Carlos Ribas quer que o gigante dos data centers esteja entre as empresas que mais faturam no país. Num momento de consolidação das aquisições, expectativa é chegar aos 2.000 colaboradores até 2027.

À frente da operação portuguesa do CTS Group, um dos maiores grupos europeus no desenho e construção de data centers na Europa, que chegou a Portugal no ano passado, Carlos Ribas ambiciona tornar a empresa a “referência” nos data centers em Portugal, identificando grande potencial de crescimento no país. Em entrevista ao ECO, o antigo líder da Bosch Portugal afirma que quer que a CTS seja “uma das empresas que mais fatura em Portugal no futuro” e alcançar uma faturação de mil milhões de euros.
Com mais de 600 colaboradores atualmente, o grupo espera chegar aos 2.000 no próximo ano, “o mais tardar no seguinte”. O líder da gigante de data centers admite que tem na calha dois ou três centros de data centers em Portugal, mas os detalhes ficam, para já, no segredo dos Deuses: “São os clientes que têm de dizer”.
Com 11 empresas em Portugal, focadas no design, desenvolvimento, construção e manutenção de data centers, a CTS tem atualmente no país a maior força de trabalho e o “maior ponto de investimento”.
O gestor afasta uma crise no setor, argumentando que o investimento em data centers vai mesmo ter de existir. Quanto à Europa, “já perdeu a corrida” para a China e para os EUA. “A China e os Estados Unidos trabalharam a inteligência artificial e hoje a comunidade europeia não é uma entidade soberana de dados”.
O Grupo CTS anunciou recentemente um plano de crescimento ambicioso para Portugal. O país é estratégico para o grupo?
O grupo CTS apostou em colocar a sua grande força de trabalho de desenvolvimento de data centers e de execução de data centers em Portugal. Isso está a fazer com que, a pouco e pouco, Portugal seja para a CTS o maior local e o maior ponto de investimento da CTS no curto prazo. Obviamente que há projetos para investir em muitos outros sítios, em todo o mundo, mas neste momento o foco tem estado a ser em Portugal.
A estratégia da CTS passou por vir para Portugal e a criação de outras empresas e parcerias com outras empresas. Portanto, a CTS, neste momento, está numa altura de consolidação, integrar todas as entidades que possui no país, de forma a criar aquilo que nós queremos que seja a melhor organização do mundo.
Em que fase está essa consolidação?
Estamos no bom caminho. Temos equipas fantásticas, colaboradores fantásticos, alguns elementos da gestão são absolutamente visionários e estamos no bom caminho para esta estratégia de crescimento.
Temos a particularidade de ter toda a cadeia de valores dos data centers aqui em Portugal: fazemos a parte do projeto, a parte da execução, a parte do testemunho. Todas as competências da cadeia de valores estão cá em Portugal. O que é uma grande vantagem. Mais ninguém tem isso em Portugal, subcontratam várias competências, outras entidades.
Isso dá agilização de projetos muito grandes comparativamente aos nossos concorrentes e obviamente ajuda a que a CTS esteja a conseguir alguns projetos interessantes, maioritariamente dos países nórdicos ainda. Por razões climáticas os países nórdicos sempre foram uma base muito sólida para o data center.
Mas com a digitalização, com a inteligência artificial, com a necessidade de cálculo que é necessária, o data center tem de ser espalhado pelo mundo todo, e vemos Portugal como uma forte possibilidade de ser um dos centros para os data centers. E está previsto que vários data centers venham a ser instalados – até porque temos uma outra vantagem muito grande, que é a quantidade de cabos submarinos de fibra ótica que aterram em Portugal, em Sines.
Têm em Sines uma das grandes apostas do grupo no país. Porquê?
Sines, já hoje, é um polo ministerial bastante importante. Pelo facto de grande parte dos cabos submarinos de fibra ótica de terra estarem a aterrar em Sines é um local ideal para serem centralizados os data centers.
Tenho o mar ali ao lado, um porto de águas profundas, os cabos a desaguar e, obviamente, é o sítio provavelmente em Portugal onde melhor se enquadra a colocação de data centers, que por norma necessitam de algumas tecnologias particulares, não necessárias em outras áreas. Sines tem o ambiente geográfico que proporciona essas condições.
O objetivo é saltar para outras geografias a partir de Sines?
É vontade e é uma ambição da CTS estabelecer também centros de desenvolvimento e instalação de data centers, quer na Ásia, na Índia, na Arábia Saudita e também estamos a ver a possibilidade de América Latina e, mais tarde, África.
Isso passa tudo pela estratégia que temos hoje em vista e que em breve irá começar a ser implementada também, mas com a particularidade de todo o apoio para essas agências ser feito a partir de Portugal. Não queremos fazer aqui tudo, queremos sim que a competência, o saber e a liderança desses projetos seja a partir de Portugal.
Portugal vai assumir uma posição estratégica para o crescimento do grupo?
Só depende de nós e queremos muito que isso aconteça.
O país tem todas as condições para ser um hub estratégico para a indústria de data centers?
Sim. Falamos em Sines, foi anunciado recentemente, pela StartCamp e pela EndScale, que Portugal será o primeiro país europeu a receber os processadores Nvidia RGB300. Serão destinados 12.600 unidades para o projeto de inteligência artificial da Microsoft, em Sines.
Isso mostra o quanto os players deste mercado querem apostar no nosso país e naquela zona de Sines.
Disse que Portugal, neste momento, é a geografia que está a receber mais investimento por parte do grupo. Quais são os investimentos que têm previstos para o país neste momento?
Das empresas que foram adquiridas em Portugal, algumas delas têm de ser escaladas até para depois mais tarde fazerem a transferência para os outros países onde nós também queremos implementar, onde iremos ter várias fábricas dentro daquele complexo [de Viana do Castelo]. Portanto, é um investimento muito forte que estamos aqui a fazer na Zona Norte.
Teremos a fábrica pronta para começar a laborar por volta do fim do primeiro trimestre do próximo ano. Iremos ter ali cerca de 500 pessoas com variadíssimas competências, um espetro de competências bastante diverso e para vir a faturar um valor considerável, vir a ser uma das empresas que mais fatura em Portugal no futuro.
Qual é o valor de faturação em Portugal, neste momento?
Sabemos que as empresas em Portugal, tirando a Autoeuropa, andaram um ponto, qualquer coisa, mil milhões. Esperamos também chegar a esses valores, mais ou menos.
Espera alcançar uma faturação de mil milhões, em Portugal?
Por aí.
Quando?
Vai depender muito da aquisição dos projetos que estamos neste momento a cotar e as datas de início dos data centers. Quando se começa um projeto, é para acabar no dia seguinte. Quando se decide quando é que começa o projeto, isso demora mais um bocadinho. Demora mais um bocadinho a decisão do projeto e depois a executá-lo. Depende muito dos nossos clientes.
Mas estamos a falar de dois ou três anos…
Eu queria acreditar que sim, mas é muito variável.
Além dos 50 milhões para a construção da nova fábrica de Viana, com a Eaton, que outros investimentos já fizeram no país?
Há esse investimento muito grande, físico, em Viana do Castelo e depois há os outros em crescimento de recursos humanos. Esperamos que [o investimento] venha a crescer muito mais num futuro mais ou menos próximo. Dar-lhe um valor exato, não temos neste momento porque podia estar errado.
Pode surgir um investimento de um dia para o outro e na semana seguinte temos de começar a meter lá as pessoas que quer a infraestrutura. Isso por um ano, dois anos, vai ser muito, muito volátil.
Se aparecer um bom negócio, tem carta branca da empresa para fechar?
Sim, sem dúvida. Se aparecer um bom negócio, nós fazemos.
Está disponível para continuar a fazer aquisições?
Sim, sim. Estamos a cotar muitos projetos e queremos adquirir rapidamente.
Quantas pessoas é que a empresa tem atualmente?
De Norte a Sul do país, devemos andar nos 600, 600 e pouco.
Tinham referido há pouco tempo que queriam chegar às 2 mil pessoas. Quando?
São projetos atingir os 2.000 colaboradores. Se for um grande projeto, rapidamente teria necessidade de mais de 1.000 pessoas, independentemente de onde quer que ele seja.
Mas quando estimam fechar esses projetos para chegar a estes 2.000 colaboradores?
Gostaria que fosse no próximo ano, mais tardar no seguinte. Gostaria de fazer isso. Mais uma vez, os clientes é que decidem.
Disse que quer chegar aos mil milhões de faturação. Quanto faturam atualmente?
Isso não sei dizer. Neste momento, o trabalho é todo faturado fora. Aqui em Portugal não temos ainda nenhum cliente para faturarmos.
Podemos dizer quase que este ano que é o ano zero para a CTS em Portugal?
Sim, até agora foi aquisições, consolidação das várias entidades que fomos adquirindo, que fomos tornando parceiros, portanto, nem tudo é 100% CTS. Temos muita coisa, normalmente a CTS é sempre maioritária nas empresas que tem em Portugal, mas não é tudo 100% de CTS em vários casos.
Porque têm privilegiado este modelo de parcerias, como fizeram em Sines com a Mecwide e em Viana com a Eaton?
Se temos um acompanhamento muito forte numa área de eletricidade, de transformador, faz todo sentido que o nosso parceiro seja alguém que o faça também, porque vamos ser mais competitivos se estiver a trabalhar connosco no mesmo sítio, na mesma fábrica, a projetar para aquilo que nós precisamos, do que ir ao mercado comprar.
E a estratégia é essa: fornecedores mais importantes, criar parcerias. Para que eles se responsabilizem também pelo negócio que nós queremos. A parceria é isso mesmo. Os dois a trabalhar para o benefício do negócio e saímos todos a negociar.
Qual espera que seja o peso de Portugal em termos de faturação no grupo? Portugal pode ter um peso relevante?
Já tem. A quantidade de empresas que temos e que estamos a trabalhar para fora. O que produzimos aqui hoje é para mandar para o país estrangeiro, mas todas estas empresas que constituem o grupo, o trabalho que fazem é para o exterior neste momento.
Tirando a parte de desenvolvimento, há um processo, temos esta parte de continuamento, estamos na parte da inovação e da criatividade, que isso é feito pelas nossas equipas aqui em Portugal. Isso não vai para fora, irá mais tarde, quando o conceito estiver definido. Tirando isso, o que fazemos é para fora.
Não sei quantificar, mas temos um peso [no grupo], porque o país que mais pessoas tem a trabalhar para a CTS neste momento é Portugal. Chegando às 2 mil pessoas, vai haver mais pessoas a trabalhar em Portugal que todos juntos.
Tem prevista a criação de algum centro de data centers a curto prazo em Portugal?
Estamos a lutar muito por dois ou três, a ser preparados.
Quando poderá haver novidades nessa área?
O cliente tem de dizer. Tudo o que posso dizer não é fiável.
E em termos de perspetivas para este setor, identifica potencial para continuar a crescer?
É um setor que os estudantes não se aperceberam muito bem do que é este mundo dos data centers. Nós pensamos que o que se passa numa televisão, num telemóvel, que se passa ali, mas não passa. Quando estamos a ver no streaming, é uma coisa que está acontecendo num data center em tempo real.
Não está a acontecer no telemóvel. Facebook, TikTok, todas as plataformas, acontecem nos data centers. São centros de grande capacidade de armazenamento e tratamento de dados. Essa infraestrutura é super importante. Uma coisa que levaria uma semana a fazer ou um ano, vamos a uma inteligência artificial e ao fim de poucos minutos temos aquilo que queremos.
Mas isso não está a acontecer no computador. Isso só é tão rápido, só acontece porque estão a ser feitos nos data centers. As pessoas não têm essa noção. Estamos muito, muito dependentes deles.

E com a inteligência artificial e com as novas formas de cálculo que estão a aplicar, que estão a chegar de muito mais potência do que aquilo que temos hoje, em que o cálculo vai ser muitíssimo mais rápido. Na computação quântica, aí então vai ser a multiplicar exponencialmente.
Algo que nós, por exemplo, demoramos uma ou duas pessoas a fazer durante 3, 4 anos, a inteligência artificial coloca-lhe 10 mil vezes mais dados e calcula-lhe em minutos. Isso acontece nos data centers, nos centros de dados. Está aqui um momento transformador que vai puxar para o próprio setor. Ainda estamos numa fase embrionária, ainda só está a começar com todas as vantagens e desvantagens que esta digitalização nos traz.
E há alguns players no mercado de processadores, microprocessadores, que neste momento investem tudo o que têm, porque sabem que este é um mercado que a expansão vai ser gigantesca no futuro. E a tecnologia vai também mudar muito.
A questão tecnológica tem suscitado aqui quase uma guerra entre Estados Unidos, China, com a Europa aqui a ficar no meio. A Europa precisa de uma energia renovada para não ficar para trás nesta corrida?
A Europa está agora a fazer isso, mas já perdeu a corrida. Investimos muitos anos a regulamentar, criar a regulamentação para a inteligência artificial. A China e os Estados Unidos trabalharam a inteligência artificial e hoje a comunidade europeia não é uma entidade soberana de dados.
Os dados da Europa ou estão em sistemas e processos dos Estados Unidos, ou então da China. Daí esses investimentos maciços que se fala agora, tanto dos milhares de milhões de euros que começaram a ser investidos para ver se ganhamos um pouco de soberania de dados. A informação de dados hoje é tudo. Os data centers são fundamentais.

E como é que entra aqui a questão da sustentabilidade, uma vez que são grandes consumidores de energia?
Comparativamente com aquilo que dão, se calhar o rácio não é assim tão mau. Se calhar até são eficientes e económicos. Agora, é óbvio que onde estão instalados os edifícios, os servidores, os microprocessadores que estão naqueles edifícios, são consumidores gigantescos. O arrefecimento normalmente é feito por fluidos, água. Nós aqui temos o mar e temos os rios que podem ajudar a fazer a parte do arrefecimento dos servidores.
Outra alternativa é a energia verde. Não faz sentido estar a criar centrais de carvão ou o que é que seja para alimentar esse centro. Tem de ser através de eólicas, de energia verde. Nós também temos no grupo CTS uma das entidades que instala eólicas e também painéis solares.
Temos dentro do grupo. Fazemos a parte onde vai ser consumida muita energia – mais uma vez, proporcionalmente ao que lá sai com o consumo se calhar até bastante compensador, é bastante eficiente –, mas como são grandes consumidores de energia, a CTS também faz a inserção das eólicas e das estelares. Já tem essa cadeia de valor toda.
Em termos de enquadramento regulatório, como é que olham para o enquadramento regulatório em Portugal?
Portugal está a fazer bem. Está a seguir as diretivas da Comunidade, participa na discussão da Comunidade Europeia e segue as diretivas da Comunidade Europeia. Mais uma vez, a Europa está bastante atrás, embora, mais uma vez, com grandes projetos de investimento para recuperar atrasos.

Em termos de país, tiveram apoios para investir em Portugal?
Nós reconhecemos e valorizamos aquilo o que o Governo português está a fazer para incentivar e atrair investimento para Portugal, mas nós pautamos muito por uma gestão autónoma e independente. Obviamente estamos atentos aos anúncios que vão sair nos portais para ver onde é que conseguimos tirar alguns benefícios.
Neste momento, não estamos a ter grandes benefícios. Esperamos ter no futuro. Estamos nesta fase de consolidação, de integração das empresas, de consolidação do grupo em Portugal, mas estamos atentos aos anúncios.
Recentemente foi apresentado o OE, como vê as propostas do Governo?
Somos uma empresa totalmente apartidária. Trabalhámos como pessoas, não trabalhámos como partidos. Já tivemos muito sucesso a trabalhar com comunistas, socialistas, e queremos que continue a ser assim. Para nós a importância são as pessoas.
A economia enfrenta aqui um ambiente de grande incerteza. Como olha para esta conjuntura, marcada por tarifas, tensões geopolíticas?
Como a tecnologia e a necessidade não param, vão mesmo ter de avançar. E vão avançar em vários pontos do mundo. Nesta área dos data centers, não prevejo que haja uma crise, porque isto é necessário. O mundo não passa sem isto, isto é mesmo necessário. Acho que não é difícil arranjar financiamento neste momento para investir em data center.
E a parte geoestratégica?
Essa aí acho que ninguém controla. Se acontece alguma coisa na Rússia, nos Estados Unidos ou na China, o mundo é todo afetado.
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Ex-CEO da Bosch à frente da CTS tem como objetivo faturar 1.000 milhões em Portugal
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