Com europeus na corrida à substituição dos F-16, Rob Weitzman, da Lockheed Martin, frisa ligação à indústria europeia e afasta receios que compra dos F-35 colocaria nas mãos da FAP uma caixa negra.
Se Portugal comprar caças F-35 não está a comprar uma caixa negra. E eventuais problemas de atualização de software são partilhados por todos os países do programa, garante Rob Weitzman, diretor de International Business Development dos F-35 e o responsável da campanha para a venda dos caças da Lockheed Martin em Portugal.
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O processo de substituição dos F-16 da Força Aérea Portuguesa (FAP) ainda não arrancou, nem está nada ainda decidido garante Nuno Melo, ministro da Defesa, depois de um relatório interno das FAP apontar os caças F-35, de 5.ª geração da empresa norte-americana, como preferenciais. Isto num momento em que o atual contexto geopolítico — tendo como pano de fundo as crescentes relações tensas entre a Europa e os EUA — se combina com uma mensagem clara de Bruxelas: há que comprar equipamento made in Europa para criar soberania de defesa.
Rob Weitzman responde: “Mais de 25% do valor de cada F-35 que sai da linha de produção é, na verdade, proveniente de componentes fabricados na Europa. Portanto, existe essa meia verdade não totalmente comprovada de que se trata de um produto americano. É um produto global em que a Europa desempenha um papel vital na construção, fabricação e também na manutenção”, atira o responsável da Lockheed Martin, em conversa com o ECO/eRadar no Estoril, durante a sua participação no AED Days, encontro organizado em maio pela associação do cluster de empresas de defesa, aeronáutica e espaço.
Com concorrentes europeus na corrida — o consórcio Eurofighter e a Saab com os Gripen —, Weitzman frisa essa ligação à indústria europeia e afasta receios de que a compra dos F-35 colocaria nas mãos das FAP uma ‘caixa negra’ tecnológica fora do seu controlo, o apelidado ‘kill switch‘.
“O F-35 possui um programa de modernização robusto, que justifica a compra desta plataforma de quinta geração. É como o iPhone que tem agora em mãos. Conforme o software é melhorado ou se ocorre alguma falha ou problema no programa, todos os utilizadores recebem as atualizações. Todos os utilizadores têm a oportunidade de contribuir com sugestões”, argumenta.
Assinaram um MoU com a ETI, empresa de defesa portuguesa que atua em simuladores táticos e de voo, bem como soluções de manutenção para o setor aeroespacial. É o primeiro de muitos?
Na verdade, estamos a consolidar uma relação de mais de 50 anos com a indústria portuguesa. Assim, este memorando de entendimento é apenas a continuação da parceria que a Lockheed Martin mantém com as empresas portuguesas. Haverá outras oportunidades no futuro, à medida que o processo de aquisição de equipamentos militares estrangeiros por parte do governo, esperemos, avance. Estamos a preparar-nos para interagir com a indústria portuguesa. Portanto, este memorando de entendimento com a ETI é apenas o começo do processo.
Referiu a relação de mais de 50 anos com Portugal. A Força Aérea voa com F-16. Além desta empresa, com quem assinaram este MoU, com que outras trabalham em Portugal?
A Lockheed Martin tem uma longa e orgulhosa tradição que remonta aos anos 1970 com o programa C-130, passando pelos anos 80 com o P-3 e, como mencionou, com o programa F-16. O F-35 será a continuação dessa parceria. Falamos de 50 anos, mas acrescentaremos décadas a isso se e quando o governo português selecionar o F-35.
Atualmente, identificamos 16 projetos que representam oportunidades para a indústria portuguesa participar no ecossistema da Lockheed Martin que temos aqui. Os produtos que mencionei são muito voltados para o setor aeroespacial, mas a Lockheed Martin é uma grande empresa com muitas participações em Portugal. Esse MoU que mencionei visa ampliar a atuação da empresa no setor aeroespacial. Trata-se de simulação e treino para as empresas da Lockheed Martin.
Atualmente, identificamos 16 projetos que representam oportunidades para a indústria portuguesa participar no ecossistema da Lockheed Martin que temos aqui. Os produtos que mencionei são muito voltados para o setor aeroespacial, mas a Lockheed Martin é uma grande empresa com muitas participações em Portugal.
Portugal aguarda o arranque do processo de substituição dos F-16. Há várias empresas a posicionar-se, além da Lockheed Martin, a Saab e o consórcio Eurofighter. Há este impulso na Europa para a compra de equipamentos europeus. Este contexto geopolítico poderá impactar negativamente a vossa proposta?
Uma das perguntas que mais recebemos é: o F-35 é um produto americano e como ele é comparado a plataformas europeias. O F-35 é, na verdade, um produto global que conta com o apoio da indústria europeia. Portanto, um investimento no F-35, caso Portugal decida formalizar o seu processo de aquisição, será também um investimento na indústria europeia. Mais de 25% do valor de cada F-35 que sai da linha de produção é, na verdade, proveniente de componentes fabricados na Europa. Portanto, existe essa meia verdade não totalmente comprovada de que se trata de um produto americano. É um produto global em que a Europa desempenha um papel vital na construção, fabricação e também na manutenção.
Mas também contamos com uma infraestrutura de suporte fornecida por empresas europeias. A italiana FACO [acrónimo para Final Assembly and Check-Out na Base Aérea Cameri em Itália, o único hub de produção e manutenção dos F-35 fora dos EUA], a Leonardo, a Rheinmetall na Alemanha e a BAE no Reino Unido são apenas alguns exemplos das parcerias que o programa F-35 mantém com a indústria europeia. Então, não posso deixar de reforçar isso, é um produto global. Nasceu como um programa cooperativo global, com oito parceiros fundadores. Vários desses países são europeus. Treze países europeus aderiram ao programa desde o seu início, totalizando agora 20. E agora, todos esses 20 países estão a ajudar a apoiar a indústria europeia. Portanto, se e quando Portugal se tornar o 21.º país a entrar no programa, fará parte desse ecossistema, mas também contribuirá para ele.
Mais de 25% do valor de cada F-35 que sai da linha de produção é, na verdade, proveniente de componentes fabricados na Europa. Portanto, existe essa meia-verdade não totalmente comprovada de que se trata de um produto americano. É um produto global em que a Europa desempenha um papel vital na construção, fabricação e também na manutenção.
As empresas europeias na corrida referem que a sua tecnologia é aberta e que estão dispostos a partilhá-la com o país que comprar os seus caças. No caso dos F-35 há a ideia de que a tecnologia é uma ‘caixa negra’ não controlada pelos países que a compram. É uma análise justa? Porque é uma preocupação.
Se fosse esse o caso, seria uma preocupação, mas no caso do programa F-35, não é uma preocupação. Já ouvi falar em diferentes versões, já ouvi falar de um interruptor de segurança (kill switch). Existem rumores de um ‘botão vermelho mágico’ ou algo assim que alguém poderia desligá-lo.
Pode ser visto no sentido em que se os aviões não receberem as suas atualizações de software têm um desempenho abaixo de caças de outros países que os receberam. Poderá ser uma situação real?
Não, não é uma situação real. E vou usar um exemplo recente. Provavelmente está familiarizada com o TR3, ou seja, o Tech Refresh 3 e o Block 4. Essas são atualizações de software pelas quais o F-35 passou recentemente. Durante essa atualização, houve desafios pelo caminho, mas todos esses desafios foram compartilhados por todos os clientes do F-35. É um programa compartilhado ao longo do processo. É um programa cooperativo. Se houver um problema de software, todos enfrentam esse problema, não apenas um país ou outro. Espero que isso responda à questão. É um programa compartilhado, para o qual todos os países contribuem. Dessa forma, o custo é compartilhado e todos os países se beneficiam.
Só para clarificar. Se Portugal comprar F-35 não vai comprar uma caixa negra…?
Não, então não estariam a comprar um F-35, estariam a comprar outra plataforma. O F-35 possui um programa de modernização robusto, que justifica a compra desta plataforma de quinta geração. É como o iPhone que tem em mãos agora. Conforme o software é melhorado ou se ocorre alguma falha ou problema no programa, todos os utilizadores recebem as atualizações. Todos os utilizadores têm a oportunidade de contribuir com sugestões, como: “Encontrei um problema. Acho que poderíamos melhorar isso um pouco”. Já existe um programa de melhoria contínua integrado.
Quais as novas tecnologias, os novos sistemas disponíveis é um aspeto das atualizações de software. Outro é o da melhoria contínua. Como a plataforma pode ter um desempenho ainda melhor? Pode ser um operador de manutenção português, e talvez descubra uma maneira melhor de substituir uma peça. Posso contribuir com isso. ‘Deixe-me atualizar as instruções e compartilhá-las com todo o projeto F-35.’
As equipas portuguesas conseguirão fazer as atualizações ou a manutenção, ou dependerão totalmente da equipa americana para que isso aconteça?
Com certeza. Os técnicos portugueses serão responsáveis pela manutenção da plataforma. Há mais de 3.300 pilotos e 20.000 técnicos de manutenção. Esses números representam a totalidade dos participantes globais. Então eles estarão a operar o caça, a pilotar o caça e a fazer a sua manutenção.
Os F-35 são conhecidos por fazerem muitas missões de ataque em profundidade. Portugal está envolvido, sobretudo, em missões de policiamento aéreo, tem uma longa costa para monitorizar. Faz sentido um F-35 para esse tipo de missões?
Com certeza. O policiamento aéreo é uma das muitas missões pelas quais o F-35 é reconhecido. Quando falamos de capacidade de sobrevivência, quinta geração e os aspetos furtivos da plataforma, no policiamento aéreo, é essencial ter uma plataforma que detete algo antes de ser detetada, para que possa recolher essas informações e compartilhá-las de forma integrada e segura com a base ou com outros recursos de defesa. É nesse ponto que o F-35 se destaca. Além disso, caso haja uma ameaça, é fundamental que o F-35 seja capaz de retornar à base e sobreviver a esse encontro. Portanto, acredito que a furtividade e as plataformas de quinta geração são essenciais para uma missão de policiamento aéreo. Mas, novamente, essa é apenas uma das muitas missões pelas quais o F-35 é conhecido.
À medida que a ameaça evolui, a plataforma também evolui. E isso é algo que somente uma aeronave de quinta geração pode fazer. Uma aeronave de quarta geração jamais poderá ser uma aeronave furtiva. Por isso, acho fundamental distinguir a capacidade de sobrevivência e o poder furtivo da quinta geração em relação a uma plataforma mais antiga sem furtividade, como uma aeronave de quarta geração.
Quanto à tecnologia furtiva, não há muita certeza de quão eficaz é neste momento, existem formas de detetar o avião, com a evolução da tecnologia e dos radares. Ainda é um aspeto que faz pesar a balança?
Acredito firmemente que a capacidade de sobrevivência é absolutamente relevante e que as características furtivas do F-35 foram comprovadas em combate. Novamente, este é um programa maduro. Estamos a ver nas operações atuais que as características furtivas estão a funcionar conforme o previsto e esperado.
Mas voltemos à atualização e ao amadurecimento contínuos do programa. É aqui que o F-35 deixa de ser uma plataforma estática. À medida que a ameaça evolui, a plataforma também evolui. E isso é algo que somente uma aeronave de quinta geração pode fazer. Uma aeronave de quarta geração jamais poderá ser uma aeronave furtiva. Por isso, acho fundamental distinguir a capacidade de sobrevivência e o poder furtivo da quinta geração em relação a uma plataforma mais antiga sem furtividade, como uma aeronave de quarta geração.
Até há algumas semanas não tinha havido nenhuma carta do governo português a pedir informação. Essa situação mudou desde então?
O governo dos EUA ainda não recebeu formalmente uma carta de solicitação. Estamos a aguardar pacientemente a formalização dos requisitos. Estamos em contacto, a preparar-nos para o futuro, a reunir com a indústria portuguesa para discutir oportunidades de apoio ao F-35.
Um estudo interno das FAP dá os F-35 como opção preferencial face à concorrência e nos AED Days essa preferência das FAP foi igualmente referida. Como comenta? Poderá indicar a decisão final do Governo português?
A decisão de adquirir o F-35 cabe exclusivamente ao governo português. Qualquer processo oficial de aquisição terá início com uma carta formal dirigida ao Governo dos EUA. O F-35 é o caça de 5ª Geração mais avançado e testado em combate que está disponível hoje, e oferece à Força Aérea Portuguesa capacidades incomparáveis para o presente e para o futuro. Embora não possamos especular sobre o cronograma de uma carta, estamos prontos para responder. Com base em décadas de parceria de sucesso com Portugal no quadro dos programas F-16, C-130 e P-3, estamos preparados para fornecer o F-35 para garantir a soberania aérea do país e apoiar a economia de defesa portuguesa.
Existe muita discussão em torno da NATO, o papel da Europa na NATO, dos EUA… Quão confiante está de que, no final, a escolha será o F-35 e não outra opção?
Pelo que entendi das conversas informais que temos tido com a Força Aérea Portuguesa, vários temas de extrema importância emergiram. Uma delas é a relevância. São um parceiro da NATO. Até 2035, mais de 700 F-35 estarão a operar na Europa e será a plataforma preferida da NATO.
Quando falamos de interoperabilidade, Portugal precisa ter uma plataforma que se integre perfeitamente à plataforma escolhida pela NATO. Isso é crucial. Obviamente, também querem garantir que seja relevante. E discutimos a diferença entre a 4.ª e a 5.ª geração. Que plataforma continuará a responder às necessidades atuais, mas também terá a capacidade de ser modernizada para as necessidades futuras? E o F-35 está melhor posicionado para isso.
A aquisição de qualquer plataforma ou aeronave é um investimento significativo, mas qual é o melhor investimento para o futuro? Acreditamos que o F-35 é o que melhor faz isso. Relevância, capacidade de sobrevivência, as características furtivas, a capacidade de compartilhar informações com segurança por meio da interoperabilidade. E, obviamente, há as missões que Portugal tem em função de suas próprias necessidades soberanas. Policiamento aéreo é outro ponto. Qual é a melhor plataforma para enviar um piloto português para realizar vigilância e policiamento aéreo? Uma plataforma moderna de 5.ª geração ou uma do passado? E é aí que eu acho que o F-35 continua a brilhar.
Foi noticiado que algumas empresas americanas estavam a atrasar a entrega de equipamentos militares devido à enorme procura interna, o que as impedia de cumprir os prazos de entrega de produtos encomendados há anos. Que garantia tem Portugal de que não irá enfrentar esse problema, caso feche o negócio com a Lockheed?
O programa F-35 segue o processo de vendas militares estrangeiras. Há uma Carta de Recomendação para a Carta de Aceitação e, eventualmente, a adjudicação do contrato. A empresa está comprometida em cumprir todos os prazos de entrega contratuais. Não existe prioridade. Não existe “bem, tem algo a acontecer neste teatro de operações e você sobe na fila”. Não é assim que funciona o programa F-35. Uma vez que há uma data contratada e uma data de entrega, a empresa está motivada e obrigada a cumprir esses requisitos. Não há interferência externa que possa afetar o mercado.
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