do local, então poder-se-á dizer que foi uma forma de coinvestimento. No entanto, a Força Aérea não irá investir diretamente no equipamento de radar. Esse será integralmente propriedade da Neuraspace e o investimento será assegurado a 100% pela empresa.
O (acelerador) DIANA permite-nos ganhar visibilidade junto do ecossistema da NATO. Graças a essa participação, creio que a Neuraspace se tornou mais conhecida entre diferentes entidades da defesa em toda a Europa. Aliás, já assinámos um contrato com uma dessas entidades. O anúncio será feito apenas em setembro, pelo que, nesta fase, não posso adiantar mais pormenores.
Além de colaborar com a Força Aérea Portuguesa, participam no projeto Emissary, um consórcio liderado pela Leonardo, financiado pelo Fundo Europeu de Defesa, integram o acelerador de inovação da NATO, o DIANA. Essa experiência traduziu-se em novas oportunidades de negócio neste setor?
O Projeto Emissary já representa, por si só, uma grande conquista. É o maior projeto de conhecimento da situação espacial (Space Situational Awareness – SSA) alguma vez financiado na Europa através do Fundo Europeu de Defesa [projeto tem um orçamento global de cerca de 158 milhões de euros]. A Neuraspace integra este projeto e não apenas como mais um participante. É responsável pelo desenvolvimento de uma das componentes de software mais importantes do programa.
O objetivo do Emissary é criar uma imagem operacional comum para os Estados-Membros participantes na área da defesa, permitindo acompanhar os objetos em órbita e a atividade que aí decorre. A ambição é que, no futuro, os Estados-Membros disponham de uma única fonte de informação fiável sobre o que está em órbita e sobre quem está a fazer o quê no espaço.
O contributo da Neuraspace consiste no desenvolvimento da base de dados central e dos mecanismos de intercâmbio de informação que irão suportar a gestão, atualização e partilha desses dados. Esta solução será posteriormente disponibilizada aos diferentes Estados-Membros participantes. Na prática, estamos a desenvolver este produto em conjunto com outras empresas europeias de referência, entre as quais a Leonardo, mas não só. Para mim, isso já constitui uma grande vitória para a Neuraspace, por desempenhar um papel tão relevante num projeto que será um elemento central das futuras capacidades europeias de defesa no domínio espacial.
O setor da defesa consegue investir em equipamentos e infraestruturas, mas continua a ser mais difícil que as entidades de defesa passem a adquirir os serviços disponibilizados pela indústria. Esse é um passo que ainda falta consolidar.
Relativamente ao DIANA da NATO, ficámos, naturalmente, muito satisfeitos por termos sido selecionados para integrar o programa. Consideramos que essa seleção é, por si só, um reconhecimento muito importante. Ao mesmo tempo, o DIANA permite-nos ganhar visibilidade junto do ecossistema da NATO. Graças a essa participação, creio que a Neuraspace se tornou mais conhecida entre diferentes entidades da defesa em toda a Europa. Aliás, já assinámos um contrato com uma dessas entidades. O anúncio será feito apenas em setembro, pelo que, nesta fase, não posso adiantar mais pormenores. Em suma, esta participação já se traduziu em contratos para a empresa e acredito que também nos ajudará a acelerar o nosso crescimento neste domínio.
Esse impacto resulta não apenas da maior visibilidade que o programa nos proporciona, mas também da oportunidade de dialogar diretamente com os utilizadores finais da área da defesa, compreender quais são as suas necessidades e identificar as lacunas que, na sua perspetiva, ainda existem nas capacidades de defesa europeias.
Portugal está a implementar a sua estratégia de defesa, a lançar constelações de satélites, como a do Atlântico, envolvendo parceiros civis e de defesa. Os investimentos a serem feitos também criam oportunidades para uma empresa com o vosso perfil?
Estamos em contacto, mantemos conversações e temos mesmo relações contratuais, por exemplo, com a Geosat, uma das empresas que integra a constelação [Atlântico]. O mesmo acontece com a LusoSpace, que também está envolvida em muitas das iniciativas que estão a decorrer nesta área. Portanto, sim. No entanto, há um aspeto importante que importa salientar. A pergunta é sobre Portugal, mas permita-me alargar um pouco a perspetiva, porque esta questão também diz respeito ao contexto europeu.
Acredito que existe um forte potencial para reforçar a parceria entre a Alemanha e Portugal no domínio espacial. Aliás, um dos meus objetivos é precisamente aproximar estes dois países nesta área.
Um dos desafios que empresas como a Neuraspace — mas não só — enfrentam é que, para além de investirmos no desenvolvimento de tecnologias, precisamos também de contribuir para a criação de um verdadeiro mercado europeu de serviços espaciais. É precisamente aí que a Europa ainda revela fragilidades. É também um domínio em que Portugal pode reforçar a sua posição. Atualmente, o setor da defesa consegue investir em equipamentos e infraestruturas, mas continua a ser mais difícil que as entidades de defesa passem a adquirir os serviços disponibilizados pela indústria. Esse é um passo que ainda falta consolidar. Aquilo que precisamos de fazer, de uma forma geral na Europa, é desenvolver o mercado dos serviços e dos dados que a indústria pode disponibilizar. Desenvolver tecnologia é importante, mas não é suficiente.
Depois de abrir uma filial em Luxemburgo, em setembro do ano passado admitiam expandir para novas localizações. Como está esse processo?
Abrimos um escritório em Munique. Desde o início deste ano, a Neuraspace passou também a estar estabelecida naquela cidade. A empresa tem sede em Portugal, dispõe de um escritório no Luxemburgo e abriu igualmente uma delegação na Alemanha, em Munique. A nossa intenção é continuar a crescer a partir destes três mercados.
Muitos países estão a aumentar as suas despesas com a defesa numa lógica essencialmente nacional. Não se trata, necessariamente, de um reforço do investimento europeu em defesa, e essa será uma questão importante a acompanhar nos próximos anos. Espero sinceramente que a Europa consiga também reforçar a sua cooperação no domínio da defesa.
A Alemanha está a investir fortemente.
A Alemanha é importante por várias razões. Desde logo, porque representa um mercado de grande dimensão para o setor espacial e tem ambições significativas nesta área. Além disso, eu estou na Alemanha, pelo que faria pouco sentido não aproveitar essas ligações para impulsionar o crescimento da empresa.
Mas, acima de tudo, o mercado alemão é um mercado estratégico. Acredito que existe um forte potencial para reforçar a parceria entre a Alemanha e Portugal no domínio espacial. Aliás, um dos meus objetivos é precisamente aproximar estes dois países nesta área.
No entanto, muitos países estão a aumentar as suas despesas com a defesa numa lógica essencialmente nacional. Não se trata, necessariamente, de um reforço do investimento europeu em defesa, e essa será uma questão importante a acompanhar nos próximos anos. Espero sinceramente que a Europa consiga também reforçar a sua cooperação no domínio da defesa, porque é fundamental que os países europeus permaneçam unidos.
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